Steve Schapiro/WP
Steve Schapiro/WP
Imagem Mario Vargas Llosa
Colunista
Mario Vargas Llosa
Conteúdo Exclusivo para Assinante

As queixas de um nativo

Descobrir que o racismo estava presente não só nos EUA foi uma provação para James Baldwin

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

18 de janeiro de 2022 | 03h00

Muitos anos atrás, cerca de cinquenta, entrevistei James Baldwin para a revista Primera Plana de Buenos Aires. Quando li o artigo quase morri de vergonha. Prometi a mim mesmo nunca mais entrevistar nenhum escritor de quem não tivesse lido alguma coisa, como irresponsavelmente fizera no caso de Baldwin. E, como castigo, resolvi ler as obras completas – romances e ensaios – desse escritor norte-americano. Dessa forma, pude conhecer um dos melhores escritores dos Estados Unidos – um crítico feroz de seu país –, que não ponho no mesmo patamar de Faulkner nem mesmo Hemingway, mas logo depois, entre os grandes narradores e críticos que aquela terra produziu. Ele foi um crítico ferrenho de sua própria sociedade, sobretudo em relação ao “problema negro”, e morou muitos anos na França, mas era obcecado pelo tema, pois em todos aqueles anos de exílio continuou a escrever sobre seu país. Acho que seu melhor romance é Terra Estranha, ambientado em Nova York, onde um caso de amor entre uma mulher negra e um homem branco é descrito com grande talento. Esta semana, quando estava em Miami, comprei na livraria Books & Books uma nova edição de Notas de um Filho Nativo, que apareceu pela primeira vez em 1955. Este livro me levou a investigar se havia nos Estados Unidos alguma associação de casamentos inter-raciais, e havia pelo menos duas, as quais tinham muitos membros.

As melhores páginas do livro são dedicadas aos dez dias que o autor passou numa prisão parisiense, pelo furto involuntário de um cobertor que muito ingenuamente colocou na cama do hotelzinho onde dormia. Nas páginas soberbas deste esplêndido relato há uma espécie de consciência de que as terríveis críticas contra os Estados Unidos desferidas na primeira parte – sobre o negro norte-americano e o racismo branco – eram um tanto exageradas porque, se não fosse assim, naqueles dez dias de tormento o autor não sentiria falta de Nova York. As palavras duras da primeira parte sobre o “negro” norte-americano e sua degradação pelo racismo branco eram excessivas, pois em Nova York suas “experiências” teriam permitido que ele se saísse melhor. Todo o texto é excelente: os detalhes e, sobretudo, a suave ironia com que foi escrito, afastando-se de si mesmo para ter mais independência sobre sua própria situação. Descobrir que o racismo estava presente não só nos Estados Unidos, mas na própria França – a terra da liberdade – foi uma provação e James Baldwin a reconhece enquanto tal.

As coisas estão melhores para os negros na América de hoje? Claro que sim. Agora ninguém nos Estados Unidos, nem mesmo o sul do país, ousaria despachar um negro com o argumento de que “aqui não se serve comida nem bebida para gente de cor”, que foi o que James Baldwin ouviu muitas vezes nos bares e restaurantes de sua terra. Hoje as melhores universidades dão bolsas e reservam vagas para este setor social – Obama e sua esposa não teriam conseguido entrar em Harvard de outra forma. As duas câmaras do Congresso têm um bom número de negros e há prósperos industriais e empresários negros. Por exemplo: entre todos os bilionários do país há seis negros, o que significa que cada um deles representa pelo menos um bilhão de dólares.

Mas a condição dos negros em geral não mudou muito desde a época que Baldwin descreve neste livro, que apareceu, repito, em 1955 – ou seja, há sessenta e sete anos. Basta ver negros exercendo os ofícios mais humildes nas ruas das grandes cidades – Nova York ou Chicago, por exemplo – para saber que pouco mudou desde então.

A pergunta é: por que tantos milhões de latino-americanos querem trabalhar lá, em vez de ficar em seus próprios países? Todos os dias vemos que não é fácil entrar em território norte-americano. Trump fracassou em construir uma fronteira eletrificada para contê-los, pela qual o próprio México pagaria – operação que Biden suspendeu, claro, entre outras coisas porque seria inútil na prática: como se sabe, nada impede a imigração, e é bom que não só os Estados Unidos, mas também a Europa ocidental entenda esse fato.

Por que, então, tantos milhões de latino-americanos querem ter um emprego nos Estados Unidos? Para ficarem milionários? Não. Acho que a grande maioria busca os Estados Unidos para conseguir um tipo de respeito e facilidade em seu futuro e no de seus filhos que nunca alcançaria em seus próprios países, onde a ideia de ser um cholito, ou seja, alguém que a minoria branca considera racialmente inferior, não permitiria, mesmo que tivesse muito dinheiro – algo que, aliás, é muito raro. Esse tipo de consideração é o que os latinos sonham alcançar, além de uma estabilidade de emprego que raramente têm em seus próprios países, devido aos altos e baixos das economias subdesenvolvidas. Acreditávamos que o Chile havia passado dessa fase, mas tudo o que acontece politicamente nos diz que foi uma miragem, não uma realidade.

Por outro lado, todas as estatísticas a que nos acostumaram os sociólogos nos informam que, se os países mais prósperos quiserem manter seus altos padrões de vida – agora um tanto afetados pelo coronavírus – terão de recorrer à imigração. Por isso seria bom que este termo deixasse de causar medo e que os países europeus e norte-americanos começassem a pensar em uma forma mais funcional e realista de facilitar o trânsito humano.

James Baldwin nasceu no Harlem, em uma família muito religiosa, tudo ali clamava para que ele fosse pastor. Ele chegou a se preparar para o ofício e fez alguns sermões, mas seu destino e sua própria vontade tinham muito mais a ver com literatura do que com religião. Assim ele se tornou um dos melhores escritores do nosso tempo. E, embora este livro autobiográfico não chegue a dizê-lo, viveu muitos anos na Europa, acreditando, com certa ingenuidade, que aqui no velho continente o racismo havia sido superado. Ele próprio descobriu que não era bem assim em uma pequena aldeia suíça onde lhe arrumaram – aparentemente várias vezes – uma casa para trabalhar. Ali se faziam arrecadações para comprar um negro africano – um selvagem – e colocá-lo nas mãos dos missionários católicos para que o cristianizassem. Os meninos e meninas da aldeia, assim como algumas pessoas mais velhas, costumavam tocar na cabeça de Baldwin – e ele permitia – sem dúvida admirados com o fato de que essa estranha pensasse e falasse com clareza.

Baldwin foi um dos melhores escritores americanos e haverá de se manter vivo em seus ensaios e romances, que são magníficos. Ele os escreveu em um momento de grande turbulência política, quando praticamente todos os escritores americanos expressavam suas opiniões. Há em todos os seus livros um fundo amargo e doloroso porque sempre contam coisas tristes – em quase todos os casos ligadas à questão racial, embora seu exterior seja sempre amável e até engraçado, como neste livro, que deve ser um dos primeiros que publicou... 

Tudo o que sabemos sobre:
James BaldwinMario Vargas Llosa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.