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Cartas de grandes nomes da arte do País estão online

Site do IMS tem mensagens de 85 personalidades como os escritores Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2015 | 06h00

“Nunca vi uma alma tão feia quanto a minha letra”, escreveria Clarice Lispector (1920-1977) numa carta perturbadora ao futuro marido, o diplomata Maury Gurgel Valente (1921-1994), em janeiro de 1941. “Existe também... sei lá o quê. Talvez qualquer coisa que valha a pena. Pelo menos para olhar do ônibus e sorrir. Ou senão, por que não se entregar ao mundo, mesmo sem compreendê-lo? Individualmente é absurdo procurar a solução. Ela se encontra misturada aos séculos, a todos os homens, a toda a natureza. E até o teu maior ídolo em literatura ou em ciência nada mais fez do que acrescentar cegamente mais um dado ao problema.”

Valente responde à “marquesa de Maricá” se dizendo “pequenino” diante das palavras contundentes da colega de faculdade de direito, então com 20 anos recém-completados, com quem viria a se casar em 1943. “Oh, deusa Clarice! Sê clemente! Não pronuncies contra mim, com ar tão solene, a sentença da minha condenação eterna. Deixa-me viver pacatamente como bom sujeito. (...) No momento eu só tenho um grande problema – é saudade de você! O resto é bobagem.”

As missivas, nunca publicadas, integram o acervo pessoal de Clarice sob a guarda do Instituto Moreira Salles. E, agora, fazem parte do Correio IMS (www. correioims.com.br), site que torna disponível, a partir desta terça-feira, 11, cem cartas de 85 personalidades como Pero Vaz de Caminha, Machado de Assis, Oswaldo Cruz, Monteiro Lobato, Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Lúcio Costa, os imperadores Pedro I e Pedro II e suas amantes, a Marquesa de Santos e a Condessa de Barral.

Parte foi doada ou vendida ao IMS, parte foi pinçada pela coordenadora de literatura, Elvia Bezerra, em publicações e entre herdeiros ou destinatários. Ao poeta Armando Freitas Filho, ela pediu uma carta da amiga e confidente Ana Cristina Cesar (1952-1983). “Armando, passei esta noite de sexta-feira escrevendo a continuação da Aventura na Casa Atarracada (história fantástica à moda de Poe), e versificando seu poema Na Beira, com os Olhos Abertos, como uma louca a compor quebra-cabeças de mil peças. Não são mil, mas reparo outra vez a insistência de seus effes; de trezentos mil, parece, fizeram uma torre bem alta em Paris, e não era de marfim, mas puro ferro. Por obra sua escapei de me lançar do alto dela, mas no teu poema belo esse excesso, contraditoriamente, acredito, anuncia uma renúncia. (...) A literatura me perturba. Uma caixa cheia de cartões-postais me perturba. A renúncia me perturba. Até uma caixa d’água, um otorrino gauche, um índice onomástico. Tomo tudo na veia.”

A data está indicada no site como outubro de 1983, justamente o mês em que Ana C., poeta expoente da poesia brasileira dos anos 1970 e 1980, se jogou pela janela de casa. “Mas lembro que essa carta chegou dois ou três meses antes. Muitas pessoas que a conhecem acham que foi uma carta de despedida da Ana, por ter sido no fim da vida dela, mas não foi. Ela fala de se jogar de uma torre, mas é só uma metáfora. Ela estava bem, não estava na crise que teria de depressão”, contou Freitas Filho ao Estado.

Ao neto de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) Pedro Graña Drummond, Elvia solicitou uma mensagem que fosse do poeta para a filha, Maria Julieta, e que ainda não fosse conhecida. Em 1950, entre assuntos comezinhos, está um relato sobre a política do País a “Juju Flor”: “Política em ponto morto. O Congresso está fechado, todo mundo em férias, e a aproximação Dutra-Getúlio parece que fracassou, com a mensagem deste no ano-novo. É difícil imaginar que candidato sairá disso tudo, havendo mesmo a suposição de que não sairá nenhum. Em todo o caso, o ministro da Guerra declarou que não admitirá golpes. Sua posição parece ser a mesma de Dutra, quando ministro de Getúlio, convertendo-se em fiador da legalidade: é candidato em potencial, a quem os golpes não interessam.”

De Otto Lara Rezende (1922-1992) foi escolhida uma carta de reclamação enviada de Bruxelas em 1958 para o amigo historiador Francisco Iglesias (1923-1999). O escritor mineiro estava furioso porque Iglesias não o havia contactado numa viagem a Paris, onde ele também estava: “É admissível que eu tenha então, até agora, superestimado a sua amizade por mim. (...) A amizade, para mim, vale mais do que Veneza”, diz a carta, outra inédita.

A maior parte do conteúdo já havia sido tornado público. Em alguns casos, o usuário pode ver também o manuscrito. É o caso de um relato do pianista Nelson Freire ao pai, José Freire Silva, quando menino: “Minha vida. Eu sou um menino de 8 anos. Eu me chamo Nelson José Pinto Freire. Eu nasci no dia 18 de outubro de 1944. Eu sou um menino que passo a vida alegre. Eu brinco muito com os meus amigos. Eu também brigo e brinco com os meus amigos. Eu mostro-lhe o meu desejo. Música, música. Eu lhe falo que termino com uma palavra. Eu acho ela simples. Fim”. Ao fim, da frase: “Oferece isso ao meu pai”. Como ilustração, notas musicais. 

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