Editora Planeta
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Autora se debruça sobre período em que Agatha Christie desapareceu

Marie Benedict conta ao ‘Estadão’ sobre sua pesquisa para o livro que aborda os 11 dias de sumiço da dama do romance policial

Matheus Mans, Especial para o Estadão

11 de janeiro de 2022 | 05h00

Autora de livros como O Assassinato no Expresso Oriente e E Não Sobrou Nenhum, Agatha Christie também viveu sua própria história de suspense. Lá pelos idos de 1920, a escritora simplesmente desapareceu. Investigadores encontraram seu carro vazio com um casaco de Agatha dentro. Marido e filha não sabiam do paradeiro. Assim, depois de muita investigação da Scotland Yard, ela reapareceu 11 dias depois. Não se lembrava de nada.

E é justamente essa falha na memória de Agatha que motivou a escrita do livro O Mistério de Agatha Christie, obra da autora norte-americana Marie Benedict publicada no Brasil pela Editora Planeta. Para isso, Benedict segue o mesmo caminho que adotou em seus outros livros, como A Única Mulher e Senhora Einstein: misturar a história real das “biografadas”, como relações familiares e comportamento, com a ficção como ferramenta para completar vazios.

É uma forma interessante de especular sobre alguns grandes nomes da História, como Hedy Lamarr (A Única Mulher) ou Mileva “Mitza” Maric Einstein (Senhora Einstein).

“Tudo começou com meu amor pelos mistérios de Agatha Christie, paixão desde meus anos de escola secundária”, conta Marie ao Estadão. “À medida que envelheci, comecei a me perguntar como ela se ergueu contra as expectativas da sociedade de sua época – que as mulheres deveriam permanecer focadas no lar, que as mulheres não deveriam ter ambições – para se tornar uma lenda. Depois de me aprofundar um pouco mais em sua vida e aprender sobre seu desaparecimento, fiquei fascinada com a noção de que a resolução desse mistério pode nos ajudar a entender como ela se transformou em Agatha Christie.”

 Como em seus outros livros, Marie Benedict começou o processo de escrita da obra com uma pesquisa aprofundada sobre sua “biografada”. Isso lhe deu a segurança necessária para criar a história em cima, ficcionalizando esse período em que Agatha Christie passou desaparecida. Afinal, é a partir de uma base muito segura da personalidade da escritora que é possível traçar possibilidades e paralelos que cheguem até o conteúdo dos 11 dias.

No entanto, a pesquisa inicial também foi importante para convencer a escritora de que essa era uma história que deveria ser contada. Quem lê os outros livros de Benedict, afinal, logo vê que há uma coesão em contar apenas histórias de mulheres menos conhecidas, como Hedy Lamarr ou Mileva “Mitza” Maric Einstein. Marie Benedict, assim, joga luz nessas vidas, histórias e personalidades. Não é o caso de Agatha Christie, best-seller absoluto.

“O fato de Agatha ser tão conhecida e bem-sucedida quase me impediu de escrever O Mistério de Agatha Christie. Me perguntei se não deveria me concentrar em uma mulher desconhecida que deixou para trás contribuições importantes das quais nos beneficiamos”, diz. “Mas, à medida que investigava o desaparecimento em 1926, comecei a acreditar que seu sumiço teve um papel central em sua ascensão como escritora e queria descobrir como ela se tornou uma pessoa que deixaria um legado tão surpreendente.”

Além disso, conta Marie Benedict, há um momento dentro do estudo feito por ela que se tornou uma chave, um ponto de virada. “A pesquisa forneceu a arquitetura para a história. Enquanto isso, a imaginação é uma extrapolação lógica dos fatos, preenchendo lacunas. Havia uma diferença distinta, no entanto. Agatha publicou sua biografia, o que normalmente é motivo de comemoração em minhas pesquisas”, explica a escritora ao Estadão. “Embora tenha fornecido detalhes sobre sua educação e seus primeiros escritos, essa autobiografia não diz nada sobre o desaparecimento, o que tomei como um convite.”

Ao longo da pesquisa e escrita do livro, Marie Benedict também vai colocando sabor e tempero na forma de falar sobre Agatha Christie. A escrita não é dura; é vigorosa e mostra que houve cuidado em entender quem era aquela personagem da História. Do lado do leitor, esses pequenos detalhes não só mostram o esmero com a escrita, como também dão direcionamento. Para Benedict, houve também muita descoberta nesse processo.

“Agatha sempre me surpreendia”, conta a escritora. “A Agatha que pensamos conhecer é muito diferente da Agatha que descobri. Por exemplo, você sabia que ela foi uma das primeiras europeias a aprender a surfar? Tive que incluir esse pequeno fato no livro, embora não fosse crucial para a história. Em termos de detalhes surpreendentes do desaparecimento, acho que a forma magistral de seu sumiço me surpreendeu.”

Agora, depois de mergulhar na vida e, especialmente, nesses 11 dias da rotina de Agatha Christie, Benedict já está de olho na vida de outras mulheres. “Estou trabalhando em muitos romances, mas meu próximo lançamento será Her Hidden Genius”, adianta. “Conta a história da brilhante cientista britânica Rosalind Franklin e o livro se concentra em sua revelação revolucionária da estrutura do DNA e a maneira dramática que sua pesquisa foi usada, sem seu conhecimento, pelos agora famosos James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins. Eles ganharam um Nobel pelo trabalho de cristalografia de raios X, cujas contribuições são em grande parte desconhecidas

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