Charles Ferguson detalha o lado podre da crise financeira mundial de 2008

Convidado da Flip, americano vencedor do Oscar está lançando livro 'O Sequestro da América'; ele participa de mesa no sábado com Glenn Greenwald

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2014 | 02h00

PARATY - A lógica do mercado internacional é perversa: se os grandes investidores que cometem irregularidades forem parar na cadeia, não haverá mais pessoas dispostas a investir. “Por isso, os grandes escândalos rendem apenas manchetes na imprensa, filmes, livros. Apenas isso”, comenta Charles Ferguson, escritor e cineasta americano que divide no sábado, 2, uma das mesas mais esperadas da Flip, ao lado do compatriota Glenn Greenwald. O tema é sugestivo: Liberdade, liberdade.

Se Greenwald ganhou notoriedade mundial ao publicar no jornal inglês The Guardian uma série de reportagens realizadas com base em documentos vazados pelo ex-agente secreto Edward Snowden, que comprovam a espionagem praticada pelo Estado americano contra os próprios cidadãos e de outros países, Ferguson dissecou a origem da crise financeira que sacudiu o mundo em 2008 no contundente e explicativo documentário Trabalho Interno (2010), que lhe rendeu o Oscar da categoria.

Na Flip, ele lança o livro O Sequestro da América (Zahar), que nasceu na continuidade do material pesquisado para o documentário, ou seja, em palavras, ele detalha mais acuradamente como uma elite financeira predadora assumiu, nos últimos anos, o controle econômico dos EUA, levando o país à falência e arrastando o restante do planeta, tragédia que ainda deixa vestígios na economia global atual. 

“Desde os 10 anos, decidi ser cineasta, mas minha família, muito ligada à vida acadêmica, me conduziu para esse caminho”, conta ele, formado em matemática e doutorado em ciência política. Seguindo nessa linha, tornou-se consultor de política de tecnologia para o governo americano e empresas como Apple, IBM e Oracle. “Frustrado, decidi retornar à vida acadêmica, mas descobri que não era mais um campo agradável para trabalhar”, explica.

Nessa época, 2008, Ferguson já era alertado por amigos como Nouriel Roubini, professor da Universidade Nova York, e o pesquisador Charles Morris (um dos primeiros a escrever depois sobre a crise) que a economia mundial desandava para uma situação gravíssima. “Foi quando percebi que ali estava um belo material para um documentário”, lembra o americano, que já havia realizado Sem Fim à Vista, sobre a Guerra do Iraque.

“A quantidade de fraudes e o número crescente de executivos financeiros obrigados a testemunhar no Congresso e também o aumento de processos civis vindo à tona, enfim, a situação convenceu a mim e a Morris, que aparece em Trabalho Interno, de que não havia dúvida sobre a grande quantidade de criminalidade no setor financeiro.”

E por que nenhum executivo foi preso, mesmo com tanta evidência? Ferguson ensaia um sorriso – forma com que habitualmente exprime ironia – e responde, sempre em voz baixa: “A principal razão é o poder político da indústria de serviços financeiros. Isso os deixa praticamente imbatíveis. Há motivos secundários, mas não menos importante. Por exemplo, o temor de que um clima de incertezas pudesse resultar em uma crise financeira incontrolável que, por sua vez, levasse a uma grande depressão, realmente catastrófica”.

Ferguson não duvida da isenção do poder judiciário americano, mas o problema é que a crise de 2008 não foi encarada como prioritária. “E o que explica isso é o poder político e financeiro da indústria.”

O escritor e documentarista vê semelhanças entre essa crise e a de 1929, quando a quebra da bolsa de valores de Nova York provocou uma recessão mundial. “Tanto naquela época como agora, havia um grupo pequeno, mas inescrupuloso de investidores que buscou estender os riscos ao máximo até que a bolha explodisse”, observa Ferguson, que também opinou sobre O Lobo de Wall Street, livro e filme baseados nas memórias de Jordan Belfort, que enriqueceu rapidamente graças à especulação ilegal. “Não tenho nada contra quem constrói fortuna – meu problema é quem faz isso à custa da confiança e das pequenas economias de pessoas de boa índole”, disse.

Ferguson agora trabalha em um projeto sobre o risco de a humanidade perder a energia disponível, um documentário que se chamará Our Energie Future e deverá estrear em 2015. Até chegar aí, ele abriu mão de dois outros trabalhos: o primeiro seria financiado pela HBO e trataria da WikiLeaks, a organização transnacional que publica na internet documentos confidenciais. O outro visava a senadora Hillary Clinton. “Mas todas as pessoas que contatei foram ameaçadas pelo staff de Hillary. Só consegui duas testemunhas e com a condição de falar em off.”

Programação da Flip nesta sexta-feira, 1º:

10 h

O Guru do Méier

Cássio Loredano e Sérgio Augusto

12 h

À Mesa com Michael Pollan

15 h

Marcados

Claudia Andujar e Davi Kopenawa

17h15

Livre Como Um Táxi

Antonio Prata e Mohsin Hamid

19h30

Encontro com Andrew Solomon

21h30

2 x Brasil

Cacá Diegues e Edu Lobo

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