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Caverna.club: Vittorini como um amor

Há 100 anos Elio Vittorini fugia pela primeira vez de sua casa levando no bolso o bilhete de trem de seu pai, ferroviário, o que para um rapazola poderia significar um “vale mundo”

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 03h00

O que é um lugar, um lugar que não um amor, não importa qual, mas qualquer tipo de amor. Uma calçada, um cruzamento de ruas em um canto esquecido da cidade em que se encontraram pela primeira vez e nunca mais se esqueceram, ainda que não tenham se falado. O lugar que vive em cada pessoa e mesmo que se tente esquecer continuará a martelar nas ideias como uma dor feliz ao longo dos anos, por uma vida. Um lugar como a Sicília, mas pode ser Siracusa ou também a Sardenha. Um lugar eterno do qual nunca mais vai ser possível escapar ainda que tivesse um bilhete gratuito para qualquer parte da bota. 

Sua passagem, rapaz

A Itália. Há 100 anos Elio Vittorini fugia pela primeira vez de sua casa levando no bolso o bilhete de trem de seu pai, ferroviário, o que para um rapazola poderia significar um “vale mundo”, capaz de franquear suas viagens para qualquer lugar do país – o seu mundo de então. Tinha 13 anos incompletos, vivia-se o período entreguerras, a Europa à beira da Guerra Civil Espanhola. Vittorini chegou ao norte da bota nessa primeira fuga, o que deve ter sido suficiente para fazer com que se convencesse a largar os estudos e continuar a se mover. Mas o garoto escrevia, e como escrevia. Uma prosa que tinha mais de poética, capaz de levar o ser humano pela mão aos seus lugares inesquecíveis. 

Conversa na Sicília chega agora aos 80 anos e a importância da obra é pontuada pela aversão do escritor italiano ao fascismo. Tanto que, logo após a publicação do livro, em 1941, as portas da cadeia se abriram para o autor. Mas, na verdade, presos estamos nós. Não há uma edição brasileira em catálogo depois que a editora Cosac Naif fechou as portas (bit.ly/2W9Zzdr) – esta edição do livro, de 2002, pode ser encontrada em sebos por preços entre R$ 125 e R$ 500, ó vergonha nacional. Mas para compensar esse miserê, a Amazon italiana vende o livro em formato e-book por 0,99 centavos de euro (amzn.to/3hUEjRb).

 

 

Como um príncipe indiano

O documentário Elio Vittorini – L’Altro 900, em uma hora, traça momentos da vida e obra do escritor a partir de diversas vozes. Críticos literários, amigos e, de lambuja, vários trechos de entrevista com Italo Calvino. O autor de Cidades Invisíveis destaca o caráter imprevisível de Vittorini e muito mais. Já o filho do escritor, Demetrio, conta que quando a mãe, Rosa Quasimodo, irmã do poeta Salvatore Quasimodo, conheceu Vittorini, não se conteve: disse que o rapaz era bonito como um príncipe indiano. Apesar de não sabermos se era uma traquinagem da moça, o casamento durou somente 12 anos (youtu.be/ OltOlBaT284).

Amanhã é dia de Elio Vittorini. Sardenha Como uma Infância e Homens e Não estão aí para provar que é possível chegar a algum lugar. Ainda que não exista mais, lugar etéreo, que se volatilizou, o coração é o lugar de Vittorini.

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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