TIAGO LEMEN/DIVULGAÇÃO
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Cancelada em 2015, Jornada de Literatura de Passo Fundo deve ser reformulada em 2017

Antecipado pelo 'Estado', cancelamento da edição de 2015 foi anunciado pelo reitor da Universidade de Passo Fundo nesta tarde

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2015 | 17h32

(Atualizada às 20h) A cada dois anos, crianças, adolescentes, professores e estudantes universitários se reúnem debaixo de lonas de circo para ouvir escritores acerca dos livros que leram antes da semana da Jornada Nacional de Literatura, o mais consistente projeto de formação de leitores do País e que é realizado em Passo Fundo (289 quilômetros de Porto Alegre) desde 1981. Este seria ano de Jornada, mas, conforme o Estado antecipou na edição de ontem, ela está cancelada por falta de patrocínio. A decisão foi reafirmada por José Carlos Carles de Souza, reitor da Universidade de Passo Fundo, que organiza o evento, no final da tarde desta quarta. 

O plano inicial era anunciar esse cancelamento na última segunda-feira, 18, mas depois remarcaram para quarta-feira, 20. Como a Jornada é um evento caro à cidade, o ônus político de uma decisão como essa pode ser grande - possivelmente por isso a resistência em assumir o cancelamento. Mas, segundo Tania Rösing, a idealizadora e coordenadora do evento, não era mais possível esperar pelo milagre. "Não podemos ficar de promessa", disse antes do anúncio oficial.     

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Em nota, Souza usou a crise como justificativa para a decisão. “A conjuntura econômica nacional impõe um cenário de contenção e exige restrições de investimentos em atividades dos mais diferentes gêneros. Desse modo, ante a incerteza desse momento, a realização de um evento de natureza tão grandiosa não se mostra recomendada”, escreveu. Foi a mesma resposta ouvida durante a tentativa de captação de recursos junto a empresas que poderiam investir no projeto usando as leis de renúncia fiscal do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura (RS). 

A Jornada foi orçada, primeiro, em R$ 3,5 milhões. Foi reformulada para R$ 3 milhões e depois para R$ 2,5 milhões. Rösing disse que não era possível diminuí-la ainda mais e que a essa hora todos os contratos deveriam estar assinados. Ou seja, não daria tempo de esperar novos apoiadores. Sobre as empresas que usaram o argumento da “crise”, disse não acreditar que todas estejam mal, mas apenas “na onda”. E concluiu: “Ou fazemos uma coisa decente ou não fazemos nada. Transformar a Jornada numa quermesse junina nem falar.” 

Durante o processo de organização, a professora disse ter tido dificuldades em falar com órgãos públicos estaduais e federais. Essa caminhada é algo que ela repete ano após ano, a cada mudança de ministro e secretário, para apresentar o projeto e convencê-los da importância.

Se não há reconhecimento de um lado, há de outro. Ontem, escritores e editores se manifestaram nas redes sociais. Santiago Nazarian, por exemplo, participou em 2007 e disse que foi uma das experiências mais interessantes que viveu como escritor. “Realmente um evento que forma leitores, que adota os livros previamente. Emocionante falar numa tenda lotada com centenas e centenas de estudantes que leram seu livro”, escreveu.

E como há essa preparação, há diálogo, principalmente quando a plateia é formada por crianças e adolescentes – que não se acanham em entrar na fila para fazer uma pergunta ao autor que está no palco.

Mas esse mesmo aluno interessado está, de duas edições para cá está, mais disperso. Celular é algo que não se via há alguns anos e hoje atrapalha o andamento da programação. Isso também ocorre – e ocorre principalmente – quando são adultos na plateia, e a Jornada vai aproveitar esse intervalo para “pensar os novos tempos”. “Passados 34 anos, temos que repensar o formato, reinventar. Trazemos um grande conferencista e a galera toda com o celular ligado acessando o Face”, comentou Rösing. Este ano, foi contratada a empresa Infinito Cultural para justamente avaliar o formato e sugerir mudanças. Elas ficarão para 2017.

O escritor Henrique Rodrigues, assessor de Literatura do Sesc Nacional, que sempre encontrou as portas abertas para os escritores estreantes revelados pelo Prêmio Sesc – eles sempre estiveram entre os convidados –, comentou: “Diferente de eventos passageiros ou movidos apenas por marketing, a Jornada apresentou alguns dos melhores resultados na área da formação do leitores no país, envolvendo e mudando toda uma cidade”. 

Ignácio de Loyola Brandão, que comanda com Luciana Savaget a programação adulta, disse: “Incrível, cancelaram a Jornada. Quem a conheceu, quem participou jamais se esqueceu. Jamais esquecerá os ganhos que teve ali. Jamais esquecerei as milhares de vidas da plateia, ouvindo, perguntando, conversando durante uma semana. Luto. Lágrimas”.

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