Acervo Paulo Gurgel Valente
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Clarice Lispector: uma sugestão de roteiro de leitura

A poeta Mariana Ianelli indica um caminho para a literatura de Clarice Lispector; centenário da autora de 'A Hora da Estrela' é em 2020

Mariana Ianelli, Especial para O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2019 | 06h00

Até dezembro de 2020, muito vai se falar sobre Clarice Lispector, a autora de A Paixão Segundo G. H. e A Hora da Estrela: em 2020, completam-se 100 anos do seu nascimento.

Para os leitores interessados nesse mergulho, a poeta Mariana Ianelli fez, a convite do Estado, uma sugestão de roteiro de leitura.

PARA COMEÇAR SEM MEDO

  • Água-viva (1973)

Ficção da década final da produção da escritora. Pequena dose de Clarice concentrada. Vale a aposta nesse choque inicial, já que a experiência de ler Clarice passa, inevitavelmente, pelo espanto de algo que nos é ao mesmo tempo insólito e muito íntimo. O difícil desta ficção de alta poeticidade e pouco enredo é o difícil de pensar “sem ser com a cabeça” (C.L.).

  • A Descoberta do Mundo (1984)

Recolha póstuma de crônicas, serve para temperar o primeiro impacto com o texto de Clarice e tomar contato com a escritora em sua voz mais pessoal, de bastidor, a partir de como ela encara e leva para a literatura episódios da vida cotidiana e do real.

  • Laços de Família (1960)

Seu livro de contos mais popular, coletânea perfeita tanto para quem quer começar quanto para quem busca o melhor e o mais palatável de Clarice num livro só. Aí estão também alguns dos seus motivos mais caros (por exemplo, o ovo e a galinha) e seu modo característico de narrar: pensando a mescla impura de sensações humanas em pequenas ocorrências de enredo que deflagram grandes implosões nos personagens.

PARA AVANÇAR EM ESTRANHEZAS

  • A Via Crúcis do Corpo (1974)

Entre as coletâneas de contos de Clarice, a mais controversa, escrita sob encomenda. Para rever, hoje, neste livro, as transgressões do feminino. Ou seguir sem erro por outros contos, de Felicidade Clandestina (1971) e A Legião Estrangeira (1964).

  • Um Sopro de Vida – Pulsações (1978)

Último romance de Clarice (com publicação póstuma), pode servir de mergulho não só nas inquietações humanas dos personagens: também uma imersão nas questões metadiscursivas, nas inquietações próprias da criação e do processo de escritura, questões de origem e identidade, outra marca de Clarice.

  • Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)

Romance que “começa sem começo”, bem claricianamente: com uma vírgula. História de dois personagens em mútua aprendizagem de amor: livro de mínima trama e grandes acontecimentos internos (do corpo, do ser, do pensamento). Também uma história sobre os prazeres da linguagem.

PARA IR A FUNDO

  • A Paixão Segundo G.H. (1964)

Romance dos mais complexos da obra da escritora, tem um ponto de vantagem para o leitor comum: “É coisa para ser subliminarmente compreendida” (C.L.). Como de fato aconteceu, e a escritora contou em entrevistas, o enigma de recepção deste vertiginoso monólogo (de alta poeticidade, como Água-viva) é que um adolescente de repente pode alcançar tudo dele, e um professor de literatura, nada. Livro de iluminações, pode ser lido/descoberto em fragmentos (vide adaptação de Fauzi Arap, para o teatro, em 2002, na interpretação de Mariana Lima).

  • A Maçã no Escuro (1961)

Um romance considerado denso, difícil, filosófico. Para leitores desapressados e dostoievskianos. Também explora as inquietações do próprio dizer, da própria linguagem. Vale a pena chegar a este livro tendo já passado pelo metadiscurso de outros, como Água-viva, Um Sopro de Vida ou Uma aprendizagem.

  • A Cidade Sitiada (1949)

Romance menos conhecido, de recepção também controversa, indecifrável para muitos. Para Clarice, um de seus melhores trabalhos, que escreveu quando morava na Suíça (Berna) e estava grávida. Está entre os livros da primeira década (terceiro romance) e, mesmo entre eles, é o menos “clariciano” (intuitivo), intencionalmente aparatado de referências, nomes, símbolos e cenários.

PARA UMA LEITURA COMPARADA

  • A Hora da Estrela (1977)

Mesmo quem conhece pouco de Clarice alguma vez ouviu falar de Macabéa, personagem popularizada no imaginário literário brasileiro desde 1985, com o filme homônimo de Suzana Amaral. É interessante (recomenda-se) uma leitura de extremidades, num retrospecto da “estrela de Clarice”: de Macabéa, uma das últimas personagens criadas pela escritora, a Virgínia e Joana, personagens dos primeiros livros, O Lustre (1946) e Perto do Coração Selvagem (1943).

 

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