Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Autor Pedro Bandeira aponta as distintas versões do Jeca Tatu de Lobato

Monteiro Lobato chegou a responsabilizar a preguiça do caboclo pela ruína de sua fazenda, mais tarde concluiu que a indolência do Jeca se devia ao seu sofrível estado de saúde

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2019 | 03h00

O escritor e jornalista Euclides da Cunha é apontado como um dos autores que influenciaram o pensamento de Monteiro Lobato. O autor Pedro Bandeira, no entanto, discorda. “Euclides foi um pai da sociologia brasileira, ao verificar in loco a verdadeira situação de abandono do nosso sertanejo e seria de se esperar que seu diagnóstico social se tornasse regra e que Lobato o refletisse ao analisar o caboclo do Vale do Paraíba”, comenta o escritor. “Mas qual! Nas páginas do Estado, menos de duas décadas depois de Os Sertões, Lobato publica as violentas crônicas Urupês e A Velha Praga, responsabilizando a preguiça do caboclo pela ruína de sua Fazenda Cambuquira, que ele havia herdado e levado à falência.”

Bandeira acredita que Monteiro Lobato não levasse em consideração a Lei da Terra de 1850, que estabelecia a compra como a única forma de acesso à terra. “Como os escravos, o camponês, agora agregado, fazia o mínimo necessário à sua pobre sobrevivência, sabendo que poderia, de uma hora para outra, ser ‘tocado para fora’ da terra que cultivava. Aí estava desenhada a personagem ‘preguiçosa’ de Jeca Tatu.”

Mas, ao pesquisar a precária situação da saúde no Brasil, “Lobato concluiu que a ‘preguiça’ do Jeca não se devia ao seu mau-caráter, mas a seu sofrível estado de saúde e às doenças endêmicas. Daí o Jeca vira Jeca Tatuzinho e o escritor o protege e aponta caminhos para sua redenção”.

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