Beatriz Sarlo, a maior crítica da Argentina, fala do ocaso de Buenos Aires

Beatriz Sarlo, a maior crítica da Argentina, fala do ocaso de Buenos Aires

Chamada de Paris, cidade se conforma com o perfil suburbano

Entrevista com

Beatriz Sarlo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2014 | 03h00

Crítica literária mais respeitada da Argentina, Beatriz Sarlo, em seu livro A Cidade Vista, faz por Buenos Aires o que Walter Benjamin fez por Paris ao escrever sobre as transformações da cidade francesa nos tempos do barão Haussmann. Se Benjamin, em Passagens, analisa o impacto da reforma urbanística de Haussmann, Beatriz Sarlo, em A Cidade Vista - Mercadorias e Cultura Urbana, mostra o ocaso urbanístico de Buenos Aires, chamada no passado de a Paris sul-americana - o que não faz o mínimo sentido, diz ela, ao lembrar que, hoje, ela é a cidade dos pobres e dos migrantes.

Beatriz Sarlo concedeu uma entrevista por telefone ao Caderno 2. Nela, a ensaísta fala da influência de Benjamin e Barthes, do crescimento desordenado de Buenos Aires e dos movimentos de migração que estão alterando o perfil da cidade.



A senhora já disse que a origem de A Cidade Vista está na errância. Isso me faz lembrar o clássico de Walter Benjamin sobre Paris, Passagens, que elege a figura do flâneur para descrever as transformações urbanísticas da cidade na época do barão Haussmann. Como Benjamin influenciou sua obra?

Benjamin e Barthes foram dois escritores que marcaram minha formação. Era ainda jovem quando li Mitologias, de Barthes. Ele foi o primeiro a olhar com atenção para as coisas cotidianas, escrevendo tanto sobre a receita da cozinha da Elle como sobre atores de filmes de gladiadores. São influências profundas e permanentes. O olhar de Benjamin sobre a produção do meio urbano está no cerne do primeiro capítulo de meu livro, que descreve como a circulação de mercadorias define o uso da cidade e produz inovações no espaço público.

Seu livro é fruto de suas andanças por Buenos Aires para escrever sua coluna dominical na revista Viva. Como a senhora classificaria esse olhar: uma crônica urbana ou ensaio intelectual?

Minha coluna na Viva não era lida por nenhum dos meus amigos intelectuais. Era uma situação paradoxal. Sentia-me extremamente livre por um lado e, por outro, presa a um compromisso. Nem todas as colunas eram sobre a cidade - digamos que só 25% dos textos falavam de Buenos Aires, que passou por vários processos de transformação desde que eu era jovem. Fiz esses passeios para recolher material num momento de crescimento acelerado, em que eram notáveis as consequências da crise dos anos 1990. Buenos Aires começa, enfim, a se parecer com uma cidade latino-americana depois dessa época, quando a pobreza se instala. Esse quadro provocou em mim um choque, digamos, benjaminiano.

Como compara a Buenos Aires contemporânea com a cidade que conheceu na juventude?

Nos anos 1960, Buenos Aires não era uma megacidade. Era de tamanho médio e com aparência europeia. Mas não era Paris, uma comparação um tanto absurda. No máximo, lembrava Madri, mas já estava rodeada por um cinturão de bairros pobres, embora seus habitantes adultos a percebessem como uma cidade segura. A deterioração da segurança urbana se acentuou, apesar de a cidade não ter crescido tanto assim. Não é uma megalópole como São Paulo. De todo modo, na Grande Buenos Aires, a violência é um dado inegável e há também o crescimento das migrações. Na cidade onde nasci, há mensagens públicas que não entendo, escritas em outras línguas (como o coreano).

Buenos Aires enfrenta hoje um problema semelhante ao de São Paulo, o dos imigrantes clandestinos e escravizados por outros estrangeiros. Como a senhora vê essa questão?

São Paulo e Buenos Aires sempre tiveram uma migração forte, e não só portuguesa ou espanhola. Buenos Aires é uma cidade de estrangeiros, formada por imigrantes desde o século 19. Antes eram os europeus e asiáticos; hoje são os bolivianos e paraguaios. No começo do século 20, eles se integravam à cidade, mas, na segunda onda de imigração, nos anos 1930, os problemas urbanos começam a se agravar com as chamadas ‘villa miseria’ dentro da cidade, que se expandem nos anos 1950. Na terceira onda, migrantes da segunda geração sofrem mais discriminação que os coreanos, os polacos de hoje. Eles já chegam com algum dinheiro e certa escolaridade, colocando seus filhos em boas escolas. Em Buenos Aires, como em São Paulo, eles exploram igualmente os bolivianos, mas eu diria que também há bolivianos escravizando outros bolivianos.

A senhora cita Pasolini ao falar do subúrbio de Buenos Aires. Entre outras coisas, ele apontou o cheiro do ferro deteriorado, da ferrugem, como o odor típico dessas vilas miseráveis e disse ainda que a ânsia de consumir do jovem suburbano se equivale à ânsia de ser consumido. Entre as formas de consumo que a senhora apresenta em A Cidade Vista, especialmente o shopping center, alguma delas pode forjar uma nova comunidade?

Não creio. O que a marca, a grife, faz é destroçar a comunidade. A ideia da diferença no meio urbano é uma das causas da criminalidade, da insegurança. O garoto pobre quer um tênis de marca igual ao do garoto classe média, não se contenta com outro. Assim, o shopping não fortalece, mas destrói os laços da comunidade. Por outro lado, os ambulantes necessitam da solidariedade para sobreviver. Explorados por capitalistas, donos das mercadorias contrabandeadas que vendem, eles se concentram justamente no lugar de chegada dos pobres, nas estações ferroviárias, para se proteger.

A senhora evita falar num tom nostálgico quando se refere ao passado mítico de Buenos Aires. Como o escritor Robert Arlt, que gostava de arranha-céus e era avesso à nostalgia, a senhora não se incomoda com a descaracterização de Buenos Aires?

A tecnologia é como um ácido que cai sobre uma flor. A mim me interessam as paisagens distópicas, particularmente o impacto que a tecnologia tem sobre o meio urbano. Meu livro não tem nada de nostálgico. Não há nada a reconstruir.

A cidade em busca de sua identidade é o tema da ensaísta

Dividido em cinco capítulos, A Cidade Vista se ocupa tanto dos shoppings como dos ambulantes de Buenos Aires, para analisar a “cidade das mercadorias” que, naturalmente, tem seus marginais. O segundo capítulo, aliás, se ocupa deles. Durante quatro anos, a escritora Beatriz Sarlo percorreu a cidade com uma caderneta e câmera digital, tirando centenas de fotos. Concluiu que a capital portenha sempre foi uma cidade de estrangeiros, de imigrantes vindos da Europa, da Ásia e, hoje, de países vizinhos como a Bolívia e o Paraguai. A eles é dedicado o terceiro capítulo, em que analisa o caráter polifônico e poligráfico da Buenos Aires do século 21.

No quarto capítulo, a professora de literatura exercita seu lado crítico, buscando nas representações da cidade (fotos, pinturas) o que os artistas descobriram dela. No último capítulo, analisa imagens como as de Facundo de Zuviría (autor das fotos desta página) para descobrir qual é, afinal, a identidade que Buenos Aires diz ser a sua.

A Cidade Vista - Mercadorias e Cultura Urbana.

Tradução:Monica Stahel.

Editora: WMF Martins Fontes (240 págs.,R$ 39,90)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.