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Caverna.club: Honrar pai e mãe

Memórias do filho de Gabriel García Márquez revelam detalhes da perda de memória do pai no fim da vida

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 03h00

O rapazola Gabriel, antes de se tornar García Márquez, tinha 14 anos na colombiana Sucre e já era tomado por um amor. A moça, Mercedes Barcha, filha do dono da farmácia, parecia não dar muita pelota para o adolescente que, incontrolável, dava voltas no quarteirão onde ficava a casa para ver sua musa. E foi num agosto como este, no ano passado, que Mercedes morreu na Cidade do México, seis anos após a morte do marido, Gabriel, depois de um casamento de 56 anos.

Os últimos dias da vida de García Márquez e de Mercedes acabam de ganhar um pequeno livro, A Farewell to Gabo and Mercedes: A Son’s Memoir of Gabriel Garcίa Márquez and Mercedes Barcha (HarperVia, 176 págs, R$ 35,77 na versão Kindle, em inglês). Escrito pelo filho mais velho do casal, Rodrigo Garcia. Revela como foi se apagando a chama de um dos maiores escritores latino-americanos. Perda de memória e demência. Um fim doloroso em que García Márquez já não reconhecia sua própria obra. Perguntava de onde saíra tudo aquilo que lia nos romances. Em outros momentos, não identificava as pessoas da família. Nem mesmo Mercedes (amzn.to/388aQgQ). 

Há delicadeza no relato das memórias comuns do casal, muitas delas ligadas ao ofício de escritor e o envolvimento visceral que o colombiano tinha com sua arte. Como na noite em que um atônito García Márquez, debruçado sobre a escrita de Cem Anos de Solidão, em 1966, deixa o escritório e ruma para o quarto, onde está Mercedes. “Eu matei o coronel”, diz, referindo-se à decisão sobre a morte da personagem Coronel Aureliano Buendía. Permaneceram os dois em silêncio, noite adentro, um velório particular. 

O que é o amor? García Márquez homenageia Mercedes em entrevista. “Há pedaços de Mercedes por todos os lados, e personagens completos, como em Cem Anos de Solidão, um deles tem até o nome dela” (youtu.be/2FW4K2Npjlg).

A leitura do livro sugere a narrativa conduzida por uma câmera, a câmera pessoal de Rodrigo Garcia. Não é para menos. É roteirista e cineasta. Dirigiu Albert Nobbs, com Glenn Close, e episódios de séries como Six Feet Under e The Sopranos. Seu projeto, agora, é verter para a tela algumas obras do pai. Duas estão em andamento: Notícias de um Sequestro (Amazon Prime) está sendo filmada na Colômbia e Cem Anos de Solidão, em pré-produção pela Netflix.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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