Autobiografia

Louis Armstrorg, THE RIOTOUS STORY OF THE ONE AND ONLY SATCKMO, MY LIFE IN NEW ORLEANS, A Signet Book, Complete and Unabriged, 20 ilustrações fora do texto, The New American Library, New York, 1955, 190 pags.

28 de maio de 2011 | 05h00

 

A cidade de New Orleans divide-se em quatro partes: Up e Downtown. Front o' Town e Back o' Town. Nesta ultima, numa ruela chamada James Allein, perto de Liberty e Perdido Streets, existe um lugar chamado The Battlefield. Foi ali que nasceu Satchmo, o genio do jaz z. Louis Armstrong. O nome "Campo de Batalha" justifica-se logo nas primeiras narrativas de lutas entre os moradores do bairro, na maior parte ladrões, jogadores, desocupados, prostitutas e muitas crianças. Louis nasceu no dia da Independencia que foi, nesse ano como nos demais, celebrado com tiros de pistola e combates a faca.

 

A sinceridade, a quase candura e franqueza com que Armstrong comenta a sua vida, são deliciosas. Não poupa sequer os parentes mais proximos. "Quando meus pais se separaram, minha mãe foi morar numa rua onde só viviam prostitutas. Se se tornou uma delas não sei, porque nunca vi". Louis viveu, durante a infancia e a juventude, com sua avó, depois com seu pai e a madrasta, e também com sua mãe e seus sete ou oito padrastos... De um deles Louis gostava Gabe. "Fiz o possível para que Mayann, minha mãe, tornasse a viver com Gabe, mas não conseguiu: ela não simpatizava muito com ele". Slim também não era mau: só brigava nas frequentes vezes em que voltava bebado para casa. Mas Albert era o pior de todos. "Sempre tive raiva de Albert e nunca o perdoei. Se um dia o encontrar, eu o mato!". Esse é o estilo de Armstrong, essa a sua sinceridade. Mas dizem os "old-timers" que Albert já morreu o Louis não tem muitas possibilidades de se tornar assassino.

 

O livro refere-se apenas ao período que vai de 1903 (data do seu nascimento) até 1923 quando deixou New Orleans para integrar a Creole Jazz Band de "King" Oliver, em Chicago. As cenas de violencia em "Uma Rua Chamada Pecado", de Tennessee Williams, não dão ao menos uma vaga idéia das recordações de infancia de Louis Armstrong. Todo mundo vivia brigando por dinheiro, bebida ou mulher. Louis lembra-se da luta de duas mulheres pelo mesmo homem, a timida Deborah e Mary Jack. Começaram num bar, insultando-se mutuamente, e terminaram na calçada cortando o rosto uma da outra, diante de uma multidão estarrecida e paralisada. Mary Jack morreu no Hospital: Deborah ainda vive, sozinha e desfigurada. Lembra cenas de amor: Black Benny e Nelly. Benny era um dos melhores bateristas de New Orleans. Todos gostavam dele. Até os policias que na cabeça dele batiam com menos força do que na de todo mundo. Suas entradas na cadeia tinham quase sempre o mesmo motivo: uma surra na mulher. As poucas vezes em que preferiu poupá-la, foi parar no Hospital. New Orleans até hoje não se esqueceu do dia em que lutaram a faca, em plena rua, até caírem exaustos e ensanguentados na calçada. Veio a ambulancia e dias depois ambos deram alta, voltando juntos e apaixonados como sempre para casa.

 

São esses os personagens típicos que figuram neste livro. São todos amigos de Satchmo. Alguns chamam-se pitorescamento Cocaine Buddy, Egg Head Papa, Dirty Dog, Checky Black, Sore Dick e Lulu White. Outros: "King" Joe Oliver, Jelly Roll Morton, Baby. Dodds, Sydney Bechet, Burk Johnson e Bix Beiderbecke.

 

Mayann é a personagem mais fascinante do livro. Tipo de mulher simples, apaixonada, sem nenhum requinte espiritual ou verbal. Quando Louis voltou para casa, um dia, com o ombro cortado a gilete por uma prostituta de quem tomava dinheiro, Mayann não vacilou: mandou o filho para o Hospital, foi á casa da prostituta e só não a matou esganada porque acudiu gente. Outra vez, quando Louis tomou a sua primeira bebedeira seria, ela não lhe pediu que jurasse nunca mais beber, porque ainda era muito moço para "tomar uma resolução tão séria". Mas quis ensiná-lo a beber "até certo ponto" e depois parar. Na mesma noite, mãe e filho resolveram visitar juntos todos os "houkytonks" de Back o Town. Quando ia amanhecendo, voltarem para casa quase desacordados, carregados por Gabe que os encontrara caidos, um sobre o outro. No dia seguinte, Mayann explicou que, diante do acontecido estava certa de que o filho saberia cuidar de si dali em diante...

 

Mesmo quando Louis resolveu casar com Daisy Parker, uma prostituta de 21 anos (três mais do que ele). Mayann não interferiu. Apenas perguntou se estava realmente apaixonado e, diante da resposta afirmativa, tratou a nora com a maior dignidade e amor. E nem ao menos interferiu quando os dois brigaram, atirando tijolos um ao outro. Daisy foi para a cadeia e Louis desapareceu. Mais tarde, reconciliaram-se, exatamente como Black Benny e Nelly.

 

Louis Armstrong escreve o tempo todo sobre mulheres, comida e musica. E' impressionante a frequencia com que esses três temas recorrem, transformando-se em informações importantes sobre uma epoca, uma cidade, e a musica desse tempo e lugar. O seu estilo é simples e direto. Existe uma frase que resume a sua atitude diante da vida: "Provavelmente Jamais serei um homem rico, mas hei de ser um homem gordo."

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