Carlos Chicarino/Estadão
Poeta em seu apartamento no Rio de Janeiro, em 1992 Carlos Chicarino/Estadão

Centenário de João Cabral de Melo Neto é celebrado com volumes de obras inéditas e biografia

Pernambucano construiu uma carreira singular, tornando-se um dos principais poetas da língua portuguesa do século 20

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2020 | 06h00

O poeta João Cabral de Melo Neto pertencia a uma família ilustre: seu irmão é o historiador  Evaldo Cabral de Melo, além de ter sido primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre. E, como os demais, João Cabral construiu uma carreira singular, tornando-se um dos principais poetas da língua portuguesa do século 20, da mesma grandeza de Pessoa e Drummond.

O escritor pernambucano que não acreditava em inspiração - para ele, a obra-prima era fruto do extenuante trabalho com a palavra - será festejado ao longo deste ano e o ponto de partida é esta quinta-feira, dia 9, quando é lembrado o centenário de seu nascimento (ele morreu em 1999, aos 79 anos). Por conta disso, uma série de novas edições de sua obra completa vai preencher a temporada editorial para comemorar a efeméride.

Cabral era um estilista mesmo não admitindo - cada verso era cuidadosamente pensado, a fim de dar forma a uma estrutura consistente do poema, o que o tornava conhecido como o poeta da matéria, por seus versos secos, exatos, sem ilusões e de emoções omitidas. Estudioso da obra cabralina desde 1977, o também poeta Antonio Carlos Secchin é figura central no trabalho de reedição - no primeiro semestre, a Alfaguara vai lançar um volume com poesia completa organizada por ele, que acrescentou trabalhos inéditos, descobertos pela pesquisadora Edneia Ribeiro - um deles, A Nuvem Sobre a Batalha, é divulgado pelo Estado com exclusividade.

Também poemas inéditos são acrescentados - o arquivo de Cabral deixado aos cuidados da Casa de Rui Barbosa, no Rio, revela-se um verdadeiro tesouro, pois mais de 40 poesias inéditas já foram identificadas e ratificadas. Um volume de prosa também está nos planos da editora, para o segundo semestre, incluindo entrevistas e discursos que se encontravam dispersos ou sem publicação. Aqui, a organização será de Sergio Martagão Gesteira. 

Estão previstas ainda uma fotobiografia, organizada por Eucanaã Ferraz, e uma nova biografia, assinada por Ivan Marques. Obras que reforçam o perfil de um poeta que construiu uma obra marcada tanto por uma tendência surrealista como por assuntos populares. Comum, na verdade, era o rigor estético, que gerou poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurando uma nova forma de fazer poesia no Brasil. 

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Leia o poema inédito de João Cabral de Melo Neto

'A Nuvem Sobre a Batalha' será publicado em livro organizado por Antonio Carlos Secchin

João Cabral de Melo Neto, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2020 | 06h00

 

A NUVEM SOBRE A BATALHA

Não há nuvem sobre a batalha.

Nas guerras de antes, sim havia.

Hoje na nuvem está a batalha

não a chuva que a ignoraria.

Hoje, ao pensar Joaquim Cardozo

o que me disse lembro, ainda,

dia que os jornais noticiaram

a nuvem caída em Hiroshima. 

“Não há nuvem sobre a batalha.

Minha imagem foi abolida.

Hoje a nuvem leva navalhas

no que foi chuvada ontem-em-dia. 

Da guerra em duas dimensões,

em que a vitória era uma colina,

a guerra última foi de dentro:

a nuvem choveu na cozinha”

(Poema inédito que estará no livro organizado por Antonio Carlos Secchin)

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Antonio Carlos Secchin fala sobre legado de João Cabral de Melo Neto

Ele ressalta as qualidades da obra e do rigor do pernambucano

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2020 | 06h00

O poeta Antonio Carlos Secchin tornou-se referência sobre a obra de João Cabral de Melo Neto. Sobre o assunto, ele respondeu às seguintes questões.

No centenário de João Cabral, qual a importância ainda ocupada por sua poesia na literatura? Ele foi, de fato, o grande poeta em língua portuguesa do século 20?

Não temos “o” grande poeta da língua, mas vários, cada um grande à sua maneira. O que me parece marcar a contribuição de Cabral é ele não se inserir na chamada “linha evolutiva” da literatura, com suas ascendências e descendências bem assentadas. Nesse sentido, ele é um solitário - sem pais, mas, infelizmente, com muitos filhos adotivos, que diluíram sua notável e rigorosa lição.

João Cabral confessava ser insensível para a música que, para ele, era a mesma coisa que barulho. Isso se refletia na poesia, ou seja, não há algum tipo de musicalidade em seus versos?

No campo da poesia, devemos distinguir, no que se reporta à música do verso, dois elementos: a melodia e o ritmo. A melodia se vincula à rima tradicional, às aliterações, às paronomásias, e, nesse sentido, João Cabral de fato a evitava, julgando-a entorpecente, anestésica, tudo que ele considerava que a poesia não devia ser. Já o ritmo é incontornável, diz respeito à distribuição de tônicas e átonas no verso, e a isso Cabral foi atentíssimo, logrando resultados muito expressivos no emprego, por exemplo, de métricas alternadamente regulares e irregulares ao longo de uma estrofe. Não por acaso, era aficionado da música cigana, em que a voz às vezes parece soar apenas como um grito, mas em que a sustentação rítmica é essencial. De resto, se no Romantismo e no Simbolismo tentou-se fazer de poesia e música artes afins, no contexto cabralino, a afinidade, sem dúvida, seria com as artes plásticas, a pintura, a arquitetura - artes de se ver, não de se ouvir.

Como a cultura e a paisagem dos diversos países onde ele morou e trabalhou marcaram sua poesia de forma expressiva?

Sua poesia decerto seria diversa se ele não houvesse tido a experiência profissional (e pessoal) na Espanha, onde serviu como diplomata. Se é rara a impregnação de autores de língua portuguesa em sua produção poética, é vasta a presença cultural da Espanha, não só no campo literário - ele estudou as letras hispânicas desde as origens, e disso tirou partido -, mas no campo de manifestações populares, como o citado “cante” cigano e a tauromaquia. Tudo reprocessado em sua criação, que, aliás, não hierarquiza “alta” e “baixa” cultura. 

Qual importância de Cão Sem Plumas na ruptura radical na linguagem da poesia brasileira?

Trata-se de um magnífico livro-poema, de 1950, em que, de maneira a meu ver pioneira, o compromisso para com social não abdicou do compromisso para com a forma literária. O risco da poesia engajada é ser muito mais engajada do que poesia. Em Cabral, isso não ocorre. E é sintomático que ele, a meu ver o mais denso poeta brasileiro nessa temática, não tenha colaborado nos três volumes de poesia participante do Violão de Rua, de teor mais panfletário, antologias que fizeram grande sucesso no início da década de 1960.

E o que você diria sobre Morte e Vida Severina, ainda impactante em sua denúncia social ao unir fontes cultas com populares?

Creio ser essa a obra mais estimada de toda a história da poesia brasileira, já tendo provavelmente ultrapassado a centena de edições, sem falar nas adaptações para outras linguagens (a TV, o cinema, os quadrinhos). Sim, no texto ocorre aquela mescla não hierarquizada entre o popular e o erudito, mas o sucesso desse auto de Natal pernambucano reside principalmente na denúncia não demagógica de nossas mazelas sociais. É poema contundente sem ser paternalista ou messiânico. Cabral considerava desnecessário “tomar partido” de modo explícito; bastava “dar a ver” o real, que se autodenunciava em sua injusta e escandalosa precariedade.

O epíteto de “arquiteto da poesia” ainda faz jus ao trabalho de João Cabral?

Faz jus, sim, mas, como toda etiqueta, não dá conta da complexidade da obra. Vários outros rótulos poderiam ser a ele atribuídos: o poeta do Capibaribe (a que dedicou três livros), o poeta da antilira... eu próprio o denominei “o poeta do menos”. Melhor, creio, é vê-lo simplesmente como poeta - sem necessidade do acréscimo de nenhum adjetivo.

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Elba Ramalho: 'João Cabral é o maior poeta de todos os tempos'

Cantora que participou de montagens para o teatro de 'Morte e Vida Severina' fala sobre a influência do pernambucano em sua carreira

Elba Ramalho, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2020 | 06h00

“Eu tinha 14 anos e nosso grupo de teatro tinha como especialidade teatralizar poemas. O que me impactou mais foi a poesia de João Cabral de Melo Neto, que considero o maior poeta de todos os tempos. Pela sua profundidade e suavidade, a forma lúdica como ele olha o Nordeste e a história da nossa gente.  

O poema Morte e Vida Severina ganhou ainda mais beleza e força quando Chico Buarque musicou. Quando eu tinha 16 anos, fiz um dos personagens de Morte e Vida Severina para João Cabral. Ele foi levado pelo nosso grupo de teatro a Campina Grande. Fiz também a linda montagem da TV Globo, dirigida por Walter Avancini, em que eu fiz a “mulher da janela”, um diálogo de uma rezadeira com Severino em uma situação de muita pobreza. 

Ouça o depoimento de Elba Ramalho sobre o poeta

A gente quase se encontrou em Barcelona quando alguém intermediou nosso encontro, mas acabou não dando certo. Fiquei amiga da mulher dele. João era ateu e a mulher dele me convidava para ir lá rezar para ver se ele tinha uma conformidade maior do estado de saúde em que ele estava e poder compreender um pouco mais sobre Deus através de mim. No dia que pude ir, ele faleceu. Mas tenho certeza que ele estava bem acompanhado em seus últimos dias.”/DEPOIMENTO A RENATO VIEIRA

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Poemas de João Cabral de Melo Neto arrastam um mar de sentimentos

Ele defendia que as palavras fossem manipuladas como tijolos e esculpidas como um diamante

José Castello, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2020 | 06h00

Uma história do início dos anos 1990, relatada depois pelo escritor Otto Lara Resende, ilustra a relação tensa, mas também intensa, que João Cabral de Melo Neto tinha com a matéria - e com seu inevitável desaparecimento, isto é, a morte. O corpo de um “imortal” da Academia Brasileira de Letras era velado na sala dos Poetas Românticos. Membro da ABL desde 1969, Cabral era esperado no velório, mas faltava-lhe coragem para sair de casa. Embora fosse ateu convicto, a morte sempre o assustou. 

Por fim, chamou um táxi e foi, mas não conseguiu avançar além de uma sala anexa. Foi em seu refúgio que Otto, ele também acadêmico desde 1979, o encontrou. Logo sentiu, pela expressão devastada de Cabral, que ele vivia uma situação insuportável. Sentiu, mas silenciou. “Eu achei que, se comentasse o que via, ele desmaiaria de pavor”, relatou muito depois. Homem de grande coração, Otto inverteu as coisas. Aproximou-se de Cabral e disse: “Não estou me sentindo nada bem, preciso sair daqui. Mas tenho até medo de pegar um táxi sozinho. Você me acompanharia?”.

“Pode deixar, eu o levo até em casa”, Cabral se apressou em dizer. Chamaram o táxi e foram juntos rumo à zona sul. Otto desceu primeiro, no Jardim Botânico. Só depois Cabral fez todo o percurso de volta, até seu apartamento na praia do Flamengo. Assim que chegou em casa, apressou-se em telefonar para o amigo. “Você está melhor? Está mais calmo?” Só então Otto abriu o jogo. “Eu estou ótimo. A morte não me assusta. Você sim estava péssimo, mas se eu lhe dissesse isso, ficaria ainda pior.”

Ateu convicto, materialista por formação, João Cabral costumava dizer: “Não acredito em Deus, mas acredito no inferno”. O paradoxo ilustra sua sensibilidade complexa, suas dificuldades com os sentimentos, seu coração frágil, sempre escondido sob a imagem do “poeta de pedra”. Cabral - que se declarava marxista - cultivava, como poeta, a pose de um engenheiro das palavras. Odiava música, menosprezava o lirismo e defendia uma estética objetiva e luminosa, na qual as palavras fossem manipuladas como tijolos, e esculpidas como um diamante. “Camarada diamante”! - Vinicius de Moraes, grande amigo, mas em tudo seu contrário, o saldou em um poema célebre.

Os críticos ortodoxos e os leitores apressados sempre acreditaram nessa definição. “Magro entre pedras”, como o viu Vinicius, o poeta do concreto e das superfícies já em 1950, aos 30 anos de idade, em um de seus poemas mais belos, O Cão Sem Plumas, desmentiu - para quem teve a coragem de ver - essa máscara de ferro. São versos, de fato, atravessados pela mais vibrante claridade. Mas trata-se de uma claridade que treme. Assim começa seu célebre poema: “A cidade é passada pelo rio/ como uma rua/ é passada por um cachorro;/ uma fruta/ por uma espada”. Pode-se “ver” o poema - seguindo uma fórmula de Paul Valéry, Cabral dizia escrever para “dar a ver”. Mas uma vibração de fundo, sutil, porém intensa, denuncia o mar de sentimentos que o poema arrasta.

Alguns versos à frente, Cabral expõe, de modo direto, sua sensibilidade social: “Mas ele conhecia melhor/ os homens sem pluma./ Estes/ secam/ ainda mais além/ de sua caliça extrema”. Sob imagens duras, João Cabral - sem ceder ao panfleto, ou à “poesia engajada” - desenha a figura dos homens miseráveis que bordejam o Capiberibe. Este engajamento político tornou-se indiscutível em Morte e Vida Severina, poema de Duas Águas, livro de 1956. Cabral, porém, nunca apreciou, ele mesmo, as coisas indiscutíveis e as ênfases. E por isso chegou a dizer, mais tarde, que Morte e Vida Severina - transformado por Chico Buarque em um inesquecível musical - foi “o pior poema” que escreveu.

Na primeira vez em que ele e Chico se encontraram, o músico não poupou palavras para expressar seu entusiasmo com o poema que acabara de ler. Sempre direto na expressão dos sentimentos, Cabral se revoltou: “Não fiz esse poema para você gostar. Para você eu fiz Uma Faca Só Lâmina - poema de aparência quase matemática que surgiu no mesmo Duas Águas. Para nossa sorte, Chico ignorou a repreensão, e só por isso, algum tempo depois, musicou Morte e Vida para o grupo Tuca, da PUC de São Paulo. O musical, que chegou a ser exibido com sucesso no festival universitário de Nancy, na França, tornou-se - para aflição do próprio Cabral - sua obra mais conhecida.

Os sentimentos que transbordam em Morte e Vida Severina, porém, ainda que escoados em discretos subterrâneos, alimentam e sustentam toda a poética cabralina. Eles se manifestam igualmente em Sevilha Andando, livro que publicou em 1990, logo depois de se aposentar da carreira diplomática. Como diplomata, Cabral serviu por duas vezes em Sevilha, Espanha. Repetiu muitas vezes que o Recife - onde nasceu - e Sevilha eram as duas cidades que mais amava. Depois do lançamento de Sevilha Andando, porém, no intervalo de uma entrevista, confidenciou: “Ninguém consegue descobrir o maior segredo de meu livro. Que Sevilha, na verdade, é Marly”. Referia-se à poeta Marly de Oliveira, sua segunda esposa. O lirismo, mesmo desprezado, se infiltrava em seus versos.

No início dos anos 1950, ainda sob o governo Vargas, João Cabral chegou a ser suspenso, por um ano, de seus serviços no Itamaraty, sob a acusação de “comunista”. Só voltou a seu posto em 1954, graças a uma decisão contrária do Supremo Tribunal Federal. Também nesse caso transparecem os clichês que, ainda hoje, cercam a obra e a figura de Cabral. Seu materialismo nunca foi um dogma de almanaque. Ele nunca excluiu uma visão profunda da realidade - uma noção complexa e dinâmica do real. Também em seus versos, sob as imagens duras e precisas, latejam sentimentos delicados, percepções sutis, devaneios que vão muito além da dureza da matéria.

No centenário de seu nascimento, e com a exceção de leitores sensíveis como o crítico e poeta Antonio Carlos Secchin, provavelmente o maior especialista na obra cabralina, ainda não aprendemos a ler João Cabral. Ler através das palavras, ler para além das imagens brutas, ler equipados da “faca só lâmina” que ele, com tanto ardor, nos ensinou a manejar. Parece chegado o momento de rever nossos preconceitos. Cabral foi o poeta das emoções que estavam sempre à beira de explodir. 

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6 poemas para ler no centenário de João Cabral de Melo Neto

Autor de 'Morte e Vida Severina', entre tantos outros poemas inesquecíveis, João Cabral de Melo Neto é lembrado nesta quinta, 9, no seu centenário de nascimento

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

08 de janeiro de 2020 | 13h54

Há 100 anos, no dia 9 de janeiro de 1920, nascia no Recife João Cabral de Melo Neto.

Diplomata de carreira e um dos principais nomes da literatura brasileira, ele deixou uma vasta obra poética, incluindo Morte e Vida Severina, sucesso também nos palcos, no cinema e na televisão. João Cabral morreu em 1999, no Rio, aos 79 anos.

​O Estado selecionou 6 poemas de João Cabral de Melo Neto.

​Morte e Vida Severina (trecho)

— O meu nome é Severino,

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem fala

ora a Vossas Senhorias?

Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos,

já finados, Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas,

e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos

iguais em tudo e na sina:

a de abrandar estas pedras

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

algum roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias

e melhor possam seguir

a história de minha vida,

passo a ser o Severino

que em vossa presença emigra.

 

Tecendo a Manhã

1.

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

2.

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

O Cão sem plumas (trecho)

(Paisagem do Capibaribe)

A cidade é passada pelo rio

como uma rua

é passada por um cachorro;

uma fruta

por uma espada.

O Rio ora lembrava

a língua mansa de um cão,

ora o ventre triste de um cão,

ora o outro rio

de aquoso pano sujo

dos olhos de um cão.

Aquele rio

era como um cão sem plumas.

Nada sabia da chuva azul,

da fonte cor-de-rosa,

da água do copo de água,

da água de cântaro,

dos peixes de água,

da brisa na água.

Sabia dos caranguejos

de lodo e ferrugem.

Sabia da lama

como de uma mucosa.

Devia saber dos polvos.

Sabia seguramente

da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio

jamais se abre aos peixes,

ao brilho,

à inquietação de faca

que há nos peixes.

Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores

pobres e negras

como negros.

Abre-se numa flora

suja e mais mendiga

como são os mendigos negros.

Abre-se em mangues

de folhas duras e crespos

como um negro.

Liso como o ventre

de uma cadela fecunda,

o rio cresce

sem nunca explodir.

Tem, o rio,

um parto fluente e invertebrado

como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver

(como ferve

o pão que fermenta).

Em silêncio,

o rio carrega sua fecundidade pobre,

grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:

em capas de terra negra.

em botinas ou luvas de terra negra

para o pé ou a mão

que mergulha.

Como às vezes

passa com os cães,

parecia o rio estagnar-se.

Suas águas fluíam então

mais densas e mornas;

fluíam com as ondas

densas e mornas

de uma cobra.

Ele tinha algo, então,

da estagnação de um louco.

Algo da estagnação

do hospital, da penitenciária, dos asilos,

da vida suja e abafada

(de roupa suja e abafada)

por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação

dos palácios cariados,

comidos

de mofo e erva-de-passarinho.

Algo da estagnação

das árvores obesas

pingando os mil açúcares

das salas de jantar pernambucanas,

por onde se veio arrastando.

(É nelas,

mas de costas para o rio,

que “as grandes famílias espirituais” da cidade

chocam os ovos gordos

de sua prosa.

Na paz redonda das cozinhas,

ei-las a revolver viciosamente

seus caldeirões

de preguiça viscosa.)

Seria a água daquele rio

fruta de alguma árvore?

Por que parecia aquela

uma água madura?

Por que sobre ela, sempre,

como que iam pousar moscas?

Aquele rio

saltou alegre em alguma parte?

Foi canção ou fonte

em alguma parte?

Por que então seus olhos

vinham pintados de azul

nos mapas?

 

O Fim do Mundo

No fim de um mundo melancólico

os homens lêem jornais.

Homens indiferentes a comer laranjas

que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar

a morte. Sei que cidades telegrafam

pedindo querosene. O véu que olhei voar

caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá

desse mundo particular de doze horas.

Em vez de juízo final a mim preocupa

o sonho final.

 

Difícil ser Funcionário

Difícil ser funcionário

Nesta segunda-feira.

Eu te telefono, Carlos

Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia

Que me deixa assim,

Cinemas, avenidas,

E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,

O luto desta mesa;

É o regimento proibindo

Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara

Tanta roupa preta;

Tão pouco essas palavras —

Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina

Que nunca escreve cartas;

Há uma garrafa de tinta

Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,

As caixas de papéis:

Túmulos para todos

Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto

De gravata de cor,

E na cabeça uma moça

Em forma de lembrança

Não encontro a palavra

Que diga a esses móveis.

Se os pudesse encarar…

Fazer seu nojo meu…

 

O Relógio

Ao redor da vida do homem

há certas caixas de vidro,

dentro das quais, como em jaula,

se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;

mais perto estão das gaiolas

ao menos, pelo tamanho

e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas

vão penduradas nos muros;

outras vezes, mais privadas,

vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola

será de pássaro ou pássara:

é alada a palpitação,

a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,

não pássaro de plumagem:

pois delas se emite um canto

de uma tal continuidade.

 

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