DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
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Bernardo Kucinski reflete sobre 'K.', a ditadura, a culpa, o luto e sua irmã desaparecida

Em 'Os Visitantes', personagens que apareceram em 'K.' e se sentiram, de alguma forma, ofendidos ou tocados, voltam para confrontar o autor; lançamento será nesta quinta, 14, em debate com Ivone Benedetti, que apresenta 'Cabo de Guerra'

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2016 | 05h00

“Tudo aqui é invenção, mas quase tudo aconteceu”, alerta Bernardo Kucinski na abertura de Os Visitantes, novela em que o autor faz um acerto de contas com o acerto de contas já feito em K. Relato de Uma Busca (2011), obra que marcou a estreia do jornalista, aos 74 anos, na ficção e que acompanha a procura de um pai pela filha desaparecida durante a repressão militar. Tudo aconteceu, menos a história que abre a novela.

Mas a narrativa protagonizada por uma senhora sobrevivente do holocausto que bate à porta do narrador exigindo uma correção em K. não está ali à toa – e isso Kucinski só percebeu depois. Ela, de uma certa forma, introduz a grande tragédia que marcou a família do autor: a do desaparecimento.

Filho de imigrantes poloneses e nascido em São Paulo em 1937, Bernardo tinha dois ou três anos quando a mãe descobriu que de sua família não restara ninguém – muito provavelmente, todos foram dizimados em câmaras de gás de campos de concentração nazistas. Um trauma silenciado em casa, uma carga emocional represada. Afinal, era preciso viver, mesmo à sombra desse fantasma.

Em 1974, em plena ditadura militar, a caçula da família, Ana Rosa Kucinski, professora do Departamento de Química da USP, também desaparece. Ela tinha 32 anos. A família fez o que pôde, sem sucesso, para descobrir seu destino, e tentou superar mais esta tragédia.

Um pista do que pode ter acontecido com Ana Rosa e o marido Wilson só surgiu em 2012, com a publicação de Memórias de Uma Guerra Suja, livro com o depoimento do ex-delegado do Dops Claudio Guerra. Essa versão, que ajudou apenas em parte nesta elaboração de um luto impossível, apontou que o casal foi incinerado num dos fornos da Usina Cambahyba. Um 'desaparecimento' tal como o de seus antepassados – por motivos diferentes e ainda assim torpes. O autor achou a versão plausível e, ainda sem saber se fez bem ou não, porque o formato foge ao idealizado para o livro, transcreveu a entrevista concedida por Guerra à uma emissora de TV acerca do crime no último capítulo da novela. “Não me senti capaz de escrever com minhas próprias mãos o que ouvi”, escreve no livro. “Mas eu devia isso aos que leram K.”, diz ao Estado.

De fato, em nenhum momento ele escreve diretamente ou apenas sobre a irmã. “Eu não consigo, entende? Como eu, um jornalista investigativo, não consegui continuar investigando o que aconteceu, não consigo escrever sobre ela. Criou-se um bloqueio, que sinto até hoje.” K. é sobre seu pai, que reviveu sua história de militância e prisão na Polônia por meio da tragédia inimaginável da única filha – Majer Kucinski volta a ser tema de Bernardo em livro infantojuvenil previsto pela Companhia das Letras, que também prepara uma nova edição da primeira novela do autor (publicada pela Expressão Popular e reeditada pela Cosac Naify).

Os Visitantes reflete sobre as reações despertadas por K. “Mas nesses acertos de conta que estou fazendo comigo mesmo, decidi encomendar um livro sobre ela a uma pessoa muito sensível. E está emergindo o perfil de uma mulher extremamente rica, de personalidade muito forte, que eu ignorava. Faltava esse livro.”

Aliás, a família desconhecia que Ana Rosa era militante. Bernardo era, até então, o que corria mais risco. Jornalista da Veja, ele participou de uma série de reportagens sobre a tortura no País. O clima pesou e, como sua mulher estava programando um doutorado, o casal achou melhor partir para a Inglaterra. Os dois ficaram por lá entre 1971 e 1974.

Curioso que um dos “visitantes” do novo livro, justamente o pai, que aparece em sonho, questiona se Bernardo, que não lutou aqui e que, de Londres, fez entrevistas para a Veja e trabalhou, por indicação de Vlado, na BBC, poderia escrever um livro sobre o período. “Não tenho o menor sentimento de culpa sobre isso até porque escrevi, lá, um livro clandestino sobre tortura. Ali, faço um pouco de ironia sobre mim, mas uma coisa que é verdade: eu vesti a camisa do jornalismo. Como jornalista, eu era muito corajoso. Mas se fosse para ir para a luta armada eu já não teria essa coragem”, conta.

A reprimenda do pai tem, no fim das contas, sentido para os dois. “Não vimos o que estava acontecendo e num dos últimos encontros com ela, quando vim ao Brasil a trabalho, ela me advertiu dizendo que eu deveria tomar cuidado porque estavam atrás de mim. Foi perverso porque em vez de eu perceber que ela corria perigo de vida, ela veio me advertir.”

Das reações que mais o surpreenderam, e que estão em Os Visitantes, a de antigos membros da ANL que acreditaram ser verdadeira a carta incluída em K. sobre justiçamentos e o voto de repúdio ao livro discutido na Congregação do Instituto de Química. Vale a leitura do texto sobre a visita do filho do escritor israelense David Grossman, o único que, de fato, bateu à porta do autor.

Bernardo é autor, também, de Você Vai Voltar Para Mim, com contos baseados em depoimentos da Comissão da Verdade. Mas nem só de temas áridos é feita a literatura do jornalista que descobriu a escrita depois de deixar o posto de assessor da Presidência de Lula em seu primeiro mandato e ser obrigado a se aposentar – era professor da USP. Agora, ele quer publicar outra novela e um volume com contos sobre temas que vão de erotismo a paternidade, de judaísmo a política. “Escrever é muito gostoso. E por ter começado tão tarde é como se fosse uma sobrevida”, diz o autor, que faz 79 em outubro.

Leia também: ‘A memória que a sociedade brasileira tem da ditadura militar é difusa’, diz Bernardo Kucinski

OS VISITANTES

Autor: Bernardo Kucinski

Editora: Companhia das Letras (88 págs.; R$ 34,90)

Lançamento e debate: Com Bernardo Kucinski e Ivone Benedetti (autora de ‘Cabo de Guerra’/Boitempo), hoje, 14, 19h30, na Fnac (Praça dos Omaguás, 34)

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