'Até na morte ele foi generoso', diz filha de Manoel de Barros

Poeta foi velado nesta quinta-feira, 13, em Campo Grande (MS)

Lucia Morel, Especial para o Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 18h47


Atualizado às 20h32.

CAMPO GRANDE - A despedida do poeta das coisas miúdas foi como ele: tranquila e paciente. Sem alardes ou desespero, família e amigos de Manoel de Barros, que disse adeus aos 97 anos, se despediram daquele que transformou o Pantanal em verso.

Martha Barros, 63 anos, é a única filha que restou do casamento do poeta com Stella de Barros, 93 anos. Os outros dois filhos do casal, João Barros e Pedro Barros, morreram há sete e três anos atrás, respectivamente. “Ele já tinha pedido dois filhos. Ele já estava bem cansado”, considerou Martha. Após essas dias perdas, ele praticamente não produziu mais versos.

Manoel realizou há 12 dias uma cirurgia de desobstrução do intestino. Ficou internado no Centro de Terapia Intensiva (CTI) do hospital Proncor, se recuperou, foi levado à enfermaria, mas houve piora e ele teve de retornar para o tratamento intensivo. “Eu acho que ele não aguentou a cirurgia e acho que teve uma falência múltipla dos órgãos”, contou a filha.

Neto do poeta, Felipe Barros, 36 anos, destaca o Manoel homem, mais que o contador de histórias. “Uma coisa é ele com as obras dele, outra é como homem. Ele sempre foi esteio da família, o pai, o irmão, o melhor amigo. Esse era ele”, afirmou.

Amigos também lembraram de causos e versos de Manoel, que de tanta poesia, chegava a ser engraçado. Para o imortal da Academia de Letras de Mato Grosso do Sul (ACL/MS), José Couto Vieira Pontes, 78 anos, ele fazia graça com os versos. “Ele escreveu que um cachorro levava a mulher até o poste, quando na verdade é o contrário”, disse caindo na risada.

Amigos de longa data do poeta, Reginaldo Araújo, 68 anos e Abrão Razuk, 74, ambos presidente e vice-presidente da ACL/MS, disseram que o jeito amuado de Manoel não impediu que ele ocupasse a cadeira número 1 da Academia. “Insistimos muito pra ele ser condecorado, mas ele não queria. Ateé que ele disse que da casa dele e do sofá ele não saía. Fizemos a cerimônia de posse ali mesmo, bem simples, como ele era”.

Avesso à imprensa e a qualquer tipo de ostentação, ele era um “caramujo” como disse a filha Marta. “Ele sempre foi muito tímido”, sustentou. Mas ela também lembrou que o que o poeta tinha de simples, tinha também em sensibilidade. “A obra dele é muito forte, mas nunca quis saber de fotos, entrevistas”.

Manoel de Barros deixou um legado. Para a família, para os amigos e para a humanidade. O poeta que nasceu de Cuiabá (MT) e alcançou o mundo não saía de casa, mas suas letras voavam. Afinal, ele alcançava o azul usando pássaros, mesmo não tirando os pés do chão.

O poeta foi enterrado às 18 horas desta quinta-feira no cemitério Parque das Primaveras, no bairro Piratininga, em Campo Grande. “Até para morrer ele foi generoso. Esperou a família se preparar para esse momento”, comentou Martha.

Sua obra será toda reeditada pela editora Alfaguara e seus inúmeros livros republicados até abril de 2015, conforme projeto que já estava em andamento antes de sua morte. Manoel deixa a esposa, filha, sete netos e cinco bisnetos.

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