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Baseado em fatos reais, delicado romance aborda o rapto de mulheres no México

Em 'Reze Pelas Mulheres Roubadas', Ladydi mostra que para viver longe dos olhos dos traficantes é preciso, desde pequena, ser feia

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2015 | 03h00

Assim como tantas outras meninas da região rural do estado mexicano de Guerrero, Ladydi nasceu menino. “Graças a Deus nasceu um menino”, repetia a mãe a vizinhos. Seu cabelo era mantido curto, os dentes eram pintados de preto. “A melhor coisa que você pode fazer no México é ser uma menina feia”, a garota ouviu aos cinco anos da mãe – uma mulher abandonada pelo marido, solitária, alcoólatra, mas extremamente forte e protetora. Era assim com ela, e com todos os outros meninos que se transformavam em menina por volta dos 11 anos. Era assim por sobrevivência.

Ladydi é a narradora de Reze Pelas Mulheres Roubadas, de Jennifer Clement – que nos leva ao universo dessas meninas criadas como meninos, que se escondem em buracos cavados no quintal, ou entre a geladeira e a parede falsa, ao menor sinal de que uma caminhonete preta com homens armados se aproxima. Ninguém quer ser levada, transformada em escrava sexual de traficante. Mas Paula, a vizinha linda, é. Como na vida real. 

“Roubos de mulheres existem desde sempre. Até na Revolução Mexicana elas se escondiam em buracos para não serem levadas ou estupradas. Os números estão aumentando por causa do tráfico de drogas”, explica a autora. Nascida no México em 1960, filha de pais americanos e mãe de um menino e de uma menina, ela falou ao Caderno 2 sobre sua brutal história de amor, resiliência e solidariedade, escrita com graça e humor, e que se passa entre a montanha e suas plantações de milho, maconha e papoula, a turística Acapulco e um presídio – para onde Ladydi vai depois de uma reviravolta no enredo.

Por que contar essa história?

Antes de tudo, me interessam a linguagem e a forma, a estrutura do enredo, o personagem e a voz. Também estou sempre procurando por experiência poética e pensando em como o divino coexiste com o profano, a beleza com a feiura. Eu queria que o romance tivesse um encantamento. No livro, muitas das imagens fortes são reais. As cenas iniciais, de enfear as meninas e do esconderijo em buracos, chegaram para mim por alguém que conheci na Cidade do México. Ela me contou sobre o sequestro de mulheres em sua terra, Guerrero. Eu não consegui dormir aquela noite. E foi assim que nasceu esse romance. A voz de Ladydi me apareceu e me segurou firme. Ela é feia e frágil, nada sentimental ou julgadora.

Como foi a pesquisa?

Por mais de dez anos, conversei com mulheres afetadas pela violência mexicana porque eu queria escrever sobre mulheres dentro do narcotráfico. Era um passo lógico, já que eu tinha acabado de escrever A True Story Based on Lies, sobre maus-tratos a trabalhadores. Entrevistei namoradas, mulheres e filhas de traficantes e logo percebi que o país é uma toca de mulheres escondidas. Elas se escondem em lugares que se parecem com mercearias por fora, mas que são verdadeiros esconderijos, no porão de conventos, em hotéis alugados pelo governo dentro do surreal conceito de proteção à testemunha. No México rural, as famílias pobres usam os buracos. Fui ao presídio feminino Santa Marta. Vi vidas cruéis e afetuosas. Vi desenhos de conchas, areias e peixe feitos por uma senhora de 70 anos que vendia tacos na praia antes de ser obrigada a levar drogas para os Estados Unidos. Ela me disse que roubava saleiros na prisão e passava na pele para não se esquecer do mar. E por anos ouvi e li coisas do tipo: hoje ela faria 16 anos, ela nunca ligou, se eu for à polícia, vão rir de mim. Uma mulher pode ser vendida várias vezes por dia e para diferentes donos enquanto um saco plástico com droga só é vendido uma vez.

O que ouviu de mais absurdo?

Uma mãe que teve a filha raptada falou: ‘Eu disse para ela não usar batom’.

E o que foi mais tocante?

Ver que presas recebem menos visita do que presos.

Fala-se sobre isso no México ou é uma ameaça silenciosa?

A cobertura é pequena. O efeito da violência nas mulheres deve ser mais discutido.

O caso dos 43 estudantes sequestrados em Guerrero foi amplamente divulgado, ao contrário da história das meninas. Por que o tratamento diferente? O fato desse desaparecimento ter alcançado os noticiários internacionais é indício de que nada mais pode ser escondido por muito tempo?

Publicidade gera pressão e isso é bom. A divulgação envergonha o governo mexicano e vergonha é uma grande força de mudança. Eu penso que é mais fácil para o mundo focar num único evento do que num problema constante. De forma geral, no México, o governo não se interessa pela condição da mulher. Isso acontece ainda hoje em muitos outros países também: elas simplesmente não são importantes. Se dermos valor ao que está sendo roubado, as coisas podem mudar. Seria uma afronta se carros estivessem sendo roubados.

Por que optou pela ficção?

Porque a voz de Ladydi Garcia Martinez apareceu para mim como uma visita. Eu tinha que deixá-la falar. Minha esperança é que tanto a dor quanto o humor corajoso da minha protagonista sejam ouvidos – não porque esta é uma voz para a qual os noticiários e o governo não têm tempo, mas porque ela representa uma história sobre o sofrimento diário de milhares de garotas raptadas e de experiências de famílias ao redor do mundo.

Como escritora, sente que tem uma missão? A literatura pode melhorar o mundo?

A ficção tem um certo poder que o jornalismo não tem. Ela pode dar voz a pessoas silenciosas ou silenciadas. E acredito que a literatura pode mudar o mundo. Oliver Twist, por exemplo, mudou as leis sobre o trabalho infantil. Em muitos casos, romances me modificaram mais do que experiências que vivi.

Foi ameaçada durante o processo de pesquisa e escrita?

Alguns incidentes ocorreram quando eu fui presidente do PEN México e abordei questões como o assassinato e desaparecimento de jornalistas.

Alguma vez sentiu medo de viver no país?

Não é seguro ser um jornalista no México, então não há liberdade ou segurança. Sem uma imprensa livre não pode haver democracia. Há áreas no país onde ninguém mais pode ir.

Como é criar uma filha nessas circunstâncias?

É amedrontador para todas as mães e eu também escrevo a partir do ponto de vista de ser uma mãe nessa terra. No México moderno, ainda há estados em que a punição por roubar uma vaca é mais severa do que por raptar uma mulher.

Reze Pelas Mulheres Roubadas

Autora: Jennifer Clement

Tradução: Léa Viveiros de Castro

Editora: Rocco (240 págs., R$ 39,50; R$ 25,50 o e-book) 

Confira trecho inicial da obra

"Agora vamos deixar você feia, minha mãe disse. E assobiou. Sua boca estava tão próxima que ela cuspiu perdigotos em meu pescoço. Senti cheiro de cerveja. No espelho, eu a vi passar o pedaço de carvão em meu rosto. É uma vida sórdida, murmurou.

Esta é minha primeira lembrança. Ela segurou um velho espelho rachado em frente ao meu rosto. Eu devia ter uns cinco anos. A rachadura fazia parecer que meu rosto havia sido partido em dois pedaços. A melhor coisa que você pode fazer no México é ser uma menina feia.

Meu nome é Ladydi Garcia Martínez e tenho pele marrom, olhos marrons, cabelo marrom e crespo e pareço com todo mundo que conheço. Quando que era pequena, minha mãe me vestia de menino e me chamava de Menino.

Contei a todo mundo que tive um menino, ela disse. 

Se eu fosse uma menina, eu seria roubada. Se os traficantes de drogas ficassem sabendo que havia uma menina bonita por perto, eles invadiriam nossas terras em Escalades e a levariam.

Na televisão, eu via meninas se enfeitando, penteando os cabelos e fazendo tranças com laços cor-de-rosa ou usando maquiagem, mas isso nunca aconteceu na minha casa.

Talvez eu tenha que quebrar os seus dentes, minha mãe disse. 

Quando cresci, passei a esfregar um lápis marcador preto ou amarelo nos dentes para que parecessem podres.

Não há nada mais nojento do que uma boca suja, mamãe dizia.

Foi a mãe de Paula quem teve a ideia de cavar os buracos."

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