Reprodução/The New Yorker
Reprodução/The New Yorker

'Cat Person', um conto da 'New Yorker', é leitura essencial no momento #MeToo

O texto ficcional que viralizou nos EUA chega num momento de mudança do paradigma de consentimento na sociedade

Lisa Bonos, The Washington Post

13 Dezembro 2017 | 10h35

Mesmo se você não leu o conto da New Yorker que viralizou recentemente, você provavelmente tem uma opinião sobre ele.

Cat Person é o conto de Kristen Roupenian sobre uma mulher de 20 anos, Margot, que encontra um homem de 34 anos, Robert, no cinema de arte onde ela trabalha. Depois de um papo amigável, Robert pega o seu número de telefone. Eles passam a trocar mensagens por algumas semanas e saem em um encontro que acaba em sexo ruim, depois do qual Margor termina o relaciomento via texto. Um mês depois eles se veem num bar, e Robert lança insultos misóginos para ela, também via texto, a chamando de "vadia" (whore).

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Então por que um conto ficcional que parece tão mundano se tornou uma tempestade enorme? Aqui estão algumas razões.

É muito do momento. "Não é uma história sobre estupro ou assédio sexual, mas sobre as linhas tênues que são desenhadas nas relações humanas", disse a editora de ficção da New Yorker, Deborah Treisman, ao The Atlantic. As linhas tênues entre uma interação amigável e um flerte, entre um primeiro encontro inócuo e um enredo de Law and Order: SVU.

Cat Person não é idêntico às notícias que temos lido sobre assédio e ataques: Robert não expõe seu pênis para Margot no cinema; ele não é seu chefe; ele não a "força" a fazer nada. Mas Robert é mais velho do que Margot, como nos relacionamentos heterossexuais mais comuns, tomando a maior parte das decisões nas interações, e assim detém o poder no namoro rápido.

Dinâmicas similares sobre poder e sexo são refletidas em quase todas as histórias de assédio e ataque sexuais no ambiente de trabalho, e como Cat Person deixa claro, essa estrutura desequilibrada está presente no flerte também. Especialmente na era do Tinder em que sexo casual e sem envolvimento é comum. Como Nancy Jo Sales, que escreveu um artigo em 2015 para a Vanity Fair sobre o "apocalipse dos encontros", disse: "Basicamente qualquer um que já usou um aplicativo de relacionamento poderia escrever Cat Person, talvez não tão bem".

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Muitas mulheres se identificam. Numa entrevista com o New York Times, Roupenian diz que Cat Person não é autobiográfico, "mas muitos detalhes e notas emocionais vêm da vida, e foram acumulados durante décadas, não de apenas um encontro ruim".

Um trecho em particular ilustra os sentimentos das mulheres sobre um tipo de encontro sexual, especialmente aqueles que podem ocorrer quando duas pessoas mal se conhecem. Quando Margot e Robert ficam nus no quarto dele, ela não se sente incrivelmente atraída por ele e se pergunta sobre parar a interação, "mas o pensamento do que levaria para parar o que ela mesma tinha colocado em movimento era esmagador; seria preciso uma quantidade de tato e gentileza que ela sentia impossível conjurar", Roupenian escreve. "Não era como se ela estivesse com medo de que ele tentaria forçá-la a fazer algo contra sua vontade, mas que insistir que parassem agora, depois de tudo o que ela fez para isso acontecer, faria ela parecer mimada e caprichosa, como se ela tivesse pedido algo em um restaurante e então, quando a comida chegasse, ela mudasse de ideia e mandasse de volta".

A hesitação de Margot parece vir de um medo justificável (e profético, como dá pra ver) de sexo ruim. A escritora Ella Dawson repercute muitas das reações das mulheres ao sexo em Cat Person num artigo em seu blog sobre "sexo ruim", ou "o sexo que não queremos mas fazemos de todo jeito". Ela revisita os tempos na faculdade em que teve esse tipo de relação, em que "ninguém forçava ninguém a participar. Você poderia dizer não e não dizia. Você não tinha as palavras ou a coragem para dizer", Dawson escreve, acrescentando que "muito do tempo, sexo ruim é a norma para mulheres jovens, não a exceção".

Dawson pensa que essa dinâmica se deve em parte à educação sexual que enfatiza como mulheres devem evitar riscos inerentes ao sexo — gravidez, infecção, tentativa de agressão — em vez de ensiná-las como aproveitá-lo de maneira segura. É um ponto que aparece em muitas das entrevistas que fiz recentemente, nas quais pesquisadoras notam que há uma percepção de que as mulheres têm controle do seu prazer e do seu corpo, mas não são ensinadas a pedir ou esperar por isso — enquanto que garotos e homens recebem a mensagem oposta.

O sexo ruim contínuo na vida de uma mulher é ligado a ela não ser capaz de escapar dele em outras configurações. Sara McClelland, professora assistente de psicologia e estudos da mulher que se dedica ao conceito de "justiça íntima", ou como a desigualdade aparece no sexo, nota que "o jeito que as pessoas fazem demandas num nível íntimo é absolutamente conectado ao jeito que elas fazem demandas nos níveis social e político". Nas histórias de mulheres de agressão e assédio sexual, McClelland vê as mulheres começarem a fazer demandas por segurança. "O que pessoas têm dito de maneira muito inteligente é: eu não tinha o poder para mudar a situação. Se você não tem poder econômico, você não é capaz de fazer tipos de trocas de poder com alguém que está sendo abusivo."

Cat Person chega num momento de mudança do paradigma de consentimento na sociedade. No conto, quando Margot e Robert estão na casa dele, ele dita como o sexo se dá. Margot pode sentir que ela era quem estava "fazendo isso acontecer" — depois de ele oferecer levá-la para casa porque ela esteve bebendo, ela fez contato físico e pediu para ir à casa dele. Mas depois disso, Robert claramente está no controle.

Antes da atenção da nossa cultura estar tão focada em agressão sexual e assédio no ambiente de trabalho, o foco estava nas agressões nas faculdades — e desenvolvendo novos padrões de consentimento. Robert é parte de um grupo de homens que aprendeu que "não é não" — ou seja, ele vai considerar que uma mulher não está interessada se e quando ela tentar pará-lo. Isso é decididamente diferente de como as pessoas de 20 e poucos anos de hoje, como Margot, são ensinadas a pensar sobre consentimento — a proposição é "sim é sim", em que ambas as partes verbalizam seu consentimento e podem revogá-lo a qualquer momento.

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Os sinais oito ou oitenta da atitude de Robert começam muito antes de eles estarem no quarto — ele flerta com Margot com uma série de demandas, começando por "garota do balcão, me dê seu número"; avança para "Não, estou falando sério, pare de brincadeira e venha agora" para um encontro; e uma vez que eles estão juntos, essa mentalidade se torna "tira essa coisa (o sutiã)" e "sim, sim, você gosta disso" quando bate no quadril dela.

Mas ele nunca pergunta o que ela gosta, ou como ela gosta; na interação toda, parece que Robert está atuando numa fantasia masturbatória e não interagindo com um ser humano com seus próprios desejos. "Durante o sexo, ele a movimenta por uma série de posições com eficiência brusca, virando ela de lado, para lá e para cá, e ela se sente uma boneca novamente, como se sentiu na loja de conveniência, mas não um tipo precioso agora — uma boneca feita de borracha, flexível e resiliente, uma figurante para o filme que estava passando na cabeça dele", Roupenian escreve.

Cat Person é em parte sobre a mudança de um modelo de flerte baseado em demandas para um modelo de flerte baseado em questões e entendimento mútuo. De maneira parecida, as revelações do movimento #MeToo podem ajudar a mudar a perspectiva dos homens sobre como suas ações afetam as mulheres de maneiras que eles podem não entender imediatamente.

Alguns homens não se identificam com Cat Person. O perfil do Twitter @MenCatPerson está transmitindo reações de homens ao conto, muitos dos quais não entendendo como as mulheres se identificam com a história, ou pensando que Robert foi a "vítima", justificando seu ataque misógino contra Margot. Isso tudo prova por que precisamos continuar a ouvir as histórias de mulheres sobre sexo — especialmente sobre as vezes em que elas não sentiram que poderiam dizer não.

Isso pode ajudar a empoderar mulheres a dizer sim para o tipo de sexo que elas querem e dizer não para o sexo que elas não querem. Tudo isso sem serem chamadas de "vadias". / Tradução Guilherme Sobota - O Estado de S. Paulo

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