Milo Manara/Editora Noir
Milo Manara/Editora Noir

Biógrafo mapeia obra do quadrinista erótico italiano Milo Manara

Escritor também traça paralelos com Veronese e Fellini

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2017 | 05h00

Poucos quadrinistas foram tão ousados - e censurados - como Milo Manara, objeto de estudo do jornalista e escritor Gonçalo Júnior na biografia A Subversão pelo Prazer (Ed. Noir, 304 páginas, R$ 49,90). “Eu quis fazer um mapeamento da obra de Manara e, paralelamente, contar a vida dele, seu engajamento político no movimento estudantil, mostrando que é coerente, porque até hoje ele é um contestador”, afirma o biógrafo em entrevista ao Estado.

Manara é conhecido pelos traços de verve erótica e mulheres de silhuetas generosas em histórias como O Perfume do Invisível (1986), A Arte da Palmada (1989) e Clic, seu mais famoso trabalho, que conta em quatro volumes publicados entre 1982 e 2001 as aventuras de uma mulher recatada que é transformada em uma ninfomaníaca graças a um aparelho. O quadrinista firmou parceria com nomes como Federico Fellini em Cidade das Mulheres (1980); Neil Gaiman em Breakthrough (1990); e Alejandro Jodorowsky em Bórgia (2004-2010).

Gonçalo explica que as principais influências de Manara são o pintor renascentista Paolo Veronese, de quem ele extraiu as angulações, os enquadramentos e a temática erótica; o quadrinista Hugo Pratt, que lhe deu o senso de aventura de suas histórias e com quem trabalhou em Verão Índio (1983) e El Gaucho (1992-1995); e Fellini, outro parceiro de longa data em cujos delírios Manara se inspirou.

A biografia surgiu de Tentação à Italiana, trabalho teórico em que Gonçalo analisou quadrinistas eróticos que despontaram nas décadas de 1970 e 1980, como Guido Crepax, Eleutere Serpiere, Massimo Rotundo, e, é claro, Milo Manara. Ele diz que havia uma leitura muito superficial desses autores, mas que a coleção Ópera Erótica (publicada pela Martins Fontes entre as décadas de 1980 e 1990) o inspirou a mergulhar mais profundamente nesse universo. “Percebi que todos eles tinham três níveis de leitura”, afirma. “No primeiro, de mero entretenimento. No segundo, uma precisão histórica dos cenários, roupas e referências visuais que passa uma mensagem mais rica. Por exemplo, no álbum Caravaggio, em que são reproduzidos quadros renascentistas. Ou na série Bórgia, que critica séculos de opressão, hipocrisia e crimes da Igreja Católica. No terceiro, as mensagens nas entrelinhas, na postura das personagens femininas”, disseca.

Diferente do que muitos críticos do quadrinista alegam, as mulheres de Manara não são objetificadas, segundo Gonçalo. “Elas trazem em si todo um discurso de feminismo, libertário, em que controlam as situações, os relacionamentos e o uso dos próprios desejos e de seu corpo”. Essa posição de poder reflete “a liberação sexual que veio com o surgimento da pílula anticoncepcional nos anos 1960. A pílula mudou dois mil anos de história, o papel da mulher no sexo, o sexo por prazer, o orgasmo.” É justamente aí que reside a oposição entre o trabalho de Manara e a pornografia, que, para Gonçalo, distorce o comportamento feminino para se adequar aos desejos masculinos. “A arte erótica não cruza essa fronteira, ela mantém a igualdade”, defende. 

Assim como a obra de Milo Manara enfrentou resistência, os quadrinhos sofreram repressão no Brasil, como conta Gonçalo em seu livro A Guerra dos Gibis (Cia. das Letras, 448 pág., R$ 67,90). “Ainda há resquícios dessa campanha difamatória contra os quadrinhos”, constata ele, que, quando criança, passou por varreduras em sua mochila em busca de gibis que poderiam ser queimados. “Criou-se um estigma, uma mácula, de que o quadrinho torna os jovens preguiçosos, destrói seu caráter e intelecto, induz à violência.” 

Gonçalo informa que desde os anos 1930 o quadrinho brasileiro é contestador e político, citando a revista Grilo, Chiclete com Banana, Henfil, Angeli, Laerte e Glauco. Para ele, a recente onda de adaptações cinematográficas de super-heróis pode até levar algumas pessoas a ler quadrinhos, entretanto, com poucas exceções, como Watchmen, a moda é prejudicial. “O leitor não vai encontrar nos quadrinhos o que vê no cinema. Os heróis perderam a graça nos quadrinhos e ficaram idiotizados nos filmes. Ficam no velho clichê do bem contra o mal, querem apenas o espetáculo visual”, conclui.

A Subversão Pelo Prazer

Autor: Gonçalo Júnior

Editora: Noir 304 páginas R$ 49,90

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