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Chandler é um cara durão, na interminável noite americana

Autor é alicerce da literatura noir norte-americana, especialmente no âmbito do que se convencionou chamar de hard-boiled

André de Leones, Especial para O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2014 | 03h00

Raymond Chandler (1888-1959) é, ao lado de Dashiell Hammett, um dos alicerces da literatura noir norte-americana, especialmente no âmbito do que se convencionou chamar de hard-boiled. Espécie de subgênero, o hard-boiled é muitíssimo bem representado por personagens como os detetives particulares Sam Spade (criação de Hammett) e Philip Marlowe (concebido por Chandler). Nas narrativas protagonizadas por esses dois, o que muitas vezes importa não é tanto a solução dos mistérios e assassinatos que se vão acumulando pela trama afora, o popular whodunit (ou “quem fez isso?”), mas a caracterização de uma atmosfera corrupta, repleta de opressão, incerteza e brutalidade. 

Em O Sono Eterno, por exemplo, temos uma Los Angeles que parece completamente tomada por gângsteres, mocinhas selvagens e/ou desorientadas, e também por assassinos e chantagistas que trabalham, com frequência, sob a proteção de policiais espúrios. Em meio a tudo isso, Marlowe assemelha-se a um despojo cuspido pela Grande Depressão, um náufrago, um operário da incerteza, equilibrando-se na interminável noite americana para, com sorte, acabar vivo, um pouco mais cínico e com uns trocados no bolso.

É interessante como esse tough guy, ou “cara durão”, protagonista de sete romances de Chandler e alguns contos, não prima exatamente por uma sagacidade invulgar ou muito acima da média; ele não é um gênio dedutivo como Sherlock Holmes, mas um sujeito comum, que, metido em circunstâncias aterradoras, responde a elas como e quando pode. Marlowe é, sobretudo, um sobrevivente colocado diante de uma realidade impiedosa, ocupada em arrancar o que lhe resta do coração.

Tal realidade se descortina para nós como algo banhado por uma espécie de sol em negativo que faz expelir pelos poros o que há de pior nas pessoas. Não raro, Marlowe parece cansado de chafurdar nesse mundo, quase sempre tem um mau pressentimento acerca do serviço que lhe é oferecido (pressentimento depois corroborado, frise-se), mas não pode evitar se envolver, seja porque ainda guarde dentro de si um certo ranço de sentimentalismo, seja porque precise daqueles trocados para sobreviver.

Algo que talvez explique o aspecto algo desolador de romances como A Dama no Lago e O Longo Adeus seja o fato de que Chandler começou a publicar suas histórias relativamente tarde, aos 45 anos, depois de uma existência já bem movimentada. Levado para Londres pela mãe, após o sumiço do pai beberrão, o rapaz teve uma educação esmerada, combateu nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial e, depois, desempenhou várias profissões, de jornalista a contador, de encordoador de raquetes de tênis a executivo de companhia petrolífera. Apenas depois de perder este último emprego (em função dos estilhaços da Grande Depressão) é que passou a se dedicar por inteiro à escrita, publicando seus primeiros contos na bíblia pulp Black Mask. A exemplo de Marlowe, e não obstante os sérios problemas com a depressão e o alcoolismo de que viria a sofrer, é lícito dizer que Raymond Chandler foi, também, um sobrevivente.

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DO ROMANCE TERRA DE CASAS VAZIAS (ROCCO), ENTRE OUTROS.

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