VideoFilmes
VideoFilmes

Caetano Veloso discute sexualidade na Flip

No encontro com o escritor espanhol Paul B. Preciado, ambos associaram repressão sexual ao fascismo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2020 | 21h55

No encontro entre o compositor e cantor Caetano Veloso e o escritor espanhol Paul B. Preciado, que está em Paris, mediado pelo mexicano Ángel Gurria-Quintava, o avanço da extrema direita no mundo foi um dos temas discutidos, mas não o principal. A mesa de número oito (Transições) da edição virtual da Festa Literária Internacional de Paraty, foi pré-gravada, mas não perdeu o impacto. Preciado, autor de Um Apartamento em Urano e um dos primeiros pacientes do covid-19, perguntou sobre o significado do título Narciso em Férias, que Caetano tirou de um capítulo de um livro de F. Scott Fitzgerald. “Narciso é um deus básico, e, em geral, usam a palavra de Narciso de maneira pejorativa”, respondeu, lembrando que o livro do escritor americano lhe veio à mente quando ficou numa solitária, preso pela ditadura militar, tema de sua obra.

“Parecia que minha vida tinha sido essa o tempo todo e, quando me decidi narrar a  experiência da prisão, me pareceu um bom título”. Sobre o gênero do livro, que Gurria-Quintaca classificou de autoficção, Veloso admitiu que não pode deixar de haver, no caso, a construção de um personagem.

Já Preciado escreve em seu livro recém-lançado, que a filosofia é um tipo de ficção que pretende transformar a realidade. Com nacionalidade espanhola, ele pediu a mudança de sexo, discutindo a questão da homossexualidade no encontro. Caetano citou o crítico Luís Carlos Maciel quando o livro Vereda Tropical (origem de Narciso em Férias) foi lançado: “Caetano se revelou: ele não é homossexual, nem bissexual nem heterossexual”.  O compositor riu e admitiu que já se apaixonou por homens, após ler um poema elegíaco à pansexualidade, estranhando a ausência de “bichas’ no colégio dos filhos, no Rio. Na Bahia, segundo Caetano, ele vivia rodeado de colegas homossexuais.

O compositor, referindo-se à sua formação, citou a intelectualidade francesa (Sartre, Simone Beauvoir, Lévi-Strauss) e destacou o papel de Foucault como uma inteligência que abriu novos caminhos para sua filosofia. Já Preciado, filho de uma tradicional família do Norte da Espanha, franquista, teve dificuldades para aceitar sua mudança de sexo (ele era a escritora Beatriz Preciado). “Toda a memória do fascismo é a memória da cultura dos meus pais, de uma cultura patriarcal, em que a masculinidade é definida como um luxo, o monopólio legítimo da violência que, afinal, é compartilhado tanto pela cultura espanhola como portuguesa”. Apesar de tudo, ele se definiu como um “otimista patológico’”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.