Brasil é alvo prioritário da espionagem americana, diz Glenn Greenwald

Jornalista, que foi a principal estrela desse sábado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), reafirmou que continuará divulgando os documentos em posse de Snowden

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 10h21

PARATY - O advogado e jornalista norte-americano Glenn Greenwald, de 47 anos, ficou conhecido após a divulgação de dados fornecidos pelo ex-agente de segurança Edward Snowden no final de 2012. Os primeiros documentos foram divulgados por Greenwald em junho do ano passado e caíram como uma bomba sobre o governo norte-americano, que se viu obrigado a explicar o monitoramento de informações e e-mails de autoridades de países espionados pelo NSA, a agência de segurança americana que bisbilhotou, inclusive, a correspondência digital da presidente Dilma Roussef e de várias empresas brasileiras, como a Petrobrás.

Greenwald foi a principal estrela deste sábado, 2, na 12ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e concedeu, antes de sua mesa no evento, uma entrevista coletiva na qual voltou a reafirmar seu compromisso de continuar divulgando os documentos em posse de Snowden, que viu pela última vez há pouco mais de três meses na Rússia, onde está sob proteção do governo, que não tem acordo de extradição com os EUA.

“Ele vive uma vida normal, sai às ruas, é reconhecido casualmente e acho que o governo russo vai manter Snowden por mais um ano no país, pois as relações com os EUA e Putin pioraram e ele não teria a mínima chance se fosse extraditado, podendo passar os próximos 40 anos na prisão”. A ajuda russa, esclarece Snowden, não conseguiu impedir que o ex-agente americano poupasse críticas ao governo Putin. O jovem americano, comparou Snowden, seria uma espécie de jogador de videogame lutando contra superpotências, amparado na mitologia americana do herói que vence sozinho o mal. “Ele, porém, vem de uma família comum, filho de um pai sem faculdade que agora se orgulha dele”. O governo americano, observou Greenwald, decepciona cada vez mais o cidadão comum com a ambiguidade  do presidente Obama, que defende a paz na faixa de Gaza, mas, segundo o jornalista, continua a aceitar as encomendas de armas de Israel. “A imagem de Obama como promotor da paz é totalmente diversa do que é na realidade”, disse Greenwald, acusando a grande imprensa de ser pouco crítica em relação aos atos do governo americano.

Mas não seria ele, desde outubro responsável pela publicação do novo meio de comunicação “The Intercept”, também um jornalista submisso ao poder dos magnatas da mídia, uma vez que Pierre Omidyar, fundador do eBay, financia o First Look Media, que comanda o “Intercept”? “Quando aceitei o cargo, fiz Omidyar prometer total liberdade ao novo veículo de comunicação, pois acredito ser a função de todo jornalista desafiar a autoridade, e ele assumiu o compromisso de não interferir”, garantiu Greenwald, que trabalha com Omidyar há nove meses. Ele admitiu, contudo, que o “Intercept” sofre o mesmo tipo de pressão que o Wikileaks sofria em 2008, quando o governo queria destruir o mesmo.

“A Agência de Segurança Nacional não desiste da ideia de ter absoluto controle sobre as telecomunicações em todo o mundo, elegendo países como alvos prioritários, entre eles o Brasil, por seu potencial econômico e suas reservas de petróleo”, concluiu Greenwald.

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