Gabriela Bilo
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Bernardo Carvalho fala de radicalismo, violência e paixão em 'Simpatia pelo Demônio'

Novo livro do escritor tem como protagonista o funcionário de uma agência humanitária designado para pagar o resgate de um refém de um grupo fundamentalista

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2016 | 04h00

Numa canção dos Rolling Stones, Sympathy for the Devil, o próprio demônio se apresenta, revelando que estava presente quando Pôncio Pilatos lavou suas mãos e a família do último czar russo foi dizimada – ou, em 1963, quando Kennedy foi assassinado em Dallas. Qual é, afinal, a natureza de seu jogo? Qual é o seu nome? Respostas a essas duas questões não são, evidentemente, fáceis. No entanto, o escritor Bernardo Carvalho nunca tratou de temas simples em seus livros. O mais recente, o décimo segundo, Simpatia pelo Demônio, não é exceção: trata da natureza do mal, da dissolução do amor e do recrudescimento da violência no mundo contemporâneo.

Detalhe: apesar do título, não é um romance pop. Aliás, o autor esclarece que, a despeito da referência explícita ao título da canção dos Stones, o sentido é outro. Sympathy, que em português pode significar compaixão, piedade, não implica solidariedade, disposição de se colocar no lugar do outro. No romance de Carvalho, é simpatia pelo demônio mesmo. É a história de um homem algo romântico, funcionário de uma agência humanitária em Nova York, que se envolve com gente da pior espécie.

Abyssus abyssus invocat, como diz o Salmo 42. O abismo chama outro abismo, sugerindo que alguém atolado em faltas graves está predisposto a cometer outras ainda piores. O “demônio” que empurra a alma do agente humanitário, envolvido no resgate de um refém de radicais islâmicos, não tem a aparência mefistofélica de um personagem satânico medieval. É um neurocientista mexicano chamado chihuahua (assim com minúsculas), de baixa estatura, hálito deplorável, sexualmente promíscuo e manipulador – o próprio demônio, em suma.

Por essa criatura, fascinada pela teoria mimética de René Girard, o humanista romântico troca uma união estável de 27 anos com sua mulher e entra numa espiral descendente para conhecer o inferno. A vida de Rato, o humanista, diz o personagem, acabou às vésperas dos seus 53 anos, na antessala de um teatro em Berlim. De lá para Adis Abeba, de Nova York para o Rio, a sensação é a mesma, de viver numa permanente zona de conflito. Rato passa a ser dominado por uma força devastadora como a do Fausto de Marlowe, que, ao invocar Mefistófeles na tragédia elisabetana, descobre ser redundante: já se encontra no próprio inferno.

Preparado para conflitos bélicos, Rato é de uma inocência pagã em questões amorosas. O neurocientista mexicano pelo qual é atraído defende uma tese maluca sobre o controle do mal pelo olhar – o mal como influência, assegurando sua associação com a teoria mimética de Girard, segundo o qual estamos todos condenados a imitar o “outro”, inclusive seu desejo. Já o humanista Rato explora em sua tese a ideia de um deus que é pura estratégia, insuflando o sentimento nacionalista e as guerras entre os povos para oferecer a ilusão de se viver num mundo organizado, sob o comando de forças sobrenaturais, como defendem os radicais islâmicos.

A tese de Rato sobre a violência estaria, segundo o narrador, repleta de clichês e tautologias. Já para o autor, a entropia do processo civilizatório passa pela perigosa “infantilização do mundo, pelo narcisismo desenfreado que tem a ver com o mundo virtual, com o Facebook”. Numa passagem do livro, Rato tenta entender como a violência absoluta, religiosa, exerce atração sobre jovens ocidentais que se dispõem a abandonar a vida no Ocidente para degolar e trucidar pessoas a milhares de quilômetros, abraçando uma cultura que mal conhecem.

Não por acaso, a uma certa altura do livro, Rato manda de presente para chihuahua uma edição de Bataille em alemão, após ler um artigo que compara a transgressão do escritor francês à profanação no mundo contemporâneo, que expurgou o sagrado. Dessa digressão que passa por Sade – a associação entre erotismo e morte – e até Chekhov – a torturante relação entre o deprimido Ivanov e sua mulher tuberculosa – Carvalho conclui, como Proust, que o forte, “o elemento desafiador, é aparentemente o fraco”.

O escritor, defensor de uma sociedade laica, acredita que a “violência está ligada ao desejo”, mais exatamente ao bloqueio do desejo, “que leva terroristas a matar gente em Paris”. A ideia de pertencimento, tão em voga nos dias que correm, atinge particularmente os nacionalistas. Para quem, como Carvalho, escreveu livros ambientados fora do Brasil, “nacionalismo é uma cegueira” e a ideia de nação, completamente artificial. “Sou brasileiro, escrevo em português, que é uma língua desprezada como se fosse um patuá, mas tenho de questionar as origens, confrontar outras culturas, não como um antropólogo, mas para alucinar.”

Como a função da literatura difere da antropologia, invenção do renascimento alemão para estudar normas e valores sociais, o autor, bisneto do marechal Rondon, se permite brincar com o nonsense da civilização branca ao inventar uma tribo que nunca existiu no Brasil, a dos araxenos, que descobrem na guerra uma forma de resistir ao antípoda e prolongar a vida, para alimentar a tese algo capenga de Rato sobre a violência.

Não é, porém, uma brincadeira perversa. Antes, trata-se de uma alegoria do narcisismo coletivo que alimenta a paranoia contemporânea. “A experiência do mundo depende do poder de se renovar”, conclui Bernardo Carvalho, que define Simpatia pelo Demônio como uma obra literária da meia-idade, marcada pelo questionamento, a contaminação da linguagem e o desejo de fazer da literatura, segundo ele, “o lugar da liberdade absoluta, um espaço sagrado”. 

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