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Biografia revela a bagunçada e brilhante vida de Pablo Neruda

'O Chamado do Poeta', de Mark Eisner, tenta explicar o extraordinário sucesso do chileno

Troy Jollimore, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2018 | 06h00

Poucos poetas oferecem a seus biógrafos um material tão rico quanto o ganhador do Prêmio Nobel Pablo Neruda. Nascido em Parral, no Chile, em 1904, Neruda transcendeu suas origens modestas e educação provincial para alcançar sucesso e significado muito além dos sonhos da maioria dos escritores. Livros como Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, Residência na Terra e Odes Elementares venderam dezenas de milhões de cópias. Quase 45 anos após a sua morte, ele continua a ser um dos poetas mais significativos do século 20. 

A nova biografia de Mark Eisner, Neruda: O Chamado do Poeta, explora a complexa confluência de fatores que explicam a extraordinário sucesso de Neruda. Muito mais do que a maioria das poesias modernas, o trabalho de Neruda é bastante acessível. Movido desde cedo pela exploração dos mais desfavorecidos, ele via a existência da poesia para o benefício das pessoas comuns. “A poesia é como pão”, escreveu ele. “Deveria ser compartilhada por todos, por estudiosos e camponeses, por toda nossa vasta, incrível e extraordinária família de humanidade.” Quando não era abertamente política, sua poesia tendia a se preocupar com questões de existência cotidiana, encontrando amor e beleza. 

A política nunca esteve longe de Neruda, e a história de sua vida é, em grande parte, concomitante com a história política do século 20. A capital chilena de Santiago, quando ele chegou lá em 1921, foi o centro de um movimento estudantil ativo que ansiava pela poesia progressista. Nos anos 1930, ele assistiu, de seu posto como diplomata em Barcelona, a Espanha cair em guerra civil. Neruda já se inclinou para o socialismo como resultado de suas experiências chilenas; agora, observando a entrada da União Soviética para apoiar os republicanos espanhóis contra os fascistas de Franco, enquanto o resto do mundo permanecia indiferente, ele se tornou um comunista partidário de Stalin.

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As origens da estima de Neruda por Stalin, portanto, são compreensíveis. Mas sua lealdade persistirá muito tempo depois que relatos da realidade brutal do regime ditatorial de Stalin começaram a surgir. 

Já no Chile, ele sempre esteve do lado oposto aos ditadores. Quando, no final da década de 1940, o Partido Comunista do país foi proibido e os protestos dos mineiros foram brutalmente reprimidos, Neruda criticou o governo na imprensa internacional e no plenário do Senado chileno. Quando o governo tentou prendê-lo, ele fez uma fuga dramática a cavalo pela fronteira com a Argentina.

Ele retornou ao Chile na década de 1950 e passaria a maior parte do resto de sua vida lá. Sua morte por câncer, em 23 de setembro de 1973, ocorreu apenas 12 dias depois do golpe apoiado pelos EUA, no qual as forças de Augusto Pinochet tomaram o controle do presidente democraticamente eleito Salvador Allende. O funeral de Neruda tornou-se uma demonstração pública de resistência ao novo regime. Enquanto os soldados olhavam, armados com metralhadoras, a multidão gritava: “Ele não está morto, ele não está morto! Ele só adormeceu!”.

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A bagunça da vida pessoal de Neruda, que foi tão agitada quanto a sua vida pública e que serve como evidência de sua natureza apaixonada e impulsiva, nem sempre o exibe de uma maneira admirável. Ele negligenciou e depois abandonou sua primeira mulher, mal reconhecendo a existência de sua filha, que nasceu gravemente incapacitada. Ele parecia muito apaixonado por sua segunda esposa; ainda assim, enquanto estavam juntos, ele começou um caso com a mulher que se tornaria sua terceira. Perto do fim de sua vida, ele a trairia também.

Uma ótima história que já contada antes na biografia de 2004 de Adam Feinstein, Pablo Neruda: Uma paixão pela vida. A necessidade de uma nova biografia não é inteiramente óbvia; e infelizmente, o homem que está no centro de todos esses redemoinhos turbulentos, pessoais e políticos permanece estranho e distante na narração de Mark Eisner.

Apesar de seu trabalho em um documentário sobre Neruda e como tradutor de O Essencial Neruda: Poemas Selecionados (2004), nessa biografia, Eisner tende a manter o assunto distante e pouco se percebe da vida interior do homem.

Além disso, a prosa de Eisner é, no geral, bastante trivial, exceto por algumas ocasiões infelizes em que se esforça, de maneira pouco sensata, por uma espécie de poeticismo à la Neruda. 

Finalmente, Neruda: O Chamado do Poeta não é tão satisfatório quanto se poderia esperar. Ainda assim, a vida de Neruda continua sendo uma fonte de fascinação e seu trabalho continua sendo vital. Qualquer livro que possa ajudar a trazer novas gerações de leitores a ele é valorizado apenas por esse motivo. / TRADUÇÃO DE PEDRO RAMOS

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