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Autobiografia de Sylvia Plath transita entre o humor e a depressão

Livro foi lançado pouco antes do suicídio da autora

Manoela Sawitzki - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

17 Janeiro 2015 | 03h00

O único romance que a poeta americana Sylvia Plath (1932-1963) escreveu, publicado sob o pseudônimo de Victoria Lucas meses antes do seu suicídio, dificilmente pode ser lido sem o peso dos eventos que o inspiraram e sucederam. Trata-se de uma autobiografia com toques ficcionais que transita entre o olhar juvenil, a ironia e o desespero, esmiuçado com alguma frieza. Sylvia se disfarça de Esther, a narradora protagonista de A Redoma de Vidro, como Esther decide que a heroína do romance que planeja escrever será ela mesma disfarçada de Elaine. Ao se desdobrar em outro, pode-se dizer o que não se revela impunemente. Sylvia, Victoria, Esther e Elaine são como versões ou frações da voz comovente e terrível de Lady Lázaro, título do célebre poema de Plath. Aquela que quer ter muitas vidas - para morrer em cada uma delas. 

No mesmo verão em que Julius e Ethel Rosenberg seriam executados na cadeira elétrica, condenados por espionagem, Esther Greenwood, jovem suburbana de Boston, devia estar se “divertindo loucamente” em NY. Em 1953, qualquer garota de 19 anos gostaria de perambular pela Madison Avenue com sapatos de verniz e vestidos caros. Qualquer universitária pobre como ela, que divide o quarto com a mãe, daria tudo para se hospedar no hotel Amazon, receber convites para festas, balés e desfiles, enquanto estagia na Ladie’s Day, uma “revista intelectual de moda”. Apenas 12 jovens americanas foram destinadas àquele deleite. Mas os Rosenberg estão em todos os jornais e programas de rádio e Esther não consegue “parar de pensar em como seria acabar queimada viva até os nervos”. 


Exclusivo para mulheres, o Amazon não é um oásis utópico destinado a guerreiras insubmissas num mundo moldado pelo poder masculino. São instalações ideais para pais ricos “que queriam garantir que as filhas viveriam em um lugar onde os homens não pudesse alcançá-las e fazê-las de bobas”. Isso enquanto elas passeiam por Nova York “esperando arrumar um marido carreirista ou algo do tipo”. Esther adora o conforto, comerá caviar grátis o máximo que puder, aceitará todos os presentes e jamais será uma delas. Nem a “princesinha da fraternidade”, como Betsy, nem sexy e irresponsável como Doreen. Vivem sob redomas distintas. Estudante exemplar, chegou ao último ano da universidade com louvor. Ainda assim, tampouco se encaixa no perfil de Jota Cê, a editora ardilosa, culta e ultraeficiente da revista. Ela, como todas as mulheres mais velhas que conhece, têm algo importante a lhe ensinar. E Esther decide de repente que não quer aprender nada com elas. 

Os homens são indiferentes, vagamente interessados ou misóginos. Mesmo Buddy Willard, estudante de medicina em Yale, se saía melhor como objeto de desejo impossível. Ao se aproximar da redoma, torna-se “o hipócrita”, uma ameaça. Alguém que não faz ideia da infelicidade que a espreita, do quanto pode ir longe nos impulsos autodestrutivos, de que encara a própria virgindade como um estorvo do qual se livrará logo que puder para puni-lo ou se igualar a ele. A Mãe de Buddy costuma dizer que “o homem é uma flecha rumo ao futuro e a mulher é o lugar de onde essa flecha parte”. Esther é uma flecha de rumo incerto.

Na primeira metade do romance, a hesitação da personagem entre a paralisia e o desejo de avançar define o tom e o ritmo da narrativa. Pouco a pouco, o enfado e o humor cáustico juvenis cedem diante de experiências de violência, dúvida e inadequação. O retorno ao subúrbio de Boston será o marco do atravessamento. Como um dente preso à boca por um fio tênue de carne que finalmente se desloca. 

A frustração de planos e o retorno à velha realidade, em que não cabe desde os 9 anos, são a ignição para que uma “voz de zumbi” se instale, devorando quaisquer possibilidades de vida que se apresentem. “Agora eu via aquilo oscilar e se dissolver, e um corpo vestindo blusa branca e saia verde mergulhava no precipício”, ela diz. 

O que se segue é o relatório meticuloso desse mergulho. A repulsa pela mãe e vizinhos, a impossibilidade de escrever ou descansar, a queda vertiginosa na depressão, a sombra da loucura e do suicídio, internações, erros e precipitações do sistema psiquiátrico que culminam numa aproximação absurda de Esther Greenwood e o casal Rosenberg. Às vezes a redoma cede e paira sobre ela, permitindo que respire o ar ao redor. É o bastante para confirmar que sua paisagem será sempre distinta. Quem relata, uma década depois daquele “verão estranho, sufocante”, é, ao mesmo tempo, o criminoso e o sobrevivente do crime. Disfarçada por duas camadas, Victoria e Esther, a voz em prosa de Sylvia Plath também é rara e indócil, mas sua linguagem, menos febril. É possível que o peso fosse insustentável de outra forma.

MANOELA SAWITZKI É AUTORA DE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

A REDOMA DE VIDRO

Autora: Sylvia Plath

Tradução: Chico Mattoso

Editora: Biblioteca Azul(280 págs., R$ 39,90)

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