Guillem Valle/The New York Times
Guillem Valle/The New York Times

Carmen Balcells, agente literária de García Márquez e Vargas Llosa, morre aos 85

Ela representou, ainda, nomes como Cortázar, Neruda e Isabel Allende e foi uma das responsáveis pelo boom latino-americano

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2015 | 12h38

(Atualizada às 18h)

A espanhola Carmen Balcells será para sempre lembrada por seu papel no boom latino-americano – e pelo cuidado dedicado a seus autores. “Ela tomou conta de nós, nos mimou, repreendeu, puxou a orelha e nos encheu de compreensão e carinho em tudo o que fazíamos”, escreveu o Nobel peruano Mario Vargas Llosa nesta segunda-feira, 21, no El País, sobre a lendária agente literária com quem jantou alguns dias atrás. “O tempo todo tive o sinistro pressentimento de que era a última vez que a via. Estava lúcida, cheia de projetos realistas e delirantes. Como se fosse viver para sempre. Mas seu físico estava realmente em ruínas”, completou. Carmen Balcells morreu hoje, subitamente, em Barcelona. Ela tinha 85 anos.

Vargas Llosa era uma das estrelas de seu catálogo. Ao seu lado, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Pablo Neruda, Julio Cortázar e Isabel Allende, entre outros clássicos, que ela ajudou a revelar, e novos autores hispânicos. A agência Carmen Balcells foi fundada nos anos 1950. O boom latino-americano ocorreria entre as décadas de 1960 e 1970. Em maio de 2014, ela e Andrew Wylie, outro poderoso agente e representante de autores como Philip Roth e Amos Oz, anunciaram a união de seus catálogos.

Leia também: O que significa para o mercado editorial brasileiro a união de Andrew Wylie e Carmen Balcells

“Carmen foi uma pessoa extremamente generosa e amiga. Negociadora duríssima, mas correta. Um tipo de agente que não existe mais”, disse Sérgio Machado, presidente do Grupo Record, ao Estado. O editor lembra, hoje rindo, de uma passagem envolvendo a agente. Era 1997 e sua irmã Sônia, vice-presidente do grupo, estava sequestrada havia alguns dias. Carmen, solidária e prática, então liga para Sérgio sugerindo que fizessem uma vaquinha e dizendo que poderia dar uma boa quantia. O sequestro que durou 26 dias já caminhava para uma solução e não foi preciso passar o chapéu. Ficou a história. “Com a morte dela, um capítulo se fecha. O jogo está mudando.”

Luiz Schwarcz, publisher do grupo Companhia das Letras, recorda a força que a agente deu no início da editora e os contratempos da relação. “Tivemos um desentendimento por conta da saída do Vargas Llosa da editora e nos afastamos por anos. Em 2014, nós nos encontramos em Barcelona e ela reconheceu sua parte, mas disse: ‘não vou te pedir desculpas; vou te dar um grande autor’. Era uma pessoa de um rigor incrível e personalidade forte”, conta. Nada de concreto aconteceu depois disso, mas o mundo dá voltas. Vargas Llosa, que deixou a Companhia das Letras para ir para a Alfaguara, hoje, com a união entre as duas editoras, volta para casa.

Lucia Riff, dona da maior agência literária do Brasil, ressalta a paixão que Carmen tinha por seus autores e sua generosidade. “Ela foi uma referência fundamental, que me deu conselhos preciosos. Carmen transmitia uma força contagiante e eu tinha uma imensa admiração por ela.”


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.