Victor Pratavieira/Divulgação
Victor Pratavieira/Divulgação

Canibalismo inspira novo romance de Raphael Montes

Escritor de suspense lança 'Jantar Secreto', em que apresenta o retrato da geração que enfrenta o desemprego

Ubiratan Brasil, Impresso

07 Dezembro 2016 | 03h00

Grupo de amigos que dividem um apartamento no Rio de Janeiro se encontra em uma encruzilhada: por causa de um deles, que simplesmente usou o dinheiro do aluguel para outros fins, os rapazes têm um prazo curto para saldar uma grande dívida. A solução encontrada é macabra: realizar um jantar especial para poucos comensais (um dos amigos é especialista em gastronomia), mas com um cardápio que inclui carne humana. E o que poderia ser apenas uma solução rápida se transforma em um perigoso hábito que vai modificar definitivamente a vida daqueles rapazes.

Raphael Montes gosta de surpreender seus leitores, cada vez mais cativos. E, em seu novo romance, Jantar Secreto (Companhia das Letras), que será lançado hoje na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, ele consegue deixá-los boquiabertos, mas com fome apenas de mais leitura. “Gosto de me reinventar e, enquanto escrevia Dias Perfeitos, senti a necessidade de escrever sobre assuntos difíceis”, conta Raphael que, aos 26 anos, já se consolidou com um dos grandes nomes da literatura brasileira de suspense. “E o canibalismo foi o último dos temas que me ocorreram.”

Ao descobrir que muitos de seus amigos que moravam em Copacabana vinham de outras cidades, o escritor notou ali um caminho a ser trilhado. Tempos depois, Raphael leu sobre jantares secretos que aconteciam nos Estados Unidos, ou seja, eventos fechados que reuniam pessoas interessadas em culinárias especiais. “Decidi unir um fato ao outro”, explica o autor que, ao se decidir por uma trama que tratasse de alimentação, por que não incluir carne humana? “Isso potencializaria o assunto”, pensou ele, na época.

Raphael começou a escrita em 2013 - seu rigor com o trabalho permite que, enquanto desenvolve um livro, já planeje o seguinte. “O desafio sempre foi a forma de se contar a história”, explica o autor que, depois de um ano e meio de produção, descobriu que não seguia o caminho certo. “Já somava 150 páginas e cada um dos rapazes se alternava como narrador dos capítulos. Achei que não era a melhor solução e joguei fora.”

Naquela época, a crise econômica já se instalara no País e muitos de seus amigos eram obrigados a fazer bicos para faturar algum dinheiro. Bom observador, Raphael incorporou a situação à história, o que deu um contorno mais moderno ao romance. “O livro traz um retrato dessa geração que enfrenta a falta de emprego ao sair da faculdade”, explica. “Há também um reflexo da sociedade, pois um dos narradores é homossexual.”

Resolvido esse entrave, Raphael preocupou-se com a linguagem. Em tempos de Facebook, Twitter e todas as demais redes sociais, a forma narrativa é necessariamente modificada. Por isso, ele arriscou ao criar um capítulo inteiro em que reproduz a conversa do grupo no WhatsApp. “E, como se trata de uma cena essencial, decidi aumentar o grau de tensão. Gosto de escrever de forma estruturada; por isso que meu gênero preferido é o suspense, no qual há um jogo de apresentação de uma verdade, que, na real, é uma mentira. E me interessa essa tensão.”

JANTAR SECRETO

Autor: Raphael Montes

Editora: Companhia das Letras (376 págs., R$ 39,90). Lançamento Liv. Cultura. Av. Paulista, 2.073. 18h30

A predileção pela carne humana nas artes - Matheus Mans

Misturando medo, repulsa e muita curiosidade, o canibalismo é assunto recorrente em filmes, séries e livros. Nas telonas, por exemplo, Tim Burton já tratou do tema de forma sutil com Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet. Johnny Depp, o barbeiro, matava seus clientes, enquanto a personagem de Helena Bonham Carter fazia tortas com a carne dos mortos.

Vários outros longas independentes também apresentam a temática. Alguns, até mesmo, ganharam ares de filme cult. É o caso de Holocausto Canibal, de 1980. Um dos primeiros a usar a técnica de found footage, o filme mostra, de maneira documental, um grupo de viajantes que chega à Amazônia para conhecer os costumes de uma tribo indígena. Obviamente, o filme acaba ganhando contornos de terror com fortes e explícitas cenas de canibalismo.

O Brasil, no entanto, não é apenas cenário para filmes de canibais. O País também já produziu as próprias histórias tratando do tema: Como Era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos, e Hans Staden, de Luiz Alberto Pereira. Ambos se inspiraram, de maneiras diferentes, no drama do viajante alemão Hans Staden, que veio ao Brasil estudar a cultura de índios canibais, mas acabou sendo devorado por eles.

Além disso, é impossível não lembrar de um personagem icônico da cultura pop ao falar do assunto: Hannibal Lecter. Tema de numerosos filmes e séries, o psicopata foi criado por Thomas Harris, em 1981, e apareceu pela primeira vez no cinema em O Silêncio dos Inocentes, em 1991. A partir daí, o personagem ganhou o imaginário popular por seus modos educados, apesar da preferência pela carne humana.

A última aparição do personagem foi na série Hannibal, exibida entre 2013 e 2015 pela rede norte-americana NBC. Nela, o personagem, interpretado com maestria pelo ator dinamarquês Mads Mikkelsen, promove impressionantes banquetes com carne humana. A série, no entanto, acabou sendo encerrada por conta da baixa audiência. Muitos especularam, aliás, que foi causada pelo próprio canibalismo: as pessoas não se sentiram confortáveis pelo tratamento natural que o diretor deu aos banquetes canibais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.