Acervo pessoal
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Clubes de leitura aproximam pessoas, distraem e proporcionam trocas de experiência no isolamento

Durante a quarentena, clubes de leitura reúnem online leitores de todo o País; veja ainda dicas de como montar um clube do livro

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

24 de junho de 2020 | 05h00

Ler é um ato solitário, e quem já participou de um clube do livro ou assistiu ao filme O Clube de Leitura de Jane Austen, por exemplo, sabe como a leitura compartilhada e a escuta podem ser transformadoras. 

Cleide Tomazini Aichele, de 78 anos, nunca foi muito de ler, mas desde que começou a frequentar o Clube de Leitura 6.0 assim que ele foi inaugurado, um pouco antes do início da quarentena, no Núcleo de Convivência de Idosos do Centro de Assistência e Promoção Social Nosso Lar, na Mooca, isso mudou.

Foram dois encontros presenciais no início do projeto, do qual só pode participar quem tiver mais do que 60 anos, e então o isolamento começou. Eles passaram a se reunir online semanalmente para discutir a leitura proposta pelo clube criado pelo Observatório do Livro – que está presente em 60 cidades do Estado e, se não fosse pela pandemia, já estaria em 100 municípios. Em uma semana, os participantes conversam sobre o e-book que leram. Na outra, sobre o audiolivro que ouviram.

A leitura está ajudando Cleide, que entrou mal na quarentena. Ela tinha perdido o companheiro que estava ao seu lado havia 60 anos e levado um tombo feio no dia 11 de março. “Eu estava mal e percebi que meu organismo não estava reagindo. Não podia sair, nem estava disposta a sair. Ler está me ajudando a passar o tempo, a refletir e a formar opinião. Isso tem ocupado a minha cabeça. Meu ânimo está melhor e sinto que estou com mais coragem”, diz. 

Nas discussões, ela conta, ainda prefere apenas ouvir. E só isso já é enriquecedor. “Como li pouco na vida, não tenho facilidade de comentar os livros, mas é muito interessante perceber que às vezes a leitura de outra pessoa não bate com a sua.”

Nesta quarentena, entre os livros que ela leu está O Dilema do Porco-espinho, de Leandro Karnal. Leu também Machado de Assis. “Hoje sinto que devia ter começado a ler antes, mas nunca é tarde”, diz Cleide, que tem gostado muito de audiolivro também pela possibilidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo. “É uma coisa maravilhosa”, finaliza.

Ex-presidente da Biblioteca Nacional e jornalista especializado em projetos de formação de leitores, Galeno Amorim foi quem idealizou o Clube de Leitura 6.0, que está sendo realizado com a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo. Para ele, além do entretenimento de qualidade e da interação entre as pessoas, ler livros de literatura durante a quarentena pode ajudar, principalmente os mais velhos, a lidar melhor com temas como solidão, angústia, insegurança e medo – tão presentes nesses dias.

Mas ele vai além. “Um dos principais benefícios de se compartilhar a experiência da leitura é a possibilidade real de trocas, que se dão em função da visão de mundo de cada um, com seus olhares distintos sobre o mesmo assunto e os lugares de fala de cada leitor.” Ele completa: “É assim que a gente cresce e vai se tornando um leitor cada vez mais exigente”. Outro benefício, segundo ele, é de ordem prática. “O compromisso assumido com o grupo é, muitas vezes, essencial porque nos ajuda a seguir em frente, a não desistir da leitura.”

Frequentadora assídua do Clube de Leitura da Biblioteca São Paulo há cerca de quatro anos, Alice Seixas, de 79 anos, só está conseguindo acompanhar as discussões porque elas estão ocorrendo online – e não só pelo coronavírus, mas também porque ela precisou ir para o Paraná para dar uma assistência à filha. “Como não podemos retirar o livro, a biblioteca nos manda o e-book e nos encontramos online para discuti-lo. Funciona, mas a interação é diferente: falta calor humano. Acho que as pessoas ficam mais inibidas”, comenta. Ela, que sempre leu muito, sente que sua concentração piorou com o decorrer da quarentena, mas tem aproveitado para se familiarizar mais com seu Kindle.

Alice sabe o bem que a leitura faz. “Sem dúvida, ela ajuda muito. O tempo que lemos esquecemos do mundo, viajamos, nos afastamos um pouco das notícias ruins.” E ela gosta da experiência da leitura compartilhada. “Ler é muito solitário. Quando você lê sabendo que vai compartilhar a sua experiência, acaba lendo com outros olhos. E ouve o que os outros apresentam. Isso nos estimula e enriquece. Nesse momento, é ainda mais importante.”

Pierre Ruprecht, diretor executivo da SP Leituras, organização social que administra a Biblioteca São Paulo e a Villa-Lobos, acredita no poder de formação de leitores dos clubes. “O clube funciona dentro desta lógica: você enriquece sua visão e experiência de leitura por meio da experiência do outro. É como se você entrasse no texto com uma lanterna para desvendar as maravilhas que há lá dentro e de repente entram outras 20 outras lanternas com você.”

Para Ruprecht, o segredo de um bom clube do livro é se afastar da abordagem acadêmica. Não é para funcionar como uma aula, ele diz, e teoria literária, aqui, não é mais importante do que a vivência de cada um. As duas bibliotecas ainda estão aprendendo a fazer essa programação virtual, e estão fazendo isso com a Companhia das Letras.

Os grupos dos encontros presenciais não eram grandes – eles recebiam cerca de cinco pessoas por evento. Em março, já online, 8 pessoas participaram. Em abril, também. Em maio o número saltou para 22, com registros de participantes de outras cidades também. O fato de ser virtual, de não demandar deslocamentos, ajudou na ampliação do público, mas Pierre Ruprecht também acredita que o momento é propício para a leitura. “Por causa dessa gigantesca disrupção que a pandemia provocou, as pessoas aproveitaram o momento para tentar responder a perguntas que não conseguiam antes. Elas estão se dando o direito de experimentar coisas novas – e a leitura compartilhada é uma delas. As pessoas estão buscando a leitura e a leitura tem se revelado uma possibilidade muito rica de as pessoas se repensarem. Isso tem a ver com esses tempos.” Os encontros voltam a ser presenciais, quando for possível. Mas é provável que eles também continuem sendo realizados virtualmente.

Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, do Leia Mulheres, o maior clube do País, feito coletivamente, espalhado por todos os Estados brasileiros, dedicado à leitura de obras de escritoras e sem fins lucrativos, avaliam que as discussões mudam muito do online para o presencial. “E isso torna os encontros presenciais ainda mais importantes depois disso tudo”, ressaltam. No online, tem sido mais um momento de escuta do que de troca, avaliam. “Nem todos se sentem à vontade e os aplicativos para esses encontros algumas vezes não contribuem para dinâmica. Por outro lado, para muitas pessoas foi um momento de se desligar do mundo e conversar sobre livros.”

Embora a preferência seja pelos encontros cara a cara, surgiu a ideia de fazer um festival reunindo mediadoras e leitores dos clubes de todas as cidades. A primeira edição começa no dia 4 de julho e a ideia é que esses encontros virtuais sejam mensais. Sobre a leitura compartilhada, elas dizem que ela ajuda não só a ler mais, mas a compreender mais o mundo e a ter mais empatia. “Participar de um clube não é só falar, mas ter esses momentos de escuta e discussão que trarão ainda mais conteúdo para o livro. Além disso, muitas participantes se tornaram amigas”, comentam. 

Como montar um clube de leitura

A pedido do ‘Estadão’, o coletivo Leia Mulheres preparou um roteiro para quem quer começar um clube de leitura. A primeira pergunta a se fazer é: Qual é seu objetivo? “Se for fama e virar influencer, talvez não seja o projeto mais indicado, pois mediar clubes significar ouvir mais do que falar”, explicam as idealizadoras. É preciso pesquisar, planejar, se organizar. Ter em mente se será um clube para amigos ou algo mais amplo, e se será temático. Veja dicas e orientações.

  1. Será online ou presencial? Se for presencial, convide alguém para ajudar – nem toda discussão é tranquila e ter parceria na mediação ajuda a ganhar confiança ao longo do tempo.
  2. Faça o convite para o clube com uma boa antecedência. Um dia antes pergunte aos amigos se eles irão.
  3. Escolha um livro de fácil acesso, que tenha em biblioteca ou custe pouco. A linguagem também vai influenciar quem vai ao clube.
  4. Quantidade não é qualidade. Não é porque um clube é cheio que o debate é bom. A principal coisa nos clubes é o momento de escuta, de troca. É um exercício de empatia.
  5. Mediação não é palestra. Você vai precisar entender que sua opinião não precisa prevalecer e que quando alguém não gosta do livro que a maioria gostou isso pode deixar o clube mais divertido.
  6. Você está preparado para adaptar um ato solitário para algo coletivo? Está preparado para pensar mais coletivamente do que individualmente?
  7. Clubes de leitura não são aulas. Não seja acadêmico. Ter uma base acadêmica dos temas pode agregar, mas saiba dosar. Em clubes abertos ao público, uma conversa acadêmica pode inibir as pessoas.
  8. Para muitos, o clube pode funcionar como uma terapia, um local de choro, de conversa, de abraço. Se quiser montar algo mais acadêmico, deixe claro desde o início.
  9. Esteja aberto a encontrar pessoas incríveis. E, antes de tudo, divirta-se: ler pode e deve ser muito divertido, ainda mais em conjunto.
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