Objetiva
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Autor Daniel Pink fala sobre 'Quando', seu novo best-seller

Escritor explica como o dia se divide em três estágios cronobiológicos temporais

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2018 | 06h00

"Compositor de destinos. Tambor de todos os ritmos. Tempo tempo tempo tempo" (Oração ao Tempo, Caetano Veloso)

NOVA YORK - O timing é uma arte, diz um clichê. Não, argumenta Daniel Pink, em seu novo best-seller Quando, Os Segredos Científicos do Timing Perfeito. O tempo é uma ciência multidisciplinar.

Vai fazer uma cirurgia? Marque para as duas da tarde e veja suas chances de ser vítima de um erro médico dispararem. Vai fazer uma reunião para salvar um projeto criativo? Marque para as oito da manhã com seus colaboradores “corujas”, que não funcionam cedo, e corteje o fracasso.

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A ciência do tempo está mais ou menos onde a ciência do sono estava, há 20 anos, diz Daniel Pink, numa entrevista ao Estado. Sabíamos da importância do sono, mas só recentemente associamos o sono à saúde e à produtividade no trabalho. No caso do tempo, é um pouco mais complicado. O sistema produtivo é baseado em rígidas jornadas de trabalho.

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Pink explica como o dia se divide em três estágios cronobiológicos temporais: o pico matinal, uma baixa à tarde e a retomada. Esses estágios se aplicam a 75%-80% da população. Ou seja, a maioria das pessoas fica mais alerta e produtiva de manhã. Passa por um período de letargia à tarde, seguido de uma recuperação no começo da noite. O período de recuperação, em que estamos menos alertas, favorece a criatividade, por estarmos mais relaxados. O autor descreve três tipos, cotovias, terceiros pássaros e corujas, e se coloca entre as cotovias, que funcionam bem de manhã cedo e os terceiros pássaros. “Por isso, reservo as manhãs para trabalho mais analítico, quando tenho mais chance de resistir a distrações. E deixo as tardes para trabalho mais repetitivo.”

Ele revela como, ao pesquisar Quando, se tornou solidário à minoria que classifica como corujas. “Eles vivem em desvantagem.” Pink diz que, se fosse o chefe de uma equipe e identificasse corujas, seria o primeiro a valorizar as contribuições que este grupo pode dar mais tarde no dia, quando não está sendo forçado a acomodar sua dificuldade metabólica.

Pink vive em Washington e colocou os filhos numa escola bilíngue internacional. Assim, observou como culturas diferentes lidam com o ciclo do dia, no trabalho e no descanso. “Deve haver um equilíbrio entre o sistema americano e a interrupção de três horas com uma siesta”, diz, em tom brincalhão.

Mas ele leva a sério a importância de mais pausas no dia de trabalho. Não é complacência, é ferramenta de produtividade. Toda jornada de trabalho deveria incluir mais pausas em que a pessoa se desliga e, de preferência, não consulta o celular. 

Depois de examinar pesquisas de psicologia social e antropologia, Pink está convencido de que o equilíbrio entre o trabalho e a pausa ou lazer está intimamente ligado a uma atividade gregária. Recomenda, por exemplo, almoço no trabalho com colegas, mas sem falar de trabalho.

Pink não está certo de que a consciência sobre a importância do timing chegou a um momento crítico, mas acredita que líderes jovens, de indústrias inovadoras, estão compreendendo que não há tamanho único para quem trabalha ser mais criativo ou produtivo.

Um capítulo do livro explora a relação da linguagem com o tempo. Compara línguas com verbos de “forte futuro”, como inglês, ao mandarim, que não privilegia os verbos no futuro. E conclui que culturas com línguas de futuro fraco tendem a imaginar e se preparar melhor para o futuro. Reexaminando a nostalgia, que chegou a ser considerada uma doença, argumenta que a integração de passado, presente e futuro na nossa imaginação é fundamental, ao contrário de quem recomenda viver no presente.

Ele dedica um capítulo à sincronia, atividades nas quais temos que nos submeter a certas regras do grupo, como remar ou cantar num coral. “A sincronia combate a depressão, melhora nosso humor, é fundamentalmente humana”, afirma. “Não tenho ainda uma boa explicação para isso, mas o fato é que até crianças engajadas numa atividade sincrônica demonstram mais empatia pelo outro”. Pink diz “acho que você tocou no ponto” quando conto a ele que cantei em corais na adolescência e observava uma mistura de júbilo e reverência dos cantores com o regente. “Quem sabe estamos no território em que a alegria pela sincronia toca na espiritualidade.”

QUANDO

Autor: Daniel Pink

Tradução: Cássio de Arantes Leite

Editora: Objetiva (248 págs., R$ 44,90)

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