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Em carta, Mário de Andrade cita sua homossexualidade; veja a íntegra

Modernista fala sobre o tema sem deixar clara sua orientação sexual

Luciana Nunes Lea, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2015 | 12h53

A casa de Rui Barbosa divulgou nesta quinta-feira, 18, a única carta do escritor Mário de Andrade enviada ao amigo Manoel Bandeira que era mantida em sigilo. A expectativa de que, no trecho omitido, Mário de Andrade revelasse sua homossexualidade não foi confirmado. O modernista fala sobre o tema sem deixar clara a sua orientação sexual. 

"Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria para nós ambos, para você ou para mim, comentarmos que eu elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Valia de alguma coisa eu mostrar o muito de exagero que há nessas continuas conversas sociais?", diz o trecho inicial da parte até hoje mantida em sigilo. 

Em outro trecho, Mário de Andrade é um pouco mais claro: "Mas se agora toco neste assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a vida mais regulada que máquina de precisão). E se saio com alguém é porque esse alguém me convida (...)"

O trecho da carta foi divulgado por determinação da Controladoria Geral da União (CGU), atendendo a pedido do jornalista Marcelo Bortoloti, da Revista Época, via Lei de Acesso à Informação. 

A carta. A íntegra da carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira escrita em 7 de abril de 1928 e tornada pública nesta quinta-feira, 18, revela o nome do desafeto do modernista que foi rasurado e substituído por "X" no livro publicado por Bandeira em 1958. No texto original, Mário de Andrade fala em "Oswaldo". Possivelmente era o também modernista Oswald de Andrade. Mário e Oswald foram amigos e romperam em 1929. Os trechos em que Mário fala de "Oswaldo" não fazem parte dos parágrafos mantidos em segredo até agora e divulgados nesta quinta-feira pela Casa de Rui Barbosa, por determinação da Controladoria Geral da República (CGU). O nome "Oswaldo" está riscado a caneta vermelha, com o "X" por cima. Logo no segundo parágrafo da carta, Mário diz: "E o mais bonito, Manú, é que o Oswaldo não é meu amigo, fique sabendo. Eu é que sou amigo dele". Em seguida, afirma: "Porém conhecendo quotidianamente o Oswaldo, posso muito, mas muito particularmente, afirmar para você que ele não tem nobreza moral".

No trecho que deixou de ser sigiloso nesta quinta-feira, Mário faz um desabafo ao amigo Manuel Bandeira sobre sua "tão falada" homossexualidade e diz tratar o tema com "absoluta e elegante discrição" a ponto de ser "incapaz de convidar um companheiro a sair daqui, a sair sozinho comigo na rua". Ao contrário do que se imaginava, no entanto, o modernista não fala claramente sobre sua orientação sexual.

Veja o trecho tornado público pela Casa de Rui Barbosa, por determinação da Controladoria Geral da União (CGU), tal como foi escrita pelo modernista, em 7 de abril de 1928. A carta foi datilografada. 

CONFIRA O TRECHO DA CARTA:

"Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria para nós ambos, para você, ou para mim, comentarmos e eu elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar um muito de exagero que há nessas continuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você que não é individuo de intrigas sociais. Pra você me defender dos outros? Não adiantava nada pra mim, porque em toda a vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso só me interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialisão absolutamente desprezível duma verdade inicial.

Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo para a minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um individuo estudioso e observador como eu, ha-de estar bem inteirado do assunto, ha-de te-lo bem catalogado e especificado, ha-de ter tudo normalisado em si, si é que posso me servir de "normalisar" neste caso. Tanto mais Manú, que o ridículo dos socialisadores da minha vida particular é enorme. Note as incongruencias e contradições em que caem: o caso de "Maria" não é típico? Me dão todos os vícios que por ignorancia ou interesse de intriga são por êles considerados ridículos e no entanto assim que fiz duma realidade penosa a "Maria", não teve nenhum que açoasse falando que aquilo era idealização pra desencaminhar os que me acreditavam nem sei o quê, mas todos, falaram que era fulana de tal. Mas si agora toco neste assunto em que me porto com absoluta e elegante discreção social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como tenho minha vida mais regulada que maquina de precisão) e se saio com alguém é porquê esse alguém me convida, si toco no assunto, é porquê se poderia tirar dele um argumento pra explicar minhas amisades platônicas, só minhas.

Ah, Manú, disso só eu mesmo posso falar, e me deixe que ao menos pra você, com quem apesar das delicadezas da nossa amizade, sou duma sinceridade absoluta, me deixe afirmar que não tenho nenhum sequestro não. Os sequestros num caso como êste onde o fisico que é burro e nunca se esconde entra em linha de conta como argumento decisivo, os sequestros são impossiveis. Eis aí uns pensamentos jogados no papel sem conclusão nem sequencia. Faça deles o que quiser."

 


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