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Biografia de Norma Bengell revela sua personalidade intensa

Livro foi organizado com os escritos da atriz

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2015 | 19h18

Linda, bombshell, ousada, doidivanas, corajosa, libertina, libertária. Quais desses seriam os melhores adjetivos para definir Norma Bengell? Sua autobiografia, Norma Bengell, lançada, postumamente, pela nVersos Editora, prova que a personalidade da atriz e diretora é inclassificável. Norma era um misto disso tudo e muito mais - uma alma complexa, daquelas que não passam incólumes durante sua existência. 

A obra, organizada pela amiga, a produtora cultural Christina Caneca, dá unidade a uma trajetória, muitas vezes, conhecida aos pedaços. Há quem conheça a Norma Bengell do primeiro nu frontal na cinema, em Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra; ou a Norma que fez carreira internacional; ou a Norma que, se manifestando publicamente contrária à ditadura no Brasil, era perseguida pelos censores e viu suas chances de trabalho se esvaírem; ou a Norma que testemunhou a própria trajetória ser maculada pela acusação de desvio de milhões de reais na captação de recursos para seu filme O Guarani (1996), da qual passou anos se defendendo; ou a Norma, nos tempos finais de vida e carreira, fazendo participação em Toma Lá, Dá Cá, na Globo. Aqui, todas as pontas foram unidas.

A história da atriz é refeita com os próprios manuscritos, resgatados por acaso por Christina, na casa de Norma. “A empregada dela comentou que, no anexo, tudo estava se deteriorando.” Lá estavam fotos, cartazes, entre outros objetos. “Falei para ela que, se me confiasse esse acervo, reservaria parte do meu tempo para ele.” Norma autorizou. 


E a produtora cultural, então, cumpriu a promessa e foi colocando as coisas em ordem, separando e catalogando tudo. Um dia, foram descobertos escritos da própria atriz, aos quais ela se dedicou em dois períodos diferentes da sua vida. “Ela começou a escrever entre 1975 e 77 e acabou em 89. Estava tudo espalhado, fui montando em casa como um quebra-cabeça”, conta ela. “Levei quatro meses para fazer esse trabalho. Algumas páginas não dava para entender. Então, eu lia e ela ia complementando.” Por coincidência, a editora procurou a atriz para lhe propor escrever sua biografia. Christina já tinha mais de meio caminho andado. Uma equipe finalizou o restante, com entrevistas com a atriz. Norma, no entanto, morreu em outubro de 2013, aos 78 anos, antes de o livro ser lançado. Com prefácio do produtor Luiz Carlos Barreto, a obra reúne também farto material fotográfico.

Abortos. Nascida em pleno carnaval de 1935, Norma Bengell era filha de pai belga, de “olhos azul-violeta”, que ganhava a vida consertando pianos, e de mãe de família abastada, mas que foi rejeitada por ela após ter se apaixonado por um imigrante, uma afronta para o patriarca integralista. Norma teve uma infância pobre. A mãe, acostumada à vida confortável, arregaçou as mangas e começou a trabalhar fora. Filha única, Norma testemunhava constantes brigas dos pais. “Minha infância, longe de ter sido o lindo carrossel que toda menina espera, era uma vertiginosa montanha-russa, com muitos altos e baixos. Acho que, por isso, eu tenho estes olhos tristes e esta ruga na testa. Basta olhar para as minhas fotos”, diz ela no livro. 

Após os pais se separarem, Norma foi parar num colégio interno, comandado por freiras alemãs. Uma estrutura rígida, que, segundo a atriz, havia lhe impactado da forma contrária a que seus pais imaginavam. “A doce Norminha havia virado uma menina rebelde.”

Norma saiu daquele colégio, mas, tempos depois, largou os estudos. Foi trabalhar fora para ajudar em casa, como modelo em ateliê de moda e vedete. Aprendeu a cantar na raça. Assim aconteceu com a atuação. Sem didatismo, só na intuição. Gravou o primeiro comercial para a TV, em 1955. Norma exalava sensualidade, tanto no palco quanto numa inocente propaganda de TV do achocolatado Toddy. O diretor Carlos Manga percebeu isso - e a convidou para participar da chanchada O Homem do Sputnik (1959), com Oscarito; ela no papel de uma pseudo Brigitte Bardot. Ela também foi para o teatro e para a TV. 

Mais tarde, frequentando a turma do Cinema Novo, Norma ganhou o papel de uma prostituta em O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, e, a convite de Jece Valadão, fez Os Cafajestes, de Ruy Guerra, ambos de 1962. O primeiro filme a levou a Cannes - o longa foi selecionado para representar o Brasil no festival de cinema e ganhou o prêmio principal - e o segundo, apesar de proibido no Brasil por causa de seu nu frontal, lhe conferiu reconhecimento. 

Cannes foi um trampolim para a carreira internacional. De lá, a atriz partiu para Itália e o diretor Alberto Lattuada, expoente do neorrealismo italiano, a contratou para o papel feminino de O Mafioso. O elenco se hospedou no mesmo hotel, em Palermo, onde estava a equipe de O Leopardo, com Burt Lancaster e Alain Delon - e ela quase participou também do filme do grande Visconti. Na temporada europeia, a vedete foi dando lugar a uma mulher de estilo, que se tornou referência de moda. “Esse glamour era na tela”, revela Christina. 

Todos os homens queriam a bela e sedutora Norma. Em suas memórias, os muitos relacionamentos que teve são revisitados. Durante O Pagador de Promessas, a atriz relembra a relação amorosa que teve com Anselmo Duarte. Na época das filmagens de O Mafioso, engatou um intenso romance com Alain Delon, que, na ocasião, oficialmente ainda namorava a atriz austríaca Romy Schneider, de Sissi. E casou-se com o ator italiano Gabriele Tinti. “Gabriele foi a grande paixão da vida dela”, afirma a organizadora do livro. Um casamento que não resistiu ao estilo livre de viver dos dois. Após tantos homens, Norma se apaixonou por uma mulher, com quem viveu por anos.

A atriz fala também de seus abortos. “Cada vez que tirava um filho de um homem que amava, era como se tirasse esse homem de dentro de mim”, descreve ela no livro. Numa prova de disciplina espartana que exigia de si mesma, Norma relata um momento extremo. Após realizar mais um aborto, foi para as filmagens de Os Cafajestes e subiu e desceu de dunas, em Cabo Frio, com o sangue escorrendo pelas pernas. “Eu não podia atrasar as filmagens para me recuperar”, justifica ela. “Norma não se lamentava de nada. Só a vi se lamentando de duas coisas: de ter feito os abortos e nunca ter tido um filho, e mágoa do episódio do O Guarani”, conta Christina. 

No livro, Norma, que já havia rodado Eternamente Pagu, em 1988, se defende no imbróglio envolvendo O Guarani, pelo qual foi acusada de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e apropriação indébita em relação à prestação de contas da captação de recursos. Os processos não foram adiante. “Ela tinha tendência à depressão, mas o filme foi divisor de água no quadro”, afirma Christina. “Ela não ficou com dinheiro algum. Não eram pessoas de má-fé (que trabalhavam com ela), mas elas não tinham capacidade de fazer prestação de contas.” Um tombo mal curado deixou a atriz numa cadeira de rodas. “Eu queria ser diretora. Afinal, poderia dirigir da cadeira”, diz ela. “Mas todos sumiram. Todos sumiram.”

NORMA BENGELL

Autora: Norma Bengell

Editora: nVersos(366 págs., R$ 59,90)

Única e múltipla, foi guerreira da própria vida - Luiz Carlos Merten

No fim da vida, amigos organizaram um jantar beneficente no mesmo Fiorentina em que Norma Bengell, quando jovem, despontara como símbolo de beleza. Nos últimos anos, ela se isolara. As acusações de desvios de verbas na produção de O Guarani, as doenças, tudo contribuiu para que esse período final fosse doloroso. O começo também fora. Na autobiografia, Norma conta como a mãe, rica, foi deserdada pela família por se haver apaixonado por um imigrante pobre.

Talvez tenha vindo dessa mãe que não se intimidou e foi trabalhar para sustentar-se e à filha a força libertária que sempre impulsionou Norma. Ela foi, como Leila Diniz, uma mulher à frente de seu tempo. Fez história - com o famoso nu frontal, o primeiro do cinema brasileiro, em Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Mas Norma já havia criado outros cânones, subvertido outras regras. Garota de classe média, foi ser vedete. Mas não era como as outras. Fazia um número mais intelectual. E cantava.

Norma amou homens e mulheres. Criou personagens inesquecíveis, trabalhando com grandes diretores. Foi musa do Cinema Novo. Antes disso, com beicinho de Brigitte Bardot, chamara Oscarito de ‘chérrrrri’, carregando nos erres, em O Homem do Sputnik, de Carlos Manga. O escândalo de Os Cafajestes agitava o País e Norma já estava em Cannes, participando do momento de glória de Anselmo Duarte com O Pagador de Promessas, que venceu a Palma de Ouro de 1962.

O sucesso abriu-lhe as portas da Europa, e ela foi filmar com Alberto Sordi, sob a direção de Alberto Lattuada, O Mafioso. Teve um affair com Alain Delon, entrou para o entourage de Visconti. Do teatro de revista, saltou para o clássico, representando Marivaux em francês. Nunca rompeu com suas origens brasileiras. Fez Noite Vazia com Walter Hugo Khouri, dividindo a cena com a leonina Odete Lara e o bonitão Gabriele Tinti, que foi seu marido. 

Nunca lhe faltaram papéis importantes. Alguns filmes ainda esperam por reconhecimento - Antes, o Verão, de Bráulio Tavares. Outros tiveram reconhecimento até demais, superior a suas qualidades - A Casa Assassinada, que Paulo César Saraceni adaptou do romance de Lúcio Cardoso. Norma filmou com os maiores - Ruy Guerra, de novo (Os Deuses e os Mortos), Julio Bressane (O Anjo Nasceu, O Abismo), Domingos de Oliveira (Edu Coração de Ouro). E houve o episódio Glauber, quando Norma integrou o elenco de um filme polêmico e que virou mítico - A Idade da Terra. Ela própria quis ser diretora e se atracou com um romance também mítico - O Guarani, marco da literatura indigenista de José de Alencar.

Por que O Guarani? Para reatar com as raízes do Brasil. O filme saiu caro. Muita gente jura que os recursos colossais que Norma levantou não foram parar na tela. Ela sempre se defendeu das acusações de malversação de verbas. Talvez fosse o fato de ser diretora estreante, inexperiente. O escândalo do dinheiro sempre ofuscou a análise do filme. O Guarani é mesmo tão ruim quanto parece na lembrança? Certas imagens da selva permanecem, na memória. O desfecho é glauberiano - na forma. Mas, para fazer da descontinuidade um método - uma estética? -, é preciso um Glauber.

Tudo passa sobre a Terra, escreveu José de Alencar no fim de outro romance, Iracema. O tempo passou e a própria Norma, postumamente, ressurge de corpo inteiro, contando tudo, no livro autobiográfico. É um bom momento para se reavaliar essa vida e carreira que teriam sido notáveis, não fosse o desfecho anticlimático. Norma foi linda, ousada, corajosa, libertária. À simples citação de seu nome, as imagens se sucedem. Ela cantou, representou. Foi múltipla e única. Conheceu a glória e a amargura. Foi uma grande mulher, que o cinema vai, para sempre, eternizar.

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