Denis Ferreira Netto/Estadão
Denis Ferreira Netto/Estadão

Caetano Galindo entra na ficção com os contos de ‘Sobre os Canibais’

Escritor e tradutor fala com o 'Estado' sobre o livro que sai pela Companhia das Letras

Entrevista com

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 06h00

Caetano Galindo é um profissional da indústria do livro com um ritmo frenético de trabalho reconhecido pelos pares: são aulas, orientações e as dezenas de outras atividades na vida acadêmica (ele é professor de linguística na Universidade Federal do Paraná), oficinas, palestras, muitas traduções por ano, trabalhos escritos de não ficção, colunas para jornais e blogs - agora, ele oficialmente entra no time dos escritores de ficção publicados com Sobre os Canibais, lançado pela Companhia das Letras.

Os textos do livro - contos independentes, mas às vezes interligados - correspondem a esse ritmo de trabalho, com frases rápidas abrindo espaço para narradores calculadamente atentos à própria construção de pensamento. Classificar os textos como experimentais, porém, denotaria um tipo de inacessibilidade que não existe no livro. Sobre a obra, Galindo respondeu às seguintes questões.

Os contos do livro empreendem uma exploração contínua da linguagem, o que dá a eles uma característica muito própria. Você diria que para você essa exploração é mais relevante do que a construção de uma trama, por exemplo? Ou são dois elementos intrínsecos?

Eu simplesmente sou ruim de elaborar “tramas”. Nem dou muita bola para isso. Não é mesmo o que me interessa. Em geral o que eu quis ali foram “retratos”. Exames de situações ou ideias. A forma, a linguagem, decorre de eu ter chegado a uma maneira mais eficiente (normalmente mais rápida, mais concentrada mesmo) de conseguir expor aquilo que eu queria. Eu não diria que eu parto de uma premissa tipo “vamos inovar” e tal. O que acontece é que eu não me obrigo a fazer direitinho, pelos modelos mais corretos. Eu só faço como acho que vai funcionar melhor.

Aparecem aqui e ali algumas referências, tanto no ritmo quanto na estrutura dos contos (e da sua tradução, é natural) do David Foster Wallace, estou correto? O que esse autor em específico significou na sua carreira e na sua visão da literatura?

Tem o Wallace, sim. Mas acho que tem até mais da Ali Smith e da Lydia Davis, por exemplo. Em termos de forma. Em termos de abordagem da literatura. O que o Wallace deixou marcado mais a fundo em mim foi uma abordagem... das pessoas. Da vida em volta da gente. E, no caso dele, especialmente, tem esse dado de que muitas vezes os leitores conhecem a prosa dele através da minha, das minhas escolhas... então é meio que uma via de mão dupla. O Wallace de Graça Infinita soa mais parecido com alguns dos meus contos do que o Wallace dos livros que não fui eu que traduzi. Mas devo demais a ele, em todos os sentidos, que fique bem claro.

Como você vê que a universidade, nesses tempos difíceis para o ensino e a cultura, se relaciona com a atual produção da literatura brasileira contemporânea? É uma velha discussão, mas acho que você tem um lugar de fala privilegiado para falar sobre o assunto.

A universidade está em crise. Acho que em crise interna, em termos de redefinição do seu papel, do seu lugar, dos seus instrumentos. E certamente em crise externa, transformada em alvo conveniente de um discurso que precisa aniquilar o pensamento independente. O lugar que ela ocupa agora é, portanto, ainda mais importante, e pode ser a chave para aquela reorganização interna que também parece premente. A gente precisa ficar de pé. A gente precisa falar. E a literatura produzida pelas pessoas que estão ali, também, é uma forma de falar, de agir, de intervir.

Não sei se você chegou a ver aquele filme A Chegada (2017), mas lembro de ter lido em algum lugar que o filme era tão de ficção científica que quando o mundo vai acabar, eles chamam uma linguista para salvá-lo. É uma piada, claro, mas em tempos de convulsão social, como essa parte dos estudos humanos pode se relacionar mais diretamente com a sociedade (sem querer dar uma função utilitarista)?

Mas é uma boa piada. Quer outra? Eu digo para as pessoas que a linguística é tão vanguarda que está há um século lidando com algo que só agora chegou, por exemplo, à física: o fato de que todo mundo se julga tão expert quanto o verdadeiro especialista no campo. A gente entende de crise de autoridade! Agora, falando sério, acho a linguagem sempre importante. Acho que as palavras, os sentidos e usos das palavras, sempre foram campo de batalha, e continuam sendo. E assim como os artistas (poetas, prosadores) têm um papel importante na manutenção da vida das palavras, os linguistas são fundamentais para esclarecer a barafunda discursiva em que estamos afundando. Estudar linguagem é aprender a valorizar diversidade. Estudar linguagem é aprender a analisar sentidos, estruturas, e manipulações de sentidos e estruturas...

Mesmo para tradutor experiente, Salinger é um desafio

Mesmo para um tradutor experiente e respeitado, verter J. D. Salinger para outra língua é um desafio que tem suas particularidades. Não foi diferente para Caetano Galindo, responsável pelas novas versões dos livros do escritor americano, já nas livrarias pela editora Todavia. Até agora, foram publicados O Apanhador no Campo de Centeio, Nove Histórias e Franny & Zooey. Erguei Bem Alto a Viga, Carpinteiros & Seymour: Uma Introdução sai em maio.

Foram anos e anos em que a obra de Salinger no Brasil ficou dividida entre a Editora do Autor (fundada por Fernando Sabino e Rubem Braga na década de 1960) e a L&PM, mas em agosto de 2019 a Todavia assumiu a publicação, com novas traduções dos livros publicados em vida pelo autor – no ano passado, a família de Salinger mencionou a existência de material inédito e os planos de lançá-lo, o que ainda não ocorreu.

Tradutor de James Joyce, David Foster Wallace, Thomas Pynchon e dezenas de outros autores e autoras de língua inglesa, Caetano Galindo conta que o trabalho de preparação para traduzir Salinger foi diferente.

“O impacto e a fortuna crítica dessa obra são enormes, o mito cultural da literatura dele para minha geração é sem comparação”, explica. Uma de suas ideias iniciais, da qual desistiu, foi usar o vocabulário de Nelson Rodrigues para criar uma linguagem de época. Ele fez, porém, uma lista de mais de uma centena de palavras que deveriam aparecer sempre da mesma forma, traço fundamental da escrita de Salinger.

Ele destaca também o trabalho em conjunto com a Todavia e com a preparadora do texto, Márcia Copola, “santa padroeira dos preparadores do Brasil”, segundo o tradutor. “Foi tudo diferente e mais intenso por causa do amor que sentimos pelo texto”, explica. “O autor, idealmente, trabalha de si para si, fazendo o que ele quer com a sua convicção e então joga isso para o mundo, esperando que os leitores se encaixem. Já o tradutor trabalha pelo livro para os leitores. Trabalho pelo livro em um certo momento, numa certa situação. Tentar trazer Salinger para um novo momento, era um peso que foi levado muito a sério.”

Para Galindo, ao trabalhar num texto que é um “sonho”, como esses, existe uma vontade de também causar impacto. “Isso está curiosamente desconectado do meu ego, está ligado ao trabalho do autor apenas. A ideia é fazer com que os novos públicos olhem para esses livros e encontrem o que as pessoas da minha geração ainda encontram ali.”

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