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Clarice Lispector: livro amplia detalhes sobre a vida da autora

Biografia escrita por Teresa Montero resgata observação da Polícia Política sobre suas atividades

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2021 | 05h00
Atualizado 23 de novembro de 2021 | 10h13

Em 27 de janeiro de 1950, a escritora Clarice Lispector (1920-1977) foi fichada pela Delegacia Especial de Segurança Política e Social, cujo arquivo reunia informações sobre lideranças políticas, militares, comunistas, integralistas, associações, periódicos, entre outros. “O que nos chama a atenção é o que teria levado a polícia política a fichar a escritora considerando-se que, na ocasião, ela não exercia nenhuma atividade fora do seu ofício como escritora que pudesse nomeá-la de ‘subversiva’”, observa a professora Teresa Montero, uma das maiores especialistas na vida e obra de Clarice e que lança agora À Procura da Própria Coisa (Rocco), biografia da escritora e que pode ser considerada uma edição revisada e aumentada de Eu Sou Uma Pergunta, da mesma Teresa e publicada em 1999.

Nesses mais de 20 anos que separam as duas obras, Teresa aumentou o volume de sua pesquisa com informações praticamente desconhecidas, trazendo mais detalhes sobre a biografia da grande escritora – como o fichamento pela Polícia Política. Na pesquisa, Teresa não encontrou evidências que justifiquem tal ato, assim, elabora algumas hipóteses. Uma delas é o fato de Clarice ter “nacionalidade russa”, como consta em sua ficha. “Nascer na Rússia era motivo para as autoridades policiais especularem possíveis vínculos com os ideais comunistas”, argumenta a pesquisadora.

Clarice era casada com Maury Gurgel Valente, que trabalhava no Itamaraty, na Divisão Econômica, e auxiliava a Comissão de Reparações de Guerra. “Ser esposa de um funcionário do Itamaraty a tornava mais suscetível?”, especula Teresa, lembrando ainda da amizade do casal com o jornalista Samuel Wainer e sua esposa Bluma que, no entender da polícia do governo de Eurico Gaspar Dutra, podiam ser classificados como “comunistas”.

Mais evidentes pareceram os motivos de outro órgão de investigação a ficar de olho em Clarice Lispector, como Teresa também mostra no livro. Em 1973, o Serviço Nacional de Informações, o SNI, considerado o principal órgão de inteligência da ditadura militar, reuniu documentos que, além de trazer informações biográficas da autora, informa ter ela participado da passeata dos estudantes contra a censura, no Rio, em 1968, integrando o grupo de intelectuais e artistas.

Discurso

A ficha aponta uma declaração de Clarice ao jornal Última Hora: “Eles têm toda razão em lutar por um mundo menos podre do que esse em que vivemos atualmente”. Outro documento informa que Clarice teria participado ainda de uma reunião com religiosos e líderes sindicais, no Colégio Santo Inácio, no qual pronunciou discurso sobre a “necessidade de união de classes contra a ditadura”.

Também sobre esse fichamento, Teresa levanta hipóteses. Ela lembra que Clarice era colaboradora do Jornal do Brasil desde 1967, no qual publicava crônicas aos sábados. “A imprensa estava sob censura. A visibilidade de uma coluna certamente motivava uma observação permanente pelos órgãos de informação”, especula a pesquisadora, lembrando ainda que o redator-chefe do JB era Alberto Dines, jornalista vigiado de perto pelo SNI. Segundo Teresa, a coluna não é citada na investigação do órgão, que ressalta a participação de Clarice na passeata em apoio aos estudantes, em junho de 1968. “A adesão de um grupo expressivo de artistas e intelectuais reflete como Clarice estava sintonizada coletivamente contra o regime ditatorial em vigência naquele período. Isso por si só justificaria a abertura da ficha naquele momento?”, questiona.

Finalmente, Teresa Montero lista outro fato que confirma o quanto Clarice estava sob o controle pelos serviços de informação da época: a entrevista que fez, para a revista Fatos & Fotos, com o poeta Ferreira Gullar, em 1977. O escritor acabara de voltar de um exílio e, ao chegar, passara por momentos tensos ao ser detido para as chamadas averiguações de praxe, já que havia sido indiciado em 1971.

“A entrevista mostrou em alguns momentos de forma explícita como Clarice partilhava da visão de mundo de Gullar”, constata Teresa, lembrando que a grande admiração da escritora pelo Poema Sujo, livro de Gullar então recentemente publicado e que se tornaria uma das obras-primas da literatura brasileira, “demonstrava uma adesão explícita aos valores em defesa da liberdade, em prol da democracia e contra as desigualdades”.

Logo depois de publicada a entrevista, o Centro de Informações do Exército, o CIE, acrescentou no histórico que produzia sobre o poeta o seguinte informe: “Clarice Lispector, da mesma linha de seu entrevistado, Ferreira Gullar, procura tornar simpática a imagem deste ‘poeta’ criado pelo PCB”.

Teresa Montero observa, contudo, que as atitudes públicas da autora não a poupavam de críticas de setores da esquerda, notadamente daqueles que não a conheciam bem. Ela cita o caso do cartunista Henfil, que exigia dos escritores uma literatura engajada e, para ele, Clarice era “alienada”, “vivia numa redoma”. 

Henfil

Teresa Montero observa, contudo, que as atitudes públicas da autora não a poupavam de críticas de setores da esquerda, notadamente daqueles que não a conheciam bem. Ela cita o caso do cartunista Henfil, que exigia dos escritores uma literatura engajada e, para ele, Clarice era “alienada”, “vivia numa redoma”. “Em Cemitério dos Mortos-Vivos, segundo explica seu biógrafo Dênis de Morais, Henfil enterrava personalidades que, a seu juízo, colaboravam ou simpatizavam com a ditadura, se omitiam politicamente ou eram porta-vozes do conservadorismo”, comenta Teresa. E, segundo o próprio Henfil, Clarice (assim como Nelson Rodrigues, Bibi Ferreira, Pelé e Gilberto Freyre, entre outros) preferia “ficar num mundo de flores e de passarinhos, enquanto Cristo está sendo pregado na cruz”.

Clarice respondeu de forma irônica, em uma entrevista a Sergio Fonta, no Jornal de Letras, em abril de 1972: “Ele não me conhece o bastante para saber o que eu penso ou não. Não estou isolada dos problemas. Ele não sabe o que eu penso. Fiquei meio aborrecida, mas depois passou. Se eu me encontrasse com ele, a única coisa que eu diria é: Olha, quando você escrever sobre mim, Clarice, não é com dois esses, é com c, viu? Só isso que eu diria a ele. Mais nada”.

Entrevista com Teresa Monteiro sobre Clarice Lispector

Os dossiês policiais que comprovam o monitoramento das atividades de Clarice são muito importantes – o fato de ela ter nacionalidade russa e de ser judia a tornava suspeita?

A professora Esther Kuperman mostra que o vínculo entre um setor da comunidade judaica carioca com o PCB (Partido Comunista Brasileiro) era suficiente para imigrantes judeus serem monitorados. Havia um Setor Judeu no PCB que garantia a segurança de seus militantes, pois havia risco de extradição caso o judeu comunista fosse preso. Um dos colegas de Clarice na faculdade, Celso Lanna, disse-me que o comunismo naquela época (1939-1943) era “algo aterrorizante e podiam associar as origens russas ao comunismo na URSS”. A tradutora Tati de Moraes, primeira esposa de Vinicius de Morais, disse-me que Clarice tinha receio de ser deportada.

Você também analisa um caderno de telefones de Clarice, que fornece detalhes sobre seu cotidiano. O que te pareceu mais revelador nesse material?

Difícil apontar uma coisa somente. É uma época em que nada era descartável. Muito diferente de hoje. Os prestadores de serviços... É incrível como é possível reconstituir a vida de uma pessoa através do seu caderno de telefones: de videntes aos médicos, dos amigos aos prestadores de serviços, passando pelos editores e até algumas anotações (como a receita de uma tinta de cabelo) ou o risco com uma caneta roxa no nome de Zuzu Angel, que havia falecido em 1976. O Caderno de Telefones é do acervo da cineasta e indigenista Nicole Algranti, sobrinha neta de Clarice. Retrata os dois últimos anos de vida dela.

Os artigos de Pagu assinados com pseudônimo apontaram para algum aspecto da obra de Clarice que ainda era desconhecido?

Sim. Ela mostra que Clarice não somente era “a” escritora, mas também “comentadora de livros”. Ela fala da estreia de Clarice nessa função na revista Senhor. Pagu aborda especialmente Laços de Família (1960). Ela esteve no lançamento em São Paulo, profetizou a importância de Clarice na literatura brasileira (“a escritora mais singular dos Brasis”) e comentou ironicamente como as escritoras se inseriram num meio literário totalmente masculino. O modo de narrar clariceano ainda não era uma unanimidade. Creio que, pelo prestígio que Pagu tinha e por acolher em sua coluna artistas de diferentes áreas, e por escrever que Laços de Família ia marcar uma etapa na história de nossa ficção, deve ter sido muito relevante esses dois artigos no Suplemento Literário de A Tribuna, de Santos, em 1960. É um aspecto que merece mais pesquisas.

Registros

Teresa Montero traz ainda dois aspectos importantes sobre Clarice Lispector no livro À Procura da Própria Coisa: uma rara entrevista da escritora a uma emissora de TV e críticas favoráveis à sua obra escritas, sob pseudônimo, por Patrícia Galvão, a Pagu.

“Clarice não demonstra animosidade na entrevista ao jornalista e apresentador Araken Távora que idealizou Os Mágicos, um programa premiado, em 1976”, comenta Teresa. “Ela está em seu apartamento na rua Gustavo Sampaio, com seu cachorro Ulisses. E, dos 6 minutos que restaram desse documento que tem 45 anos (custodiado pelo Arquivo Nacional) e que foi um dos primeiros da TVE, ela fala de literatura.”

De fato, questionada se escrevia por vocação ou necessidade, Clarice é direta: “Eu só escrevo porque não consigo deixar de escrever. É mais forte do que eu”. O trecho resgatado poderá ser visto no documentário A descoberta do mundo (2021), da cineasta pernambucana Taciana Oliveira, que será exibido, em dezembro, na 16ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo.

Em sua vasta pesquisa, Teresa Montero encontrou dois artigos inéditos da Pagu sobre Clarice, escritos sob o pseudônimo de Mara Lobo. Ela trata de Laços de Família e fala sobre a própria autora em artigos para a revista Senhor e o jornal A Tribuna, de Santos. “Pagu não só profetizou a importância de Clarice Lispector para a literatura brasileira, como também enxergou com argúcia os obstáculos que uma escritora devia enfrentar num métier formado por homens”, observa Teresa, que ilustra o livro com imagens inéditas, obtidas a partir de filmes fotográficos que não tinham sido revelados e estavam em posse da Fundação Casa de Rui Barbosa – como sua participação na Passeata dos Cem Mil, em 1968.

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