FELIPE RAU/ESTAD?O
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Às vésperas da Feira de Frankfurt, obras sobre questões contemporâneas estão no radar das editoras

Conservadorismo, novas ameaças de guerra, segurança, política internacional, crise migratória, crise da democracia, novos nacionalismos, desigualdade de gênero e racismo estão entre os temas de interesse de editores e leitores

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

07 Outubro 2017 | 06h00

Poucos dias antes do início da Feira do Livro de Frankfurt, a Estação Liberdade divulgou um comunicado com o título ‘As humanidades contra-atacam’. O objetivo era mostrar as novas aquisições da editora – obras que discutem “a atualidade regressiva” –, entre as quais estão Depois de Piketty – Pautas para a Economia e a Desigualdade, com organização de Heather Boushey, J. Bradford DeLong e Marshall Steinbaum; A Grande Regressão, organizado por Heinrich Geiselberger; A Escravidão do Capital, de Luciano Canfora; e Você Precisa Mudar Sua Vida, de Peter Sloterdijk.

Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade, quer mais porque acha que “produzir livros e difundir a leitura fazem parte de você se colocar debatendo a liberdade de expressão e a cidadania” – e embarca para a maior feira do mercado editorial internacional, que começa na terça-feira, 10, com alguns assuntos no radar. “Acho importantíssimo participar do debate sobre essas novas regressões e retrocessos como editor e cidadão. E imagino que possa trazer uma dezena de títulos novos sobre esses assuntos”, comenta o editor que está interessado, também, em ver como autores de ficção estão tratando das questões que tanto nos inquietam.

E elas são muitas. Essa onda conservadora que paira sobre diversos países, as guerras e as novas ameaças de guerras, segurança e terrorismo, líderes antidemocráticos e sem autocensura, como Donald Trump, a crise migratória, os novos nacionalismos, a volta do antissemitismo, o racismo, a desigualdade de gênero, as questões de gênero, o clima. A lista segue, as pessoas se digladiam nas redes sociais e se aborrecem com o noticiário diário e o mercado editorial acompanha atento a discussão.

A Darkside Books, por exemplo, criou há um ano o selo Crânio para livros sobre a cada vez mais intrincada relação homem-máquina, as guerras, os refugiados e a migração, o empoderamento feminino, o feminismo, a questão fluida dos gêneros, o racismo, entre outros, explica o editor Bruno Dorigatti.

“Existem variações entre o que faz sucesso em um país ou outro, mas vemos sempre essas ondas de assuntos novos, discussões, debates. Às vezes, as editoras se antecipam e buscam autores para desenvolver projetos específicos ou os convidam para participar de antologias temáticas. Mas os próprios autores trazem os temas nas suas obras”, explica Lucia Riff. Houve um aumento da oferta, por parte das editoras e agentes estrangeiros, e da demanda por parte das editoras brasileiras, observa a agente literária.

Entre os livros que estão sendo oferecidos neste momento pré-Frankfurt – as negociações dos títulos mais quentes começam antes mesmo da abertura do evento – estão One Nation After Trump, When They Call You a Terrorist, The Dangerous Case of Donald Trump, Give People Money – How a Universal Basic Income Would End Poverty, Revolutionize Work, And Remake The World; The Light That Failed – How The West Won The Cold War But Lost The Peace e The Crises of Democracy

Embora opte por não ter livros sobre atualidades no catálogo da WMF Martins Fontes, preferindo “os long-sellers aos quick-sellers”, Alexandre Martins Fontes considera importante que alguém o faça. Como livreiro, diz que sentiu um aumento da procura por livros que tratam de temas contemporâneos na Martins Fontes Paulista. 

Editores de três grandes grupos, Luis Schwarcz, da Companhia das Letras, Cassiano Elek Machado, da Planeta, e Carlos Andreazza, da Record, veem com interesse obras estrangeiras sobre temas assim, e dizem que há, de fato, uma série de livros sendo escritos, lançados e oferecidos para as editoras brasileiras. A dúvida é se esses livros viajam bem para o Brasil, como dizem. Certamente não vão vender grandes volumes, e isso é crucial para grandes casas. Por isso, o trio chega a Frankfurt sem muita expectativa para o gênero.

E tem um agravante. Como explica Andreazza, muito do que está sendo vendido – pelo menos para as grandes editoras – é o direito de uma obra que nem sequer foi escrita. “Dois, três anos depois, quando esse livro ficar pronto, pode ser que o assunto já tenha até mudado”, diz. Além desses temas gerais, Machado relata o aumento de títulos que analisam como a tecnologia influencia a vida das pessoas, e isso interessa à Planeta. 

“As editoras sempre estiveram muito antenadas com o que acontece e o mercado editorial americano está fervilhando. É uma reação clara, natural, depois da eleição inesperada de um presidente que tem um perfil diferente e que traz risco para a democracia. E há muitos livros sendo elaborados sobre a relação entre Putin e Trump. Mas a Companhia das Letras não é uma editora que se dê bem com não ficção de ocasião. Vou para a feira com pouca intenção de compra no geral”, diz Schwarcz.

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