Felipe Barduchi/Estadão
Felipe Barduchi/Estadão

'Carolina Maria de Jesus colocou uma mensagem na garrafa'

A catadora de material reciclável Claudia da Silva é uma das participantes das oficinas da Festa Literária das Periferias (Flup)

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

Aos 39 anos, a catadora de material reciclável Claudia da Silva hoje enxerga na obra de Carolina Maria de Jesus novos olhares para situações com as quais se acostumou. Nascida em Rio das Pedras e criada em Ourinhos, no interior de São Paulo, Claudinha, como é conhecida, vem de uma família envolvida com a catação há mais de uma geração. Ela terminou o colegial e hoje está há 18 anos no movimento de catadores, na cooperativa Recicla Ourinhos, mas se envolvendo com projetos regionais e nacionais.

Trabalho, renda e família: os temas que fazem parte do cotidiano de Claudinha são temas abordados na forma literária de Carolina, e a catadora, agora postulante a escritora via oficina da Festa Literária das Periferias (Flup), enxerga nos textos da colega mais antiga “simplicidade e riqueza”, na maneira com que Carolina detalha o dia a dia de uma catadora em São Paulo nos anos 1950 e 1960.

“Muitas vezes fazemos um trabalho invisível”, diz Claudinha. “A coleta é tida como serviço essencial, mas quantas pessoas estão nesse serviço essencial e ainda são muito invisíveis? A pandemia acentua isso.”

Nas páginas de Carolina, Claudia diz encontrar uma espécie de guia por questões fundamentais do mundo, mesmo atual — sua vontade nos próximos meses é montar grupos e oficinas em outros locais e repassar os conhecimentos adquiridos na oficina adiante. “É interessante que eu vejo a história dela e sei que muitas catadoras fazem isso: escrevem relatos, diários. A Carolina tinha que sair para a luta todo dia, correr atrás do seu pão e ainda ter um olhar de chegar em casa e falar consigo mesma. Eu imagino que ela soubesse que deixava algo para frente. É como colocar uma mensagem na garrafa.”

Claudinha conta que era nas aulas de português na escola em que ela percebeu um gosto pelos livros e uma vocação para espalhar a importância da educação. Com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e com o Instituto Paulo Freire, ela lutou pela implantação e depois trabalhou no programa de Educação de Jovens Adultos. Pelas dificuldades da vida, um de seus irmãos foi mandado para um presídio. Nas visitas, percebeu nas mulheres visitantes uma demanda por “empoderamento”.

“Eu também faço essa formação com as companheiras que estão esperando na visita dos presídios”, conta Claudinha. “A gente sempre se reúne, conversa, tenta ajudar. Meu plano, ao compartilhar os aprendizados da oficina, é ajudar essas pessoas que também são marginalizadas. A sociedade discrimina muitos as mulheres e familiares dos presos. Há uma questão do abandono também.”

O trabalho de leitura, especialmente da literatura, corre para ela no mesmo sentido. “Quero empoderar essas mulheres para que elas olhem a vida de outra forma, para que não se sintam culpadas, isso também é importante. Às vezes a leitura faz a pessoa pensar em outras possibilidades. A Carolina tem esse poder, o de trazer uma visão diferente. Ela chama atenção para coisas que passam despercebidas.” 

Da vivência constante no ambiente das cooperativas, Claudinha sente a necessidade de buscar a raiz dos problemas — e vê em Carolina uma análise exemplar de si mesma, bem como das condições sociais que regem a sociedade onde está inserida, a saber, o dinheiro e o poder.

“Atualmente a gente passa por um retrocesso muito pesado no nosso ambiente, que depende das políticas públicas para o terceiro setor”, explica com clareza. “Não temos respaldo de ninguém, só do trabalho das cooperativas. Aí eu me questiono: a Carolina idealizava um trabalho coletivo, ela sempre falou isso.”

A pandemia obviamente afetou o trabalho na região paulista, e veio daí a necessidade de reinventar processos, inclusive os de formação educativa, dos quais ela fala com entusiasmo. “Eu sento, organizo formações, faço relatórios, vou para coleta, faço reunião, vou para a esteira. O bom líder é o que conhece todo processo, tem que estar atuando em todos os espaços.”

O poderoso espaço que a literatura de Carolina já abriu para tanta gente, em diversas posições de trabalho e de sobrevivência, passa agora a ganhar uma importante aliada paulista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.