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Autores discutem o envolvimento de Martin Heidegger com a ideologia nazista

Emmanuel Faye e Peter Trawny dão enfoques diferentes para o tema

André de Leones, ESPECIAL PARA O ESTADO

29 de abril de 2016 | 17h58

Martin Heidegger é um dos grandes filósofos da história. Influenciou Arendt, Jaspers, Gadamer, Sartre. Mas há nódoas em sua biografia: afiliou-se ao Partido Nazista em 1933, sob o qual foi reitor da Universidade de Freiburg até 1934. A recente divulgação de seus Cadernos Negros, em que há apontamentos antissemitas, incendiou ainda mais o debate. Dois livros discutem até que ponto tais fatos mancham seu pensamento: Heidegger – A Introdução do Nazismo na Filosofia (É Realizações; 608 págs.; R$ 199,90), de Emmanuel Faye, professor na Universidade de Rouen, e Heidegger e o Mito da Conspiração Judaica Mundial (Mauad, 148 págs.; R$ 49,90), de Peter Trawny, da Universidade de Wuppertal.

Faye enfileira cartas, discursos, notas e testemunhos que reiteram a ligação do filósofo com o regime, mas tropeça na histeria de enxergar todo o pensamento heideggeriano como nazista. A leitura de passagens de Ser e Tempo (1927) como precursoras da ideologia hitlerista é forçada e até desonesta – ainda que o próprio Heidegger (como no célebre Discurso de Reitorado) tenha corrompido suas ideias para se adequar ao status quo.

O sensacionalismo de Faye salta aos olhos ao analisar o seminário de Heidegger que seria mais explicitamente nazista, Hegel, ou sobre o Estado (1934-5), que asseguraria “a perenidade do hitlerismo e de sua dominação ditatorial e destrutiva sobre os espíritos”. Mas, desse seminário, só restam anotações de dois alunos. Ou seja, Faye faz a diatribe sem contar com fontes primárias.

Bem mais cuidadoso, Trawny evita pirotecnias e simplificações. Para ele, o antissemitismo é um dado (indesculpável, mas secundário) da reflexão “onto-historial” de Heidegger, mas não seu vetor diabólico. Ele pergunta: “Será que todos os caminhos do antissemitismo levam a Auschwitz?”. E responde: “As declarações de Heidegger sobre os judeus não podem ser conectadas com Auschwitz”. Ao ler os Cadernos Negros, ele os contextualiza, distinguindo-os do “Nacional-Socialismo realmente existente”, mas – o que é importantíssimo – sem eximi-los da “história da dor da Shoah”.

Heidegger, é fato, coloca problemas espinhosos, daí ser imprescindível que se discuta o que há nele de obscuro e até que ponto foi contaminado pelo antissemitismo. Mas é inaceitável, como Faye, exigir que ele seja defenestrado do panteão dos filósofos e tratado como um ideólogo nazista. Conforme diz Trawny, há “inimigos da filosofia que com prazer haveriam de impedir o efeito do pensamento de Heidegger – uma tentativa inútil de antemão, pois se está a lembrar que devemos esquecer Heidegger, o que é uma contradição”.

* ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DE ABAIXO DO PARAÍSO (ROCCO)

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