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Morta neste domingo, 21, Nawal El Saadawi foi uma das grandes vozes feministas do mundo árabe no século 20

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 03h00

Nawal El Saadawi tinha 10 anos de idade quando praticou o que seria provavelmente seu primeiro ato de ativismo a favor dos direitos das mulheres. Seus pais, como rezava a tradição das famílias egípcias nos anos 1940, estavam prestes a entregar a mão da pequerrucha para um jovem, possivelmente também um tampinha, para que se casassem. Mas a pequena Nawal bateu o pé e se recusou a casar. A mãe acatou o desejo da filha, o pai estrilou, mas deu em nada. Assim, nasceu umas das principais vozes feministas do mundo árabe no século 20.

Nawal El Saadawi cantou para subir no último domingo, no Cairo, aos 89 anos. Não é pouco para quem viveu presa por atacar presidentes e cumpriu 20 anos de exílio. Deixou algumas dezenas de obras, que vão de romances a depoimentos sobre a condição da mulher nos países árabes, além de sua própria. Era considerada raivosa, geralmente pelos homens, claro, quando expunha suas ideias. No que não titubeava para responder: “Eu estou falando a verdade. E a verdade é selvagem e perigosa”, como defendeu no seu livro Woman at Pont Zero (amzn.to/3tOjwSr), não editado no Brasil, assim como quase toda sua obra.  

 

Redenção em vídeo

Por aqui, como sempre, vivemos uma miséria editorial. Podem ser encontradas somente duas obras de Saadawi, dentre as 50 que escreveu. Uma ainda em catálogo, A Mulher com Olhos de Fogo (amzn.to/399L5hb), e A Face Oculta de Eva – A Mulher no Mundo Árabe, que pode ser encontrada em alguns sebos a valores exorbitantes. Os direitos do livro pertenciam à editora Global há 30 anos, mas não há sinais de que será reeditado. Pena, na obra ela nos entrega um panorama histórico importante para quem viu e sofreu a opressão cotidiana inclusive no sistema público de saúde egípcio, onde atuou como médica e também como psiquiatra.

Mas a vingança vem a galope, ou melhor, em vídeos. Tanto no YouTube como no Vimeo há dezenas de entrevistas com a escritora, basta fazer uma busca por seu nome e o resultado trará pérolas como esta: youtu.be/djMfFU7DIB8.  

Lápide de ouro

Frasista de primeira, Saadawi não era bolinho. Marcou sua escrita e seu discurso oral em entrevistas, palestras e manifestações públicas por colocações de emprestar orgulho e dignidade a quem quer que seja. Uma das lapidares, justamente porque seria ótima gravada em sua lápide, é esta: “Eu triunfei tanto sobre a vida quanto sobre a morte porque não desejo mais viver, nem tenho mais medo de morrer”. Perto do que dizia de fato a vida parecia pouco. Não à toa seu nome significa “presente”. 

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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