Marisa Alvarez Lima/Divulgação
Marisa Alvarez Lima/Divulgação

Atriz combativa, Yara Amaral ganha extensa e rica biografia

Com carreira com grandes personagens marcantes, artista morreu no trágico acidente do Bateau Mouche, no réveillon de 1988, no Rio

Amilton Pinheiro, O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2017 | 05h00

Quando Eduardo Rieche assistiu a um trabalho da atriz Yara Amaral (1936-1989), ele tinha 11 anos – foi em 1983, na Globo, na primeira versão da novela Guerra dos Sexos

“Foi uma novela excepcional, com um elenco estelar, um texto impagável e personagens ‘ensandecidas’. Intuitivamente, acho que enxerguei naquela feirante da Mooca, vivida por Yara, um traço felliniano, nonsense. Em resumo, a italiana Nieta não era uma caricatura”, conta por e-mail o autor da biografia Yara Amaral – A Operária do Teatro, que será lançado nesta terça-feira, 17, na Livraria Blooks.

Yara Amaral, que não ligava para o sucesso, ficou conhecida do grande público por causa da tragédia que envolveu sua morte. No réveillon de 1988, pouco antes da meia-noite, o barco Bateau Mouche IV, que levava um grupo de pessoas para ver a queima de fogos do final do ano no Rio de Janeiro, naufragou na Baía da Guanabara matando 55 pessoas que estavam à bordo, entre elas, Yara.

Nascida em São Paulo, ela nunca pensou em ser atriz. “Era uma menina de classe média habituada a achar que artista não ganhava dinheiro”, dizia ela, nas entrevistas. 

Foi ser bancária, no Citibank, e lá conheceu o teatro amador, quando fez seu primeiro trabalho na peça Uma Rua Chamada Pecado, de Tennessee Williams, em 1959, interpretando a personagem Stella Kowalski.

A tomada de consciência da carreira, segundo Rieche, aconteceu no 4.º Festival Nacional de Teatros de Estudantes, realizado em Porto Alegre, em 1962. “Lá, a atriz apresentou Os Fuzis da Senhora Carrar, de Bertolt Brecht, em cujo elenco também estavam Sérgio Mamberti e Dina Sfat”, revela o autor.

No teatro, a atriz descobriu sua verdadeira evocação, realizando seus trabalhos mais memoráveis, em peças tanto de autores clássicos estrangeiros como também de nacionais. “Eu era uma pessoa muito humanística, mas sempre me senti muito oprimida. Não sabia bem o que era o teatro para mim. E, naquele exato momento, tudo ficou claro: esse fato do que é a expressão através do teatro. E isso arrebentou minha cabeça”, disse, em entrevista que consta em sua biografia.

Segundo Rieche, Yara acreditava piamente no teatro de ideias. Ela construía seus personagens de dentro para fora, emprestando-lhes a própria vivência. “Idealista, ela acreditou, durante muito tempo, em um teatro cooperativado – e que, de preferência, pudesse mudar o mundo.”

Em um de seus trabalhos marcantes no teatro, Réveillon, de Flávio Márcio, em 1974, a atriz interpretava Adélia. Num dos diálogos da peça, a personagem conversa com Janete (Regina Duarte), que pergunta: “Desse jeito, a senhora acaba morrendo antes da hora. De preocupação”. Adélia responde: “E você está achando que é cedo, é? Falta tanto assim pra meia-noite não...”. 

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