Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

‘Carolina Maria de Jesus vivia num tempo mais difícil, com ainda mais preconceitos’

Na turma de catadoras de material reciclável da oficina literária da Flup, Viviane Conceição de Souza diz que conhecer a obra de Carolina foi uma revelação

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

Quando Viviane Conceição de Souza, de 42 anos, aceitou a proposta de se juntar às mais de 500 mulheres que se inscreveram no processo de formação da Festa Literária das Periferias (Flup), ela ainda não conhecia a obra de Carolina Maria de Jesus. Com a parceria da Feira com o Ministério Público do Trabalho e as cooperativas, ela topou participar da  turma exclusiva de catadoras, e o que veio a seguir foi uma revelação.

“Fiquei apaixonada”, conta Viviane, em ligação com a reportagem. “Não conhecia. Quando comecei a ler, percebi que era uma mulher incrível. Realmente, por ter vivido tanto tempo atrás e relatado essas situações. Com todos os problemas que ela tinha, com tantas dificuldades, a missão de caçar o pão do dia… ela, ainda assim, tinha toda uma esperança de que alguma coisa diferente ia acontecer. Ela desenhava e escrevia no dia a dia, sempre visando que a vida não seria só aquilo. Pelo menos para os filhos dela, foi mesmo diferente. Ela sempre visou um futuro diferente. Sempre trabalhou para isso.”

A visão de mundo de Carolina não foi o único aspecto com o qual ela se identificou. Catadora há 11 anos, Viviane percebeu nos relatos da escritora a mesma vontade de “querer ir além” que marcou sua vida, desde cedo. “Sempre tive a vontade de procurar estar em outro lugar, não necessariamente físico, mas um lugar melhor na vida. Ao mesmo tempo, preciso levar outras pessoas para lá, não posso ir só. Para Carolina, era com a família. Para mim, sinto que meu trabalho não é de ser só, meu trabalho é em conjunto.”

Nascida em Guarulhos, Viviane tem raízes no Ceará. Seu avô, Miguel Bento de Souza, saiu do estado depois que as consequências de uma seca levaram para um outro mundo sua mãe e seis de seus irmãos, e acabou com seu trabalho na roça. Embarcou num pau de arara para São Paulo, onde conseguiu trabalho no Departamento Aeroviário do Estado, servindo cafézinho. Segundo a neta, saiu de lá com outra formação. Chegou a fazer três faculdades, uma de teologia (ele foi pastor da Assembleia de Deus), e passou o amor pela música para os filhos. 

O pai de Viviane, Gerson, estudou no Conservatório Villa-Lobos, foi maestro e também teve uma vida na igreja. “Era um homem muito bom”, diz a filha, emocionada pela perda recente. Quando ela cresceu, percebeu que a musicalidade era no seu caso hereditária. “Quando aprendemos a ler, tínhamos que aprender música também”, conta. Passou a tocar instrumentos de sopro, e seu contato frequente com a cultura durante sua formação foi mesmo com o gosto eclético pela música, ouvindo álbuns musicais de gente tão diferente quanto Xuxa, Bee Gees e clássicos da MPB.

Quando Viviane entrou na Cooperativa de Trabalho de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de São Bernardo do Campo (Cooperluz) em 2009, as condições eram menos favoráveis. “A gente carregava 300 kg de material no caminhão no braço”, relembra. “Hoje carrega em meia hora com empilhadeira. A transformação foi acontecendo, de maneira mais aguda de uns 10 anos para cá. Nos mandatos do Lula, isso foi se tornando uma prioridade, tirar essas pessoas, nós, da invisibilidade.” Hoje ela é diretora financeira da cooperativa.

Esse é outro ponto de contato de sua vida com a de Carolina Maria de Jesus, uma pessoa que fez de tudo para tirar de cima de si mesma a capa de invisibilidade que a sociedade atirou contra ela. “Ainda nos sentimos invisíveis”, diz Viviane. “As cooperativas têm que ser isoladas da sociedade, colocadas onde os olhos não veem, porque trabalhamos com lixo. O poder público fala da cooperativa apenas quando convém. Nós temos condições de trabalhar toda a coleta seletiva: fazer a coleta na rua, triar e comercializar. Mas eles dão o processo na mão das grandes empresas. Pensam que não temos direitos, dizem: ‘eles são só catadores, não podem ganhar três salários mínimos’. Eles fazem questão que fiquemos na invisibilidade.”

Um dos sonhos de Antonio Candido (1918-2017), o crítico literário mais importante do Brasil, era que a literatura (e as artes) também ocupasse o lugar de direito humano fundamental e inalienável. Viviane é uma das pessoas que estão levando o desejo do crítico adiante.

“Tenho escutado, na oficina, as histórias das pessoas, tenho ouvido muito”, conta, exaltando o processo de empatia que a literatura pode produzir. “Também sinto vontade de ler mais, entender melhor as coisas. Tem muitas coisas que ainda não li. Se eu olho a Carolina e olho para mim hoje, como mulher, catadora, homossexual, ela viveu muito disso, há muitos anos. O que ela fala lá, algumas coisas vivemos também. Dificuldades.”

Para ela, passar a frequentar as aulas virtuais oferecidas pela Flup foi uma salvação no contexto confuso da pandemia. Um método de escrita, para buscar a troca da literatura, já vai se desenhando: ela escreve à caneta, rabisca, depois passa para o computador. “Várias coisas que Carolina começou lá atrás, hoje já fazemos diferente, no mundo da catação. Ela vivia num tempo mais difícil, sofria mais preconceito, mais machismo, os filhos sofriam mais: hoje não precisamos pegar brinquedo do lixo, com o dinheiro da catação. Conseguimos melhorar. Fico muito emocionada.”

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