Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Catadoras se inspiram em Carolina Maria de Jesus para produzir sua própria literatura

Processo de formação da Festa Literária das Periferias (Flup) sobre a autora de 'Quarto de Despejo' contempla uma turma exclusiva de catadoras de material reciclável; trabalho vai gerar um livro

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

A Festa Literária das Periferias (Flup) realiza em 2020 um processo formativo sobre a obra de Carolina Maria de Jesus, focado em mulheres negras. Com o processo atravessado pela pandemia, as oficinas se tornaram online e receberam cerca de 500 inscrições de 87 cidades do Brasil, de países africanos e da França. A ideia, segundo a produção, é propor reescrituras de Quarto de Despejo no aniversário de 60 anos do livro, e publicar um volume com a produção resultante, selecionada por uma banca de jurados.

Acontece que em uma parceria com o Ministério Público do Trabalho, a Flup decidiu estender o processo formativo para cooperativas de catadoras de material reciclável, e um grupo de 20 mulheres foi escolhido para compor uma turma. Desde abril, elas participam das palestras e trocam ideias em encontros virtuais, com orientação do professor Eduardo Coelho. A ideia é, ao fim do processo, publicar um livro com as histórias delas, escritas por elas mesmas.

"Olhando com uma espécie de banzo: todas elas tiveram uma avó ou mãe que tiveram um 'quarto de despejo'", diz o curador da Flup, o escritor Julio Ludemir. "Mas elas já estão na 'casa de alvenaria'", compara o escritor, citando os dois primeiros livros de Carolina, sobre dois momentos de vida diferentes para a autora.

As oficinas têm gerado comoção. "Essas mulheres nunca foram ouvidas em sua história. São histórias de muito sofrimento, de muita dor. Ninguém quer ser catadora de lixo. Nenhum dos filhos, inclusive os da pobreza, sonha isso. Depois de alguns desafios da vida, elas vão se reciclando, por intermédio dessa grande novidade que são as cooperativas, que reciclam a vida dessas mulheres. Elas vivem no entorno dessas cooperativas, as Carolinas pós-modernas já não estão revirando lixo para comer."

O ministrante da oficina é o professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro Eduardo Coelho. "Elas já têm muitas ferramentas narrativas por conta da relação com uma literatura oral", explica o professor. "Meu papel é dar consciência que elas já possuem narratividade. Aponto diálogos, ideias de conversar com o leitor… Certos recursos literários que elas já têm e usam intuitivamente. Procuro dar consciência de recursos que elas já podem explorar. Porque apenas a experiência não é necessariamente literatura. Experiências elas têm e muitas. Epopeias, histórias inacreditáveis de superação, dificuldades que elas passaram. Fora o fato de que a língua é poder: ter mais domínio da escrita é um aspecto muito poderoso."

Três das alunas da turma das catadoras da Flup compartilharam seus pensamentos e trajetórias. Role para baixo para ler essas histórias.

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