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Caverna.club: As pessoas no Pessoa

Homem de gênio, criador de uma multiplicidade de vozes para colocar sua poesia no mundo, o poeta português ganha agora o que parece ser sua biografia definitiva

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 03h00

Ser Fernando Pessoa não era bolinho. Homem de gênio, criador de uma multiplicidade de vozes para colocar sua poesia no mundo – mais precisamente 136 autores fictícios, de acordo com Eu Sou uma Antologia, de Jerônimo Pizarro e Patricia Ferrari (Tinta da China) –, o poeta português ganha agora o que parece ser sua biografia definitiva. Ou quase isso. Pessoa – Uma Biografia tem histórias distribuídas em mais de mil páginas (Liveright, 1.086 págs., US$ 40). Mas, por enquanto, somente nas prateleiras gringas.

O escritor e tradutor Richard Zenith, norte-americano de nascimento, mas radicado em Portugal há anos, é o autor do tijolaço. Reincidente nos estudos sobre Pessoa, um dos focos de sua vida profissional, também já traduziu para o inglês poesia brasileira. Por aqui teve lançada sua Fotobiografia de Fernando Pessoa, com Joaquim Vieira, que, embora esteja fora de catálogo, é possível ser encontrada nos sebos. Também acessível nas prateleiras virtuais, Fernando Pessoa: Uma Fotobiografia, da pesquisadora portuguesa Maria José de Lencastre, foi lançada pela Civilização Brasileira (bit.ly/3DWdPrq). 

Catatau imperioso

Para contar a vida do poeta lisboeta, nascido no Largo de São Carlos, o catatau de Zenith fraciona o tempo de Pessoa em quatro partes, a saber: Nascido Estrangeiro, O Poeta Como Transformador, Sonhador e Civilizador, Espiritualista e Humanista. A viagem biográfica ainda tem mapas da sua Lisboa, árvore genealógica do lado materno e, claro, a cronologia de sua vida. Zenith chafurda na vida real e cruza os fatos com o nascimento dos heterônimos, recria os passos pela Lisboa amada do poeta, de onde quase nunca saiu depois de ter chegado da África do Sul. 

Sexo na cabeça

Richard Zenith aborda a questão sexual na vida de Pessoa de forma curiosa, mostrando o labirinto em que o poeta se metia por meio do interesse manifesto no assunto. Mas confessa não ter, no livro, a intenção de definir a sexualidade do poeta – monossexual e andrógino, e não heterossexual, homossexual, pansexual ou mesmo assexual. Para ele, Pessoa teria morrido praticamente virgem.

 Uma curiosidade. Apesar de exaltar a obra, o escritor Benjamin Moser, autor da biografia de Clarice Lispector, apontou em um artigo no Times o fato de Zenith não ter abordado de forma clara um tema delicado na vida de Pessoa, o alcoolismo. Moser diz que o autor chama de “inércia” a falta de impetuosidade do poeta em querer publicar seus poemas, enquanto na verdade seria o vício o responsável pela inércia – Moser fala sobre a morte de Pessoa aos 47 anos, já velho, com o corpo destruído pela bebida. 

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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