Life
Life

Biblioteca pessoal de Julio Cortázar é digitalizada

São quase 4 mil volumes, entre livros com anotações e manuscritos não publicados, disponíveis na internet

AFP, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 07h33

Em Madrid, a biblioteca pessoal do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) contém os vestígios de um leitor voraz. Um tesouro nas mãos da Fundação Juan March, que ganhou novo impulso com a criação de um ensaio em vídeo e uma série de podcasts.

Doados por sua esposa em 1993 à Fundação Juan March, os quase 4 mil livros que o autor mantinha em seu apartamento em Paris falam muito sobre sua personalidade. Entre as estantes, estão os títulos que o acompanharam desde muito jovem em Buenos Aires, e outros que adquiriu em Paris: livros de arte, história e poesia, mas também edições de bolso com sua assinatura e data de aquisição.

Uma das peculiaridades da biblioteca são as anotações do autor, um reflexo do leitor que ele foi. Nas páginas, Cortázar sublinha, risca, protesta, desenha e reflete. “É um retrato que fala, um retrato que se comunica com os leitores e é o que Julio sempre quis”, disse sua esposa e executora Aurora Bernárdez, na cerimônia de homenagem que a Fundação March organizou quando ele doou o fundo.

A biblioteca contém livros em 26 idiomas. Mais de 800 têm sua assinatura, que muda ao longo dos anos, e outras 397 anotações nas margens. Mais de 500 exemplares também são dedicados e, em alguns, há lembranças, como um bilhete de metrô ou flores prensadas.

Em sua biblioteca, Cortázar revela as relações que manteve com os artistas da segunda metade do século 20. “Grande engano, Pablo!”, escreve ele nas memórias do poeta chileno Neruda, após sua morte durante a ditadura militar. Nas cópias, há um verdadeiro diálogo com seus amigos.

“Nos seus 70 anos, você se confunde com a festa”, exclama, quando Neruda recria o dia em que recebeu o Nobel. “Por que tantos erros de impressão, Lezama?”, lê a novela Paradiso do cubano José Lezama Lima.

Em outros livros, os próprios autores escrevem dedicatórias a ele. Como o mexicano Octavio Paz, com quem Cortázar manteve uma longa amizade. Dos países onde foi designado embaixador, o poeta dedicou-lhe cópias cheias de cumplicidade.

"Para Julio - Não o César: Cortázar!", escreveu Paz, de Nova Deli, em 1965. Também há dedicatórias de Italo Calvino, Rafael Alberti, Juan Carlos Onetti ou Gabriel García Márquez. Entre as dedicatórias mais comoventes estão as da poetisa Alejandra Pizarnik, antes de seu suicídio em 1972. Suas anotações mostram como sua situação se deteriora. “No hospital aprendo a conviver com os últimos resíduos”, é possível ler na obra “O pássaro no olho do outro.

“Você pode acompanhar perfeitamente a vida de Julio Cortázar aqui, desde as assinaturas que estão mudando até os temas de interesse”, diz Celia Martínez, chefe da biblioteca. Entre as curiosidades, uma reimpressão do capítulo 126 de Amarelinha, que o autor apagou da edição original. O escritor tinha uma queda por histórias de terror, como as histórias de Edgar Allan Poe, das quais ele se tornará tradutor.

Na biblioteca, você pode ver cópias de Drácula, de Bram Stoker. E na capa de uma das edições em que aparece um vampiro, alguém desenhou bigode, barba, óculos e relógio.

Não é a única cópia com a capa modificada. Na Antologia do humor negro, de André Breton, Cortázar alterou o título da lombada para caneta e trocou a palavra 'noir', passando o título a ser Antologia do humor bretão, de André Noir. "Sempre insisti muito nos aspectos lúdicos da literatura", costumava dizer Cortázar.

Pesquisadores, mas também admiradores de seu trabalho vêm à biblioteca, embora hoje as coleções sejam digitalizadas. Paz Fernández, diretora da Fundação March, especifica: “Eles só vêm ver e tocar aquele livro que um dia esteve nas mãos de Cortázar”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.