Tiago Queiroz/Estadão
Para editores, o potencial do mercado de audiobook está nas pessoas em trânsito Tiago Queiroz/Estadão

Audiobook: O tempo de ouvir histórias está de volta

Novos players estão chegando e profissionais do mercado editorial acreditam que o audiolivro pode conquistar pessoas que buscam entretenimento durante o deslocamento

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2019 | 15h25
Atualizado 21 de setembro de 2019 | 15h49

Por alguns anos até 2013, editores do mundo todo chegavam um dia mais cedo na Feira do Livro Frankfurt para tentar entender, na conferência TOC (Tools of Change), como seria o mercado dali para a frente. O futuro, era certo, seria digital – só era preciso aprender como chegar lá.

O tempo foi passando e o e-book virou uma realidade, com mais ou menos sucesso, em países leitores e não leitores, respectivamente, e o livro físico não morreu, como muito se discutiu. Estava tudo caminhando; portanto, não havia mais necessidade de continuar com a conferência. De 2014 até 2017, nenhuma grande novidade tecnológica ou indício de uma nova ‘revolução’ pelos corredores da maior feira de livros do mundo. E, então, os audiobooks ressurgiram das cinzas, e com força.

Ainda na feira, em 2017, eles começaram a ser mencionados em apresentações de empresas de tecnologia e institutos de pesquisa, e começaram a chamar a atenção de editoras, que ainda guardavam a lembrança de outras tentativas de fazer vingar o formato, com discos, fitas e depois CDs, e algum ceticismo. Ou seja, um novo futuro do livro estava começando a ser desenhado, discretamente, por empresas de tecnologia, e os resultados começam a aparecer.

Aqui, desde 2014, a Ubook e a Tocalivros investem na formação de catálogo e na criação de um mercado, que vai se tornando mais real com a entrada de players internacionais – que, aliás, contaram com a ajuda dessas empresas para começar a operar no Brasil. O Google Play Livros chegou em julho do ano passado, depois de uma parceria de conteúdo com a Ubook. A primeira vende a la carte e a segunda aposta no modelo de assinatura. O mesmo aconteceu com a canadense Kobo que, desde julho, vende audiolivro com o apoio da Tocalivros, que segue ‘alugando’ seu conteúdo e da distribuidora Bookwire.

Na semana passada, a sueca Storytel desembarcou no Brasil e a Auti Books, uma plataforma criada por três grandes editoras brasileiras (Sextante, Record e Intrínseca) para vender seus audiolivros e os de outras editoras, soma 37 mil títulos comercializados em três meses de vida. Sem contar as plataformas de streaming de música, que começam a oferecer audiolivros a seus assinantes, e a expectativa da chegada do Audible, da Amazon, que deve redesenhar o mercado nacional.

O movimento é global, e Frankfurt, que parou de falar de e-books, vai dedicar 600 m² de seu pavilhão para empresas da área de áudio e vai realizar o Frankfurt Audio Summit, em outubro. A aposta geral é no tempo que as pessoas passam no telefone e se deslocando.

A dentista Claudia Sousa, de 63 anos, levava cerca de 10 minutos para ir de casa ao consultório, no Rio, e de repente o trajeto passou a durar 40 minutos. Leitora de livros físicos e digitais, ela nunca foi simpática à ideia de ouvir um audiobook. Achava que não ia funcionar para ela, que tem uma memória mais visual. No meio de um congestionamento, porém, resolveu comprar um título. Escolheu Me Poupe!, autoajuda financeira best-seller de Nathalia Arcuri, narrado pela própria autora – um livro que Claudia não compraria na versão tradicional. “Adorei, parecia que ela estava sentada ao meu lado.”

Em três meses, ela já ouviu cinco – cinco livros a mais do que teria lido, já que não substituiu a leitura tradicional antes de dormir por este novo jeito de ler. “O que salvou, literalmente, minha saúde física, mental e emocional foi ouvir os livros. Se as pessoas estivessem ouvindo livros no trânsito, não buzinariam tanto”, conta ao Estado.

A aposta dos fornecedores de conteúdo é mesmo no trânsito – no tempo em que as pessoas passam no carro, metrô e ônibus. Uma pesquisa feita pelo Estado com leitores em seu portal mostrou que a maioria (32,4%) ouve música no trajeto entre a casa e o trabalho. A leitura é a atividade mais frequente para 30% dos que responderam à pesquisa e 15% deles disseram que não fazem nada. Quando questionados se ouvir um audiobook seria uma boa opção de entretenimento durante os deslocamentos, 54% responderam que sim. E 60% disseram acreditar que audiolivros podem aproximá-los da literatura. 

Profissionais do mercado editorial apostam na conquista de novos leitores. “O audiobook tem um potencial não só com o público leitor, mas também com aquele que não é leitor, mas que está acostumado ao streaming, ao podcast, por exemplo. Um levantamento que fizemos recentemente, com dados do TGI/IBOPE, sobre a propensão e interesse em ouvir conteúdos em áudio no Brasil mostrou que cerca de 11% da população consome ou está propensa a consumir conteúdos em áudio e 60% das pessoas que consomem video-on-demand estão propensas a consumir conteúdo de áudio entretenimento”, explica André Palme, gerente da Storytel.

Camila Cabete, da Kobo, também acredita no audiolivro como um aliado na luta por leitores. “Mas mais do que isso: audiolivro é uma forma de entretenimento, e o consumidor vem em busca de boas produções e boas locuções. Vejo o produto como um concorrente direto dos aplicativos de streaming de vídeo.”

O editor Tomás da Veiga Pereira, da Sextante, que integra a Auti Books, diz acreditar “profundamente” no formato, mas é realista. “Nada vai acontecer do dia para a noite, pois é uma novidade para 99,9 % das pessoas, mas vai crescer e revolucionar o acesso dos livros no Brasil entre 5 e 10 anos.” 

Comparando o primeiro semestre de 2018 com o de 2019, a distribuidora Bookwire registrou 74% de crescimento em vendas. “Os e-books ainda estão em explosivo crescimento no Brasil, mas avaliando os primeiros números do mercado de audiolivro, ele aparentemente vai ser maior do que o de livro digital”, diz Marcelo Gioia, da Bookwire.

O consultor Carlo Carrenho, que prepara a chegada da editora sueca World Audio ao País, acredita que o Brasil tem potencial para ser bom mercado para audiolivro “dentro de suas limitações educacionais e de interesse por literatura” e que ele pode ser uma opção atraente para o não-leitor. Sobre o que deve funcionar melhor no formato aqui, ele diz: “Minha intuição é que, além da ficção comercial, livros religiosos, autoajuda, eróticos, romances femininos e obras comerciais de história vão funcionar bem. Não acredito que a grande literatura, nacional ou estrangeira, vai ter muita repercussão ou interesse.”

Há dois modelos de negócios: a venda tradicional e a assinatura mensal, que custa entre R$ 19,90 e R$ 27,90, dependendo da empresa, e dá acesso ilimitado a um catálogo que vem sendo ampliado, mas ainda é diminuto. A produção é cara (entre R$ 1.500 e R$ 2 mil a hora finalizada, podendo ser mais se o narrador for uma celebridade ou um autor-celebridade). Só para se ter ideia do preço para o consumir, a obra de Nathalia Arcuri que transformou Claudia em ouvinte de livro custa R$ 34,90 (físico), R$ 21,99 (digital) e R$ 27,99 (áudio).

Com um mercado ainda em construção, Carrenho diz que o consumidor já deixou claro que quer o modelo de assinatura, vide o sucesso da Netflix e Spotfy. “Os editores, portanto, devem focar seus esforços não em evitar o modelo de assinatura, mas em criar e negociar um modelo em que a remuneração seja justa e saudável para todas as partes.”

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Como comprar audiobook no Brasil

Conheça seis empresas que vendem ou ‘alugam’ audiolivro: Google, Ubook, Kobo, Storytel, Auti Books e Tocalivros

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2019 | 15h31
Atualizado 26 de setembro de 2019 | 09h38

Há dois modelos de negócios no mercado de audiolivros. É possível comprá-los da forma tradicional, um a um, no Google Play, Kobo e Auti Books. Ou então aderir a algum serviço de assinatura, com pagamento mensal e a possibilidade de ouvir quantos quiser. Os dois mais antigos, de 2014, são Ubook e Tocalivros. O mais recente, lançado dia 10, é da sueca Storytel.

O problema é que cada empresa oferece um catálogo, e ainda não muito completo - o que é natural, já que o mercado ainda é mínimo e o custo de produção é alto - entre R$ 1.500 e R$ 2 mil (isso, se o narrador não for uma celebridade). 

Quem quiser ouvir um livro da Sextante, por exemplo, tem que comprá-lo, por ora, apenas na Auti Books, plataforma criada por ela e outras editorasSe For Para Chorar Que Seja de Alegria, livro sobre o qual Ignácio de Loyola Brandão comenta em Ouvir um audiobook é uma experiência curiosa; ainda mais se somos o autor, pode ser ouvido por quem assinar o Ubook, mas não pode ser comprado, ainda, em nenhuma plataforma.

O mercado está em construção, com empresas se apresentando e chegando de outros países. Mas tudo pode se transformar quando o Audible, da Amazon, começar a funcionar no País. 

 

Conheça seis empresas que atuam no mercado de audiolivro no Brasil

Serviço de assinatura de audiobook

Ubook

Criada em 2014, a Ubook, que já está presente em 10 países, tem dois planos mensais de assinatura. Por R$ 29,90, é possível ouvir ou ler qualquer livro da plataforma, em diversas línguas. Por R$ 49,90, é possível ter acesso a tudo isso e ainda receber um livro físico em casa. No app, há a funcionalidade Kids. Trocando de perfil, os pequenos navegam sozinhos pelos livros infantis.

Tocalivros

De 2014, a Tocalivros, assim como a Ubook, funciona como um serviço de assinatura de audiolivro. São três planos, que dão acesso ilimitado ao catálogo: mensal (R$ 19,90), semestral (R$ 113,49) e anual (R$ 214,80). E, também como a Ubook, ela foi essencial para a chegada de outro player internacional ao Brasil: a Kobo.

Storytel

A sueca Storytel acaba de desembarcar no Brasil com seu serviço de assinatura mensal de livros por R$ 27,90. Maior empresa de seu país e operando em 18 mercados, ela oferece conteúdos diversos em áudio, como livros e podcasts exclusivos. Em breve, deve começar a lançar a versão em áudio de livros que serão publicados posteriormente por editoras e prevê a criação de conteúdos originais em parceria com autores.

Venda de audiobook

Google

Google começou a vender audiolivro no Brasil em julho de 2018 depois de uma parceria com a Ubook. Porém, na Play Store, esses títulos são vendidos a la carte, geralmente com algum desconto.. 

Kobo

A canadense Kobo, que chegou ao Brasil anos atrás para vender e-books em parceria com a Livraria Cultura, lança agora sua plataforma de audiolivro com o apoio da Tocalivros e da distribuidora alemã Bookwire, que já operava no Brasil na área de e-books. Os livros são vendidos a la carte, mas está no horizonte da empresa iniciar um serviço de assinatura em breve, como já existe em outros países onde a Kobo opera.

Auti Books

Livraria criada por um grupo de editoras (Sextante, Intrínseca e Record) em junho de 2019 para vender seus audiolivros e os de outras empresas que desejem fornecer seu conteúdo - a Companhia das Letras é uma delas. Assim, quem quiser ouvir os livros dessas editoras, especialmente das três sócas, tem que comprar direto da Auti Books. 

E mais...

Plataformas de streaming de música começam a oferercer audiolivros em seu catálogo e o Audible, da Amazon, é esperado pelo menos desde de 2016. Há livros em português na plataforma americana, mas a cobrança, claro, é em dólar. Apple Store também ainda não começou. 

 

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10 amostras de audiobook para você experimentar

Ouça amostras de 'Cem Dias Entre Céu e Mar', narrado por Amyr Klink; Na Minha Pele, narrado por Lázaro Ramos, entre outros audiolivros

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2019 | 15h27

Selecionamos 10 amostras de audiobooks, um mercado que cresce no mundo todo e começa a chamar a atenção no Brasil. O 'novo-velho' formato de leitura é tema de matéria do Caderno 2.

Cem Dias Entre Céu e Mar, narrado por Amyr Klink

 

Se For Para Chorar, Que Seja de Alegria, narrado por Ignácio de Loyola Brandão

A culpa é das estrelas

Na minha pele, narrado por Lázaro Ramos

Vox

 

Longe de Casa, narrado por Klara Castanho

O Poder do Hábito

O guia do mochileiro das galáxias, narrado por Jefferson Schroeder

 

Aprendizados (introdução narrada por Gisele Bündchen)

 

A Sutil Arte de Ligar o F*oda-se

 

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O audiobook na opinião de 5 escritores

Glauco Mattoso, Marina Colasanti, Ignácio de Loyola Brandão, Marcelino Freire e Nathália Arcuri falam sobre audiolivros e analisam se eles eles podem ajudar a atrair mais pessoas para a literatura

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2019 | 15h32

Nova aposta do mercado editorial internacional, que já está se tornando realidade e fazendo sucesso em países europeus e nos Estados Unidos, o audiolivro mobiliza editores brasileiros e players nacionais e internacionais na busca de alternativas num momento de crise - embora o investimento na produção ainda seja muito alto. É uma tentativa, também, de atrair mais pessoas para a leitura.

Conversamos com 5 escritores para saber a opinião deles sobre essa ‘nova-velha’ forma de leitura. 

Ignácio de Loyola Brandão e Marina Colasanti  já assistiram a outras tentativas de fazer o audiolivro vingar, com discos, fitas cassete e cds, e comentam o momento atual. Para ela, o formato pode funcionar com crianças, mas dificilmente ele levará os adultos que optam por livros em áudio para uma "literatura mais consistente". Já Ignácio quer dar seu audiolivro, que ele mesmo narra, para motoristas de táxi (a justificativa vem no formato de crônica).

Glauco Mattoso, que perdeu a visão por causa de um glaucoma, prefere que alguém leia para ele e acha que a poesia não é um gênero que se dê bem nos novos audiolivros. 

Marcelino Freire não costuma ouvir livros, mas disse que se todo mundo que precisa enfrentar o trânsito de São Paulo comprar um audiolivro, o sucesso está garantido.

Da nova geração, a best-seller Nathalia Arcuri, autora de Me Poupe!, sobre educação financeira, é entusiasta do formato.

 

O audiobook na opinião de 5 escritores

 

Glauco Mattoso

Não compartilho das supostas "necessidades" dos demais cegos, não uso braile nem curto audiodescrição de filmes. Prefiro que alguém leia para mim ao vivo e interrompa a leitura sempre que eu queira comentar algo. Meu esposo assiste comigo aos filmes e vai descrevendo só quando peço, para não truncar as cenas. Quanto a livros e jornais, ele os lê em voz alta diariamente. Na verdade, acho péssima a dicção da maioria dos audiolivros, principalmente se for poesia, que exige ritmo na métrica e pausa nas rimas. Não gosto do ritmo declamatório que transforma versos em prosa pretensamente ‘fluente’. Quero marcação técnica das tônicas, especialmente nos decassílabos. Mas não desdenho do audiolivro quanto à utilidade para cegos em geral ou mesmo para normovisuais, pois muita gente prefere ouvir a ler e gosto não se discute. Meu computador falante converte texto puro (TXT ou DOC) em voz sintetizada, que posso comandar à vontade, fazendo voltar, repetir, soletrar, etc. Por isso prefiro trabalhar com texto pelo sistema dosvox.

 

​Marina Colasanti

A ideia do audiolivro me soa agradável. Afinal, foi através da oralidade que os humanos fizeram suas narrativas durante muitos séculos, e foi graças à oralidade que recuperamos parte delas. A oralidade pode ser mais imorredoura que os eventuais suportes. Eu mesma gosto de contar meu contos maravilhosos e já gravei dois cd com eles, para Luz da Cidade. Quanto a seu poder de atração para a leitura, sei que funciona magnificamente para a infância. Quanto aos adultos não leitores, desconfio. Creio que comprarão audiolivros não literários, para aproveitar o tempo do deslocamento até o trabalho, sem serem levados para os braços da leitura mais consistente.

 

​Ignácio de Loyola Brandão

Entrei no táxi, ouvi uma voz familiar. Sentei-me e descobri. Era a minha no rádio do carro. Dei meu endereço e o motorista dirigiu em silêncio, prestava atenção à narrativa. Segui a história com ela, apesar de conhecê-la. Uma das crônicas de meu livro Se For Para Chorar Que Seja de Alegria, meu primeiro audiobook. Fiquei quieto, deixando ele saborear. Uma sensação curiosa, ele sorria de leve, ou dava uma gargalhada, depois não tinha reação alguma. Uma hora, ficou triste. (A história continua aqui)

 

​Marcelino Freire

Se todo mundo que enfrenta o trânsito de São Paulo comprar audiolivro, o sucesso de vendas está garantido. Acho uma ótima alternativa para engarrafamentos, para uso em aulas, para divulgação da língua portuguesa lá no estrangeiro. E gosto mais do audiolivro narrado pelo próprio autor ou autora. Mais tarde, valerá como documento histórico, creio. Não costumo ‘ouvir' livros... Gosto mais da palavra no papel. No entanto, sou curioso. E tenho até hoje um raro LP com leituras do Drummond. É uma leitura melancólica, única. Já gravei dois audiolivros, Angu de Sangue e o Contos Negreiros, e tenho vontade de gravar o romance Nossos Ossos. Eu sou muito guiado pela oralidade. Aí o áudio livro acaba virando música. Eu fico me sentindo um cantor mudo. Trabalhando os silêncios, as pausas. Gostei de gravar, mas não gosto de me ouvir. Tenho medo de mim. Espero que o leitor-ouvinte não reclame de alguma insônia depois de me ouvir lendo... eu pareço um fantasma.

 

Nathalia Arcuri

Estamos em um momento onde os podcasts estão com força total e o audiolivro tem todo o potencial para seguir o mesmo caminho. As pessoas podem ouvir seus livros preferidos enquanto dirigem, em casa fazendo alguma outra atividade ou antes de dormir e assim conseguem aproveitar melhor o tempo e como eu digo: tempo é dinheiro. O audiolivro inclui mais pessoas e isto é incrível. As pessoas com deficiência visual podem ter acesso a conteúdos de forma mais prática. E é um formato inclusivo de todas as maneiras porque também pode, mais facilmente, fazer parte da rotina corrida das pessoas.

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'Ouvir um audiobook é uma experiência curiosa. Ainda mais se somos o autor', diz Loyola Brandão

O escritor Ignácio de Loyola Brandão comenta o dia em que entrou no táxi e o motorista ouvia o audiolivro de 'Se For Para Chorar Que Seja de Alegria', narrado por ele; ouça um trecho

Ignácio de Loyola Brandão, Especial para o Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2019 | 15h35

Entrei no táxi, ouvi uma voz familiar. Sentei-me e descobri. Era a minha no rádio do carro. Dei meu endereço e o motorista dirigiu em silêncio, prestava atenção à narrativa. Segui a história com ela, apesar de conhecê-la. Uma das crônicas de meu livro Se For Para Chorar Que Seja de Alegria, meu primeiro audiobook. Fiquei quieto, deixando ele saborear. Uma sensação curiosa, ele sorria de leve, ou dava uma gargalhada, depois não tinha reação alguma. Uma hora, ficou triste e vi que estava acompanhando a história da mulher de 90 anos que nunca tinha sido beijada e perguntava a todas as mulheres amigas, conhecidas, velhas, jovens, maduras: como é beijar?

É curiosa a sensação de ver uma pessoa que escuta um texto nosso, sem saber que fomos nós que escrevemos. Muitas vezes perguntamos 'gostou do livro?' e a pessoa dá uma resposta simpática. Mas ali, não. Ele reagia às emoções, autenticamente. Estava imerso no texto, súbito brecava e pedia desculpas, a história o entretia mais do que o trânsito. Aliás, o trânsito não entretém ninguém. Chegamos ao nosso destino, como diz aquela voz do GPS. Perguntei: “O senhor gosta de histórias? Lê livros?"

“Gosto de histórias, mas não leio, mal sei ler, me dá dor de cabeça. Mas gosto de histórias e um amigo me deu esse vídeo... ou não sei com chamar. Prático, ligo aí e vou me esquecendo do mundo. Esse amigo disse que conhece quem escreveu as histórias e que se desse certo um dia me apresentaria. Eu imaginei que o homem estivesse morto. Os escritores devem ser bem velhos e ou já morreram.”

“Esse aí está bem vivo, é um sujeito legal, quem sabe um dia o senhor o encontra”, respondi.

“Tomara, tomara, e, encontrando ele, diga que gostei das histórias, até queria mais.”

Desci, não achei que fosse boa ideia me identificar, deixei-o com seu mundo, seu imaginário. Lembrei-me do dia em que entrei no estúdio de gravação. Uma cabine, o produtor, o técnico de som.

Havia o livro inteiro digitado em corpo grande para me auxliar. Pensei que fosse fácil, era ir lendo, lendo. Fomos gravando crônica a crônica. Voltávamos, ouvíamos. Perfeito. Ou era preciso regravar, a voz tinha tremido, um pigarrinho, uma letra trocada. Íamos e voltávamos, o técnico era perfeccionista, percerbi erros mínimos que tomam corpo quando ouvidos. Quando eu me ouvia, eu dava razão. Comia letras. Pulava um palavra. Afinal, nunca fui radio ator, é uma arte.

Passamos três dias naquela gravação. Foi uma experiência e uma descoberta. Eu, que sempre odiei minha voz, até me achei simpático, acolhedor. O texto ouvido se transforma. Daqui para a frente vou dar o meu audiolivro de presente a taxistas pedindo que toquem. Quem sabe podemos atingir um público que não conhecemos, e que tem ânsia por histórias. Um novo mundo.

* Ignácio de Loyola Brandão é escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e cronista do 'Carderno 2'

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