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Clarice e três amigos vitalícios

Nem sempre era tranquilo ser amigo de Clarice Lispector. Que o diga Otto Lara Resende

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 03h00

Vêm aí duas datas capitais de Clarice Lispector. Uma, redonda – a dos 100 anos de seu nascimento, em 10 de dezembro; outra, na véspera, dos 43 de seu falecimento. A contiguidade de uma e outra me faz pensar em outro escritor, Fernando Sabino, também ele morto (de câncer, igualmente) na véspera de seu aniversário, o 12 de outubro em que completaria 81 anos e no qual foi enterrado. Já Clarice, que naquele 10 de dezembro chegaria aos 52, precisou esperar mais 24 horas para ser levada ao Cemitério Israelita do Caju, no Rio, em obediência ao preceito judaico que proíbe sepultar aos sábados.

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A coincidência fúnebre foi o bastante para me devolver a lembrança da amizade que atou aqueles dois, nascida no dia em que Rubem Braga os apresentou. Um tempinho antes, em janeiro de 1944, por sugestão de algum confrade, Clarice tinha mandado seu livro de estreia, o romance Perto do Coração Selvagem, para o contista de Os Grilos não Cantam Mais, um moço de Belo Horizonte que literariamente ainda usava o “Tavares” entre Fernando e Sabino. Mal se viram e grudaram um no outro, para sempre. 

A partir de então, contará o ex-moço em Tabuleiro de damas, os dois criaram o hábito de se verem todo dia ou quase, fosse no apartamento dele, agora casado e morador no Rio, fosse numa confeitaria no centro da cidade. Logo foi preciso puxar cadeiras para mais mineiros transplantados: Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e, em 1952, Hélio Pellegrino. 

Por volta de 1949, no bar do Hotel Serrador, na Cinelândia, Fernando propôs que todos os presentes – Clarice, Paulo, Otto e ele – escrevessem contos com o mesmo tema, um velho à espera de uma dançarina de dancing. Apenas Otto levou adiante o compromisso, e em 1952 “O casto Redelvim” vai figurar em O lado humano, livro de estreia só agora reeditado, pela Companhia das Letras. Reprise, aliás, que jamais teria acontecido, se dependesse do autor, uma vez que Otto, segundo Hélio Pellegrino, psicanalista além de poeta, sofria de “bibliofobia”, recusando-se a admitir fornadas novas de seus livros. (Em 1979, num descuido, ele me deu O lado humano, e a partir de então fez o que pôde, sem êxito, para ter de volta o exemplar.) 

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É de Otto aquele que talvez seja o mais belo dos depoimentos suscitados pela morte de Clarice. Belo e terrível, pois mesmo sendo declaração de amor não escamoteia asperezas a que até os amigos se expunham no convívio com a escritora. “Depois do incêndio em que se queimou”, contou ele naquele texto, escrito e publicado no dia da partida de Clarice, “fomos almoçar com ela, Antonio Callado e eu, e de repente ela explodiu para cima de mim: ‘Que é que você está me olhando? Quer ver as minhas cicatrizes?’ E exibiu as pernas de que ela e nós tentávamos fugir.”

Otto revelou outra passagem, não menos espinhenta, acontecida em algum momento da década de 1950: 

“Algumas vezes passamos anos sem nos ver. Um sábado dou com ela na Rua Prado Júnior. Saltei do carro e rimos e falamos e nos abraçamos. Tinha comigo um dos meus filhos, então com seis anos. Esquecera-se da Clarice, que não via há muito. ‘Quem é aquela moça loura?’ – me perguntou ele. E antes que eu respondesse: ‘Ela tem dentro dela uma coisa que pula o tempo todo. Ela tem filho?’ Uns dois anos depois, alta noite, eu estava batendo papo com Clarice em seu apartamento no Leme e, de repente, ela me deu um respe: ‘Diga ao seu filho que eu posso ser mãe, sim. Posso ser mãe dele. Posso ser sua mãe, Otto. Posso ser mãe da humanidade. Eu sou a mãe da humanidade’. Foi tudo num crescendo avassalador.”

O escritor tinha contado a alguém, que não guardou segredo, e a história acabou ferindo os ouvidos de Clarice. 

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Com Fernando Sabino, a amizade parece ter sido menos sujeita a solavancos. Na correspondência entre os dois, estendida de 1946 a 1969, e por ele reunida em Cartas perto do coração, não há vestígio de borrascas. “Trocávamos ideias sobre tudo”, escreveu Fernando, “submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade.” Nos anos em que Clarice, casada com diplomata, viveu fora do Brasil, o amigo não apenas ajudou a publicar seus escritos como topou dizer franquezas a respeito deles, quando em andamento. 

No caso do romance A maçã no escuro, de 1961, Fernando encheu laudas com pitacos do bom editor que já era. Garimpou na busca de um título menos cacofônico para o livro que era então “A veia no pulso”. Quem não gostou foi João Cabral de Melo Neto, dono de legendário ouvido pouco ou nada musical: “Quem foi o errado que foi contra ‘A veia no pulso’?”, protestou ele em carta a Clarice, argumentando que até podia soar estranho, mas errado não era, pois a língua, lembrou, não é só para ser ouvida. E encerrou, sarcástico: “Você não deve dar nenhuma bola e dizer que é aveia no pulso mesmo” – aveia que o personagem leva para que os burros venham comer-lhe na mão.”

Também eles amigos vitalícios, naquela vez não se afinaram os dois pernambucanos, ele nativo, ela adotiva.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

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