Reprodução de tela/Site da Feira do Livro de Frankfurt
Reprodução de tela/Site da Feira do Livro de Frankfurt

Bernardine Evaristo: 'Precisamos de todos os tipos de escritores escrevendo vários tipos de livro'

Vencedora do Booker Prize, ela falou sobre diversidade do mercado editorial durante a Feira do Livro de Frankfurt

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2020 | 15h31

Foi preciso que um homem negro morresse pelas mãos de um policial branco para que a revolta contra o racismo explodisse e se transformasse em protestos ao redor do mundo e também para que editores percebessem sua cultura excludente - algo que a escritora britânica Bernardine Evaristo e muitos outros autores e intelectuais vêm tentando chamar a atenção ao longo dos anos. Vencedora do Booker Prize de 2019 com Menina, Mulher, Outras e convidada da Flip 2020, ela destacou este fato durante o painel Repensando a diversidade no mercado editorial, da Feira do Livro de Frankfurt, nesta quarta-feira, 14.

“Os tempos estão mudando”, disse ela referindo-se ao movimento que se seguiu ao assassinato de George Floyd. “Os editores descobriram que 95% de sua força de trabalho é branca, excluindo os faxineiros e cozinheiros, e que poucos livros de seus catálogos foram escritos por negros e asiáticos. E viram que precisavam fazer alguma coisa”, completou. Eles começaram a olhar para seus procedimentos, seus funcionários e sua cultura e fizeram promessas, que ela espera ver concretizadas nos nos próximos anos.

Para Bernardine Evaristo, o primeiro passo para a mudança é ter pessoas de todos os grupos e comunidades trabalhando no mercado editorial. São essas pessoas, ela diz, que vão olhar para além dos clichês e dos estereótipos e abrir espaço para novas vozes.

“Diversidade na edição significa abraçar a pluralidade da humanidade em vez de excluir a maioria, especialmente as pessoas que formam a maioria parda do planeta. É algo a ser celebrado e bem-vindo, e não para se resistir.”

A escritora publicou seu primeiro livro em 1994. Até dividir o Booker com Margaret Atwood no ano passado, sua obra tinha ganhado apenas quatro traduções. Menina, Mulher, Outras, o oitavo e premiado título, está sendo traduzido para 35 línguas (a edição brasileira está chegando às livrarias pela Companhia das Letras) e ficou no topo dos mais vendidos do Reino Unido. O Booker e o boca a boca em torno de sua obra mostraram, em sua opinião, que todos os tipos de literatura e de vozes podem ser viáveis comercialmente. Portanto, existe um argumento econômico para se publicar uma gama mais ampla de vozes . “Não se trata de encarar a diversidade como caridade. Os leitores não querem apenas ler sobre eles”, disse.

“Precisamos de todos os tipos de escritores escrevendo todos os tipos de livros para todos os tipos de leitores e em todos os gêneros: drama, terror, policial, thriller, romance, fantasia, memórias, história social etc. E a ficção é um gerador de empatia. Com ela você pode se colocar no lugar de pessoas que são muito diferentes de você e ver a vida a partir da perspectiva delas, de seus contextos e experiências. Excluindo a maioria global parda da ficção, estamos realmente perdendo a oportunidade de criar, creio eu, uma sociedade mais igualitária."

Os debates da Feira do Livro de Frankfurt estão sendo transmitidos pela internet. 

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