Evelson de Freitas|Estadão
Evelson de Freitas|Estadão

Claudio Willer lança 'A Verdadeira História do Século 20'

Obra sai pela editora portuguesa Apenas Livros

Wilson Alves-Bezerra, ESPECIAL PARA O ESTADO

01 de abril de 2016 | 20h17

Em entrevista no programa Provocações, em 2003, Antônio Abujamra pergunta a Claudio Willer, por que, desde 1981, ele não publicava um livro de poesia. Sarcástico, o poeta responde: “Se você me materializar um editor, eu publico”. Poeta bissexto com trajetória lírica de meio século, os editores de Willer têm sido singulares: o nipo-brasileiro Massao Ohno, o alemão Meyer-Clason e agora a portuguesa Maria Estela Guedes, responsável por seu novo livro, A Verdadeira História do Século 20, pela lisboeta Apenas Livros.

Embora Willer seja responsável pela circulação em grande escala de um cânone radicalíssimo, composto por Ginsberg, Kerouac, Lautréamont e Artaud, a quem ele traduziu, prefaciou e comentou em livros, artigos e cursos por todo o País, paradoxalmente, a sua poesia tem encontrado circulação limitadíssima em livro no Brasil. Cabe nos perguntarmos se o lugar da poesia autoral no País é de fato o das edições artesanais; se sim, o que explicaria então a considerável circulação brasileira das traduções já referidas do próprio Willer? Ou a regra só vale para poetas nacionais?

Falemos do novo livro. O título remete a um tratado, mas, seguindo o que diz Gracq em epígrafe: “Temos menos sede de verdade do que de revelação”, as águas willerianas são visionárias. Os poemas se constituem sob comoção, seja entre poeta e paisagem, mulher, linguagem, ou tudo ao mesmo tempo, pois os recursos de associação explicitam o continuum entre mundo e linguagem: “Você: véu de gaze azulada roçando, suave / furacão: róseo / perfeição: parábola de perfumes”, como se lê no poema que dá título ao livro. O século de Willer é o século das livres associações de Freud, do aleph de Borges, do cinema de Hitchcock e Reichenbach e da escrita automática de Breton.

Sua poética se compõe, ademais, da “anotação”, termo de sua estreia, em 1964: seus poemas anotam visões ou as suscitam no leitor. A poesia é o último recurso e o mais radical: “O poema/ só quando for impossível traduzir um estado interior de outro modo” diz, num dos mais belos momentos do livro, “Os poetas paulistas”, em que rememora sua geração – de Piva, De Franceschi e outros – “agora devo habituar-me a inesperadas proporções e novas simetrias de estarmos juntos, / pois nós nos tornamos a extensão de um texto de frases entrecortadas”. Tal autorreferência lateral transforma o poeta em personagem coadjuvante da própria poesia, de seu próprio século, conferindo centralidade mais às visões do que àquele que as produz: “O vento conduzido pelas nuvens. / Uma nova geração se expressa. / São lacunas (anotar tudo)”. (em Cinemas).

O livro conclui com dois resgates da fase inicial do grupo paulista: textos que reafirmam o vigor beat-surrealista daqueles primeiros anos e, confrontados à produção atual, mostram que o poeta de hoje é mais solar e sereno, mas de iguais fundamentos. Tarde de Sol reatualiza aqueles tempos: “Os poetas: eles deveriam viver em permanente espanto diante / das civilizações que se desfaziam para renascer da própria sombra”. Que dos escombros se materialize um editor nacional à altura do poeta.

* WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DE LETRAS DA UFSCAR

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