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Biógrafo Benjamin Moser fala das semelhanças entre Clarice Lispector e Susan Sontag

Pesquisador da vida das duas escritoras, Moser fala também de 'Sontag – Vida e Obra', que acaba de lançar

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2019 | 06h00

Em sua carreira como biógrafo, o americano Benjamin Moser orgulha-se da pesquisa que fez sobre duas grandes escritoras, a brasileira Clarice Lispector (1920-1977) e a americana Susan Sontag (1933-2004), também duas mulheres fascinantes. Foram trabalhos de fôlego: para desvendar o enigma clariceano, Moser pesquisou durante dez anos até publicar, em 2009, pela antiga Cosac Naify, Clarice, Uma Biografia. Fôlego idêntico exigiu o trabalho de sete anos para descobrir a pessoa que se escondia por trás da grande pensadora, cuja mecha branca no cabelo escuro era a marca registrada. Tarefa que Moser, depois de entrevistar 573 pessoas, concluiu ao publicar Sontag – Vida e Obra, que sai agora no Brasil, pela Companhia das Letras, que também assumiu a biografia de Clarice.

Juntos, os dois trabalhos representam um desafio para o leitor, tamanha a complexidade do legado das duas autoras. Afinal, se Clarice ainda perturba com o modo anticonvencional de organizar uma narrativa, valendo-se de uma escrita intimista, Susan deixou uma vasta obra, em que tanto desvendou os mistérios da fotografia como, em ensaios, celebrou a arte da complexidade e da ambiguidade.

Um desafio que exigiu esforços distintos do biógrafo. Afinal, na pesquisa sobre Clarice, Moser teve dificuldade ao entrevistar as pessoas que a conheceram, desabituadas a conversar sobre tais intimidades. Para a biografia de Susan, no entanto, o trabalho maior foi desvendar a verdade em meio à profusão de histórias que ouviu dos amigos da americana, todos acostumados a falar – e também a mentir – muito.

Ainda no caso de Susan Lee Rosenblatt, que logo adotou Sontag, sobrenome do padrasto, o biógrafo contou com o valioso acesso aos arquivos da autora, mantidos nos arquivos da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e que inclui mais de 100 periódicos, milhares de cartas, fotografias de família, rascunhos de manuscritos e até mesmo seu computador pessoal.

Das entrevistas, a mais esperada foi com a fotógrafa Annie Leibovitz, com quem Susan manteve um relacionamento duradouro, diversas vezes negado em público. Annie relutou em receber o biógrafo, mas, quando o fez, foi extremamente sincera em seu depoimento. Para Moser, elas se completavam, pois Susan era fascinada por fotografia enquanto Annie tornou-se famosa pelos retratos de celebridades.

Susan e Clarice, no entanto, viviam em função da escrita. No texto de Clarice, “as personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariceana, feita de enigmas e perplexidades – uma magia nascida da exacerbação da palavra”, no entender do poeta Ferreira Gullar.

Já Susan revelava respeito pelo ofício. “Escrever, em última análise, consiste em uma série de permissões que conferimos a nós mesmos para que possamos nos expressar de determinadas formas, e possamos também inventar, saltar, voar, cair até descobrir nosso traço peculiar de narrativa e insistir nele. Em outras palavras, até descobrirmos nossa liberdade interior. É ser severo, sem ser crítico consigo”, escreveu ela para o New York Times, em 2001. Antes de viajar para Índia e Austrália, onde participa de palestras sobre Clarice Lispector, Moser conversou com o Estado.

Em suas pesquisas, você encontrou semelhanças entre Clarice e Susan? 

Encontrei. Além do fato de serem dois grandes nomes da literatura mundial do século 20, filosoficamente há semelhanças, especialmente na forma com que trabalharam a linguagem, um recurso em que é possível fazer distorções. Clarice e Susan eram muito conscientes disso. Susan, aliás, trabalhava com isso também na fotografia, na qual é possível representar uma pessoa de uma forma horrível ou, ao contrário, apresentar alguém de uma forma melhor. No caso da linguagem, essas possibilidades são, para as duas, muito importante. Para Clarice, era uma questão mística, como se pode chegar ao divino pela linguagem. Com Susan, era diferente, pois ela queria saber como a linguagem, a representação, pode distorcer, seja na política, na sociedade ou mesmo na filosofia. Algo tão poderoso que pode até matar. 

Você se lembrou da relação de Susan Sontag com a fotografia – no final da vida, Clarice começou a pintar quadros, ou seja, a imagem também influenciou de alguma forma sua escrita. Como funciona a relação das duas com a imagem?

É muito interessante. Susan nunca fotografou nada, não tinha prática alguma. O que a interessava era como essa arte influencia nossa vida – a maioria das pessoas fotografa por hobby, portanto, não se dá conta do poder da imagem. Tanto Susan como Clarice era mulheres muito bonitas. Talvez por isso Susan percebia a crueldade da câmera, que parece estar esperando você envelhecer. Susan dizia que a câmera julgava as pessoas – e também podia reduzi-las.

Como assim?

Susan costumava brincar, ainda que de forma pesarosa, que ela era conhecida pela mecha branca de seu cabelo – não por alguma obra, mas pelo contraste de cor de seu cabelo. Era algo tão poderoso naquela época (anos 1960 e 70) que o (programa de humor) Saturday Night Live tinha uma peruca escura com um mecha branca em seu departamento de vestuário, para quando fosse satirizá-la. O curioso é essa marca surgiu sem querer: quando estava com 42 anos, ela sofreu com um câncer que quase a matou. Seu cabelo ficou todo branco e, para reparar, Susan foi ao cabeleireiro da mãe, no Havaí, que deixou uma mecha clara. Ela gostou e acabou se tornando a marca dessa intelectual nova-iorquina. Mas isso é um ator de tirania, pois existe uma pessoa real atrás da imagem. É o que Susan sempre fez questão em seu trabalho, o de mostrar a realidade que está por trás da imagem. Ela dizia que a foto de uma pessoa não é a pessoa. 

E o que dizer da escrita de Clarice e Susan: elas se revelavam ou se escondiam atrás das próprias palavras?

Para quem conhece a escrita da Clarice, sabe que é uma revelação total, e não é só uma revelação pessoal, mas do ser humano em geral. É algo chocante a forma como Clarice, que não nos conheceu, chegou de fato a nos conhecer. Creio ser a sua revelação mais poderosa. Já Susan adotou uma postura que considero interessante ao assumir uma personagem pública quando era ainda muito nova. Ela sabia que seria alguém importante, o que de fato aconteceu. Mas, aos 12 anos, Susan tinha a consciência de que era lésbica, algo recriminável em sua época. Por isso, construiu uma fachada pública, aquela que despontava nas fotos, na televisão. Ela guardou a menina vulnerável, insegura, nos diários. Descobri isso ao ter acesso ao arquivo privado dela. Isso exigiu um preço muito alto em sua vida dela.

Há ainda outro assunto, mais delicado, que as une de uma certa forma: câncer. Clarice morreu sem saber que sofria desse mal e Susan foi obrigada a lutar contra três tipos de câncer, um dos quais a vitimou. 

Sim, é um assunto interessante. O primeiro câncer de Susan aparece em 1975, dois anos antes do da Clarice, que acabou morrendo sem saber, em 1977. Quando fazia pesquisas para a biografia da Clarice, fiquei surpreso ao descobrir que, no Brasil da época, não se dizia que uma pessoa morria de câncer. Parecia uma vergonha. E você era atacado por essa doença porque era sexualmente reprimido ou tinha vivido de forma errada. Por isso que Clarice nem soube que morreu de câncer. E Susan, quando descobre seu primeiro, também foi obrigada a abafar o assunto, questionando-se o que fizera de errado. Até que escreve A Doença como Metáfora, para derrubar essa ideia, mas também para se convencer. Graças a esse livro, Susan pode morrer sem pensar que tinha desperdiçado a vida.

Neste mês de dezembro, iniciou-se a comemoração do centenário de nascimento de Clarice, que acontece em dezembro de 2020. Ao lado de Susan Sontag, qual a importância dessas mulheres nos dias de hoje?

O mais importante é entendermos como elas nos ensinam a nos aprofundarmos em diversos assuntos. A como entender as coisas. Em nossa eterna necessidade entendimento, Clarice nos dá a perspectiva de toda uma vida. E a Susan é a pessoa que oferece os alicerces da cultura. Ela abre a porta. Você pode entrar ou não entrar, como no quarto da empregada da G. H. no romance de Clarice – mas ela te faz entender o que é a filosofia moderna, o que é o cinema, o que é a política, porque pensamos de uma determinada maneira. Isso nos ajuda a sair da gritaria do Twitter e do dia a dia político, do mundo todo, para finalmente entendermos o que está acontecendo.

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