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Caverna.club: O apaixonado e o tarado

Se a Commedia era a morte após a vida, A Máquina do Tempo era praticamente uma morte em vida

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2021 | 03h00

Inferno, Paraíso, Purgatório. Não importa a distância são lugares que observam o pobre do ser humano há milênios, espreitam, cercam e abraçam antes mesmo de a morte fazê-lo com amor, tornando qualquer tentativa de fuga uma impossibilidade. O dia em que puseram no meu caminho Dante Alighieri (1265-1321), aos 10, 11 anos (e ainda babava), era possível ter certeza: o florentino de nariz amassado e queixo aguçado fora o responsável pela criação de tudo acima do céu e tudo abaixo da terra. 

Dante inventara os mais bem-acabados estacionamentos pós-morte, não um todo-poderoso, não um deus, qualquer que fosse ele. Inesquecíveis aqueles círculos concêntricos no funil invertido, de lá nunca alguém poderia escapar. Talvez nem do próprio Paraíso dantino. Sonhei durante semanas com o Inferno; nunca com o Paraíso, talvez mais por tédio que por descrença. Aqui, um curso da Columbia University sobre a Commedia (bit.ly/3EDB0qS). 

A situação piorou. Enquanto tentava decorar em italiano os primeiros três ou quatro cantos do Inferno, caiu no meu colo cheio de baba um H.G. Wells (1866-1946). Se a Commedia era a morte após a vida, A Máquina do Tempo era praticamente uma morte em vida. Se aquele era o futuro, o ano de 802.701, preferia levar na cachola o golpe de um tacape sem fio e enferrujado. 

De uma semana para cá os dois autores se cruzam nos 700 anos da morte de Dante e nos 155 de nascimento de Wells. Têm muito mais em comum do que indica a vã aparência de suas obras mais importantes. Uma das chaves pode estar na infância do inglês, aponta a biógrafa Claire Tomalin. A moça, que já passou pelas vidas de Charles Dickens e Jane Austen, chafurdou nas primeiras décadas de Wells, anos de formação. The Young H. G. Wells: Changing the World (amzn.to/39qgrjk), que será lançado em novembro, traz a parte mais desconhecida de sua trajetória a partir de uma voz independente. 

Wells garantiu em 1934 sua versão do passado na autobiografia Experiment in Autobiography (amzn.to/3hWjkgx). Adepto do estilo ninguém é de ninguém, teve de fazer anos depois um complemento para dar conta dos imbróglios sexuais e sentimentais, o meigo H.G. Wells in Love (amzn.to/3tZMvUv). Mas isso não impediu a escritora Andrea Lynn de lançar em 2001, para completar o cenário à la Sodoma e Gomorra, Shadow Lovers: The Last Affairs of H.G. Wells (amzn.to/2XQd0QF). 

Eis a diferença entre os dois criadores de mundos: um apaixonado por sua Beatriz, o outro, por todas as mulheres do mundo.

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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