Ben Lerner, no Metropolitam Museum of Art, em Nova York, em agosto de 2014. Foto: Jake Naughton/The New York Times
Ben Lerner, no Metropolitam Museum of Art, em Nova York, em agosto de 2014. Foto: Jake Naughton/The New York Times

Ben Lerner justifica sucesso internacional com dois lançamentos no Brasil

Escritor americano lança no País uma reunião de poemas e o romance 'Estação Atocha', sensível retrato de um poeta bolsista flanando por Madri

Entrevista com

Ben Lerner

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2015 | 07h00

Ele até brincou numa entrevista recente ao jornal inglês The Guardian: “as pessoas dizem: ‘olha, mais um romance de um cara de óculos do Brooklyn’”. Mas a verdade é que Estação Atocha, o primeiro romance de Ben Lerner, publicado originalmente em 2011, faz parte da instigante série de livros de literatura estrangeira que a editora Rádio Londres vem injetando no mercado editorial brasileiro desde janeiro. Ele também lança no Brasil, em setembro, Ângulo de Guinada, pela e-galáxia, reunião de poemas finalista do National Book Award em 2006.

Lerner – poeta filho de pais acadêmicos do meio-oeste norte-americano – guarda características semelhantes com Adam Gordon, protagonista de Estação Atocha: ambos são poetas, nascidos em Topeka (cidade do Kansas), e ambos passaram um ano em Madri, agraciados com uma bolsa de pesquisa. Aí é bom começar a separar: Gordon mistura frustração em relação à arte com um impulso contínuo ao prazer para narrar as etapas do seu (falso?) projeto, que consiste em pesquisar literatura espanhola sobre a Guerra Civil dos anos 1930 – e consumir boa parte do haxixe e do café disponíveis na Espanha. 

Durante o ano em que o personagem se move pelas estreitas ruas de Madri – ano dos atentados terroristas cujo cenário principal foi a Estação Atocha – o leitor fica exposto a uma narrativa densa que parece flutuar um centímetro acima da página, tocando em temas tão distintos quanto maternidade, o uso e o funcionamento da poesia e a violência brutal de tudo. Sobre essas questões, Ben Lerner respondeu, de Nova York, a algumas perguntas do Estado por e-mail.

Uma passagem comovente do livro ocorre quando Adam começa a imaginar o “total triunfo do real” sobre a arte, sobre a poesia, e diz que num mundo como esse engoliria uma cartela inteira de comprimidos brancos. Quão próximo você acha que o total triunfo do real está?

O antropólogo e anarquista David Graeber constrói o interessante ponto que enquanto o neoliberalismo tem sido um total fracasso economicamente (para todos exceto os extremamente ricos) ele é um triunfo ideológico (porque aparentemente nós não podemos imaginar uma alternativa para nosso modo de vida atual). O que está triunfando nesse momento para muitas pessoas é a ideia de que a nossa organização insana de forças sob o capitalismo é a única opção. Nós sentimos isso mesmo sentindo que ela é totalmente insustentável. Então acho que nós estamos em um estranho momento em que tanto vemos as falhas no nosso modo de vida quanto sentimos nossa incapacidade de imaginar alternativas viáveis. Isso é realmente o tema do meu segundo romance (10:04, ainda não publicado por aqui) – tentar sentir que outros mundos são possíveis nas fendas deste. Adam Gordon ainda não chegou lá, mas essa passagem, embora seja dita de maneira negativa, é também idealista – é a crença de que a função da arte é manter viva a possibilidade de imaginar outra coisa que não o status quo.

Outro assunto de interesse para Adam são as drogas. Esse interesse pode ser associado com o fato de que o personagem continuamente contempla a experiência da própria experiência. De onde vem isso, essa corda bamba em que Adam vive, esse contínuo auto questionamento?

As pílulas são outro meio, outro jeito que faz Adam imaginar se sua experiência é real. Nesse sentido, são como a literatura: a leitura intensifica nossa experiência do presente ou nos rouba tempo? Nós dizemos coisas contraditórias sobre drogas de todos os tipos: nós dizemos sobre a mesma droga que ela nos muda ou ajuda-nos a acessar nosso verdadeiro ‘eu’; nós dizemos que ela nos deixa mais perto do real ou o oblitera, etc. Então isso é parte do interesse dele nas drogas. Eu anotaria que a ansiedade de Adam sobre a autenticidade de sua própria experiência é um tema clássico do romance, mesmo que seja um tema intensamente contemporâneo. Stendhal faz seus personagens andaram em volta de Waterloo imaginando “eu realmente estive numa batalha, eu realmente tenho uma participação na História?”. Dom Quixote não consegue separar realidade e ficção. Nem Bovary. Etc.

Os pais são um tema importante do romance, e a sua mãe na vida real é uma conceituada psicóloga feminista, certo? Como o seu relacionamento com esse lado dela influencia a sua escrita?

Ela e eu somos muito próximos e estou certo de que o seu brilho sobre sistemas familiares influenciaram meu pensamento da dinâmica da literatura assim como meu pensamento sobre relacionamentos fora da página. Certamente muito da minha política começa com ela. Você está certo que pais são um tema importante do romance (e também de 10:04), mas poucas pessoas falaram sobre isso. Adam Gordon está a uma certa extensão testando – embora desonestamente, por meio da ficção – realidade inevitáveis que ele não pode realmente imaginar, como, por exemplo, a morte de sua mãe.

A resenha do ‘The New York Times’ menciona ‘O Sol Também se Levanta’, e estabelece uma interessante comparação do que os livros dizem sobre os EUA. Esse trabalho em particular de Hemingway estava na sua mente quando você escreveu ‘Atocha’?

Eu estava ciente de como a Espanha tinha figurado em vários romances e certamente no trabalho de Hemingway – mas eu estava mais interessado na sua estranha (e frequentemente ridicularizada) tentativa de representar a gramática espanhola em Por Quem os Sinos Dobram. Acho que Adam Gordon é um tipo de inversão do machismo de Hemingway.

Por que você decidiu escrever seu primeiro romance num cenário que não os EUA? 

Eu não sei – eu não acho que decidi. Quis escrever uma versão bem contemporânea do romance de “americano no estrangeiro” na era da “guerra global ao terror” e pensar sobre como alguém compõe tal romance dadas as novas realidades no espaço global. Quão no exterior você está quando há uma Starbucks a cada quinze metros e você vê as notícias no cyberespaço? Quando mesmo o desastre local é parte do resultado do imperialismo militarista americano? Mas eu também quis meditar sobre tradução, etc. Aquele ano na Espanha se tornou o local certo para as minhas preocupações, mas não foi uma decisão que as antecedeu.

Você também escreve sobre artes visuais. Como a aproximação entre literatura e artes plásticas funciona para você?

Eu escrevo muito sobre outras artes – na ficção e fora dela. Eu diria que o que eu amo no romance é como ele pode absorver e comentar outros gêneros. Um romance é um grande lugar para descrever o que é encontrar uma pintura ou um poema. Um romance é muito curatorial nesse sentido – é um trabalho de arte que te permite dramatizar encontros com outros trabalhos de arte. Mas há uma antiga relação entre literatura e artes visuais – uma tradição ecfrástica – na qual trabalhos de artes visuais são descritos em linguagem. Eu quero não só descrever outros trabalhos artísticos mas descrever como eles se transformam em lugares de caracterização. Como um personagem encontra um trabalho de arte pode revelar muito sobre o primeiro e não só sobre o segundo. E revelar muito sobre o momento histórico em que o encontro acontece.

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PARA LEMBRAR

Atentando fez 191 vítimas

Pelo menos 191 pessoas morreram nos atentados terroristas de 2004 em Madri. Bombas explodiram em três lugares diferentes, mas principalmente em trens que chegavam à Estação Atocha (a principal da cidade), no horário de pico da manhã. Inicialmente atribuído ao grupo separatista ETA, o atentado foi reivindicado pela Al Qaeda. Mais de 1400 pessoas ficaram feridas.

ESTAÇÃO ATOCHA

Autor: Ben Lerner

Tradutor: Gianluca Giurlando

Editora: Rádio Londres (224 págs., R$35,50)

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