Jack Liu/The New York Times
Jack Liu/The New York Times

Clássico de Ursula Le Guin ganha edição comemorativa de 50 anos

Autora americana de fantasia e ficção científica abordou a questão de gênero em 'A Mão Esquerda da Escuridão'

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2019 | 03h00

Quando a escritora americana Ursula K. Le Guin iniciou sua carreira, entre o fim dos anos 1950 e o começo dos anos 1960, algo em torno de 10% a 15% dos autores de ficção científica eram mulheres, de acordo com um estudo do pesquisador Eric Leif Davin. Talvez isso explique porque ela se debruçou tão seriamente sobre a questão de gênero em seu livro mais conhecido, A Mão Esquerda da Escuridão, publicado em 1969 e que está ganhando uma nova edição comemorativa de 50 anos pela editora Aleph.

A Mão Esquerda da Escuridão narra a viagem do diplomata terráqueo Genly Ai ao planeta Gethen. Sua tarefa é convidar os habitantes desse mundo para uma confederação interplanetária da qual diversos outros povos espalhados pelo espaço fazem parte – essa espécie de “Organização dos Planetas Unidos” está presente em outras obras relevantes da autora, como em Os Despossuídos, romance sobre a Guerra Fria ambientado entre dois planetas que se orbitam, um capitalista e outro comunista, evidenciando os lados sombrios de ambos os sistemas econômicos. 

A missão diplomática de Genly Ai parece simples, até que ele de fato entra em contato com os habitantes de Gethen e compreende como eles são. Embora semelhantes em quase tudo à fisiologia dos seres humanos, essas pessoas têm uma característica fundamental para o romance: eles são ambissexuais, ou seja, podem assumir ambos os sexos, masculino e feminino. Quando eles entram no período reprodutivo, tornam-se machos ou fêmeas – sem poder escolher ou mesmo prever qual condição vão desenvolver naquele cio – e acabam desempenhando o papel masculino e feminino diversas vezes ao longo da vida, apenas para fins sexuais e reprodutivos.

Em reflexões posteriores, Le Guin admitiu que seu romance tinha um tom heteronormativo demais para o seu gosto – a anatomia dos habitantes de Gethen não admite gêneros neutros, fluidos ou qualquer variação queer, tampouco são mencionados casos de homossexualidade entre os personagens.

De qualquer forma, feita essa ressalva, a biologia peculiar de Gethen define a temática tratada em A Mão Esquerda da Escuridão: a enorme influência do gênero na vida não sexual das pessoas. Por meio de personagens que não se assumem nem como homens nem como mulheres, é possível perceber o comentário de Le Guin sobre o machismo no nosso mundo. 

Toda a reflexão do romance, sempre pelas entrelinhas, se dá pelo contraste dessa sociedade – que é, por definição, livre de machismo, uma vez que não há homens e mulheres permanentes – com a nossa, em que o gênero de uma pessoa define todas as instâncias de sua vida, ainda que essas facetas não tenham nada a ver com sexo. É curioso, por exemplo, ver como Genly é uma aberração para os habitantes de Gethen por ter um gênero definido e, portanto, estar pronto para acasalar a todo momento, algo impensável no planeta e que o faz ser visto como um pervertido.

A Mão Esquerda da Escuridão questiona dessa forma os papéis sociais atribuídos aos gêneros, indicando, por exemplo, que sem o ímpeto masculino à violência, não haveria guerras – Gethem passa por um conflito duradouro entre as duas grandes nações que dividem a superfície do planeta, mas essa disputa nunca chega às vias de fato, sendo travada de forma não violenta, talvez uma metáfora da Guerra Fria, que estava em seu auge na época.

Apesar de imputar a natureza bélica ao lado masculino da humanidade, Le Guin, em uma das últimas entrevistas de sua vida, concedida ao Estado em 2017, demonstrou uma postura abertamente pacifista a respeito da questão de gênero. Ela afirmou que não considera justo rotular como uma “luta” a busca por direitos igualitários entre homens e mulheres: “Chamar de ‘luta’ imediatamente faz minha mente assumir que essa é uma batalha de mulheres contra homens. Não é nada desse tipo. É uma tarefa para todos nós, uma árdua tarefa. Tanto mulheres como homens têm muito trabalho a fazer a fim de ganhar e manter liberdade, igualdade e justiça para todos”. 

Essa fala não poderia resumir melhor o cerne de A Mão Esquerda da Escuridão, que continua atual meio século depois de seu lançamento. 

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