Dan Balilty/AP
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Cenário: Amós Oz, um lutador incansável contra o fanatismo

Com a morte do escritor, os militantes da paz no Oriente Médio perdem um de seus mais combativos soldados 

Marilia Neustein, O Estado de S. Paulo

28 de dezembro de 2018 | 20h20

Mais que um escritor, Amós Oz foi um militante da paz em Israel. Uma das vozes mais eloquentes em defesa da solução de dois estados para dois povos, desde quando isso ainda era um tabu no país, o israelense cultivou o humanismo judaico em sua literatura e ativismo.

Costumava dizer em artigos e palestras ao redor do mundo que a paz não aconteceria sem concessões dos dois lados. Em entrevista ao Estado, em 2011, afirmou que a divisão do território era a única saída para israelenses e palestinos: “Ambos se sentirão amputados. Mas não há outra alternativa”.

O jornalista israelense Ari Shavit o definiu, em seu livro Minha Terra Prometida, como o “profeta da paz, o guru do movimento pela paz, o rabino-chefe da congregação pacifista de Israel”. Oz, no entanto, não se arriscava a prever quando a paz chegaria. Dizia que era difícil ser um profeta na terra das profecias, porque existia muita competição.

Ao longo de sua vida, acumulou discordâncias com sucessivos governos israelenses e também com intelectuais e militantes pró-palestinos. Edward Said, por exemplo, chegou a chamá-lo de “o médico e o monstro”, por seu “caráter esquizofrênico”.

Nos últimos anos, Amós Oz se dedicou também a combater os discursos extremistas. No livro Como Curar um Fanático, sugeriu alguns antídotos do universo literário contra o fanatismo: curiosidade e bom humor. “O humor corrói as bases do fanatismo e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas”, escreveu.

Israel perde, assim, um de seus maiores escritores. Os militantes da paz no Oriente Médio perdem um de seus mais combativos soldados. 

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