Stefan Wermuth/Reuters
Stefan Wermuth/Reuters

As palavras que explicam por que Jane Austen é lida até hoje

Uma das principais romancistas da Inglaterra, Jane Austen morreu há 200 anos

Kathleen A. Flynn e Josh Katz, New York Times

18 de julho de 2017 | 13h30

Duzentos anos depois de sua morte, Jane Austen domina um império cultural - fan fiction, adaptações, merchandising - centrado em seus seis romances. Mas fica uma pergunta: por que ela e não qualquer outro?

Franco Moretti, fundador do Stanford Literary Lab, que aplica a análise de dados ao estudo da ficção, afirma que certos livros sobrevivem por meio das escolhas de leitores comuns, um processo parecido com a evolução: “A história literária é moldada pelo fato de que os leitores selecionam determinada obra literária, mantendo-a viva de geração em geração, porque gostam de alguns de seus traços proeminentes”.

Quais traços fazem com que Austen seja tão especial? Esses traços podem ser medidos com dados? O gênio literário pode ser representado graficamente?

Os romances de Austen, razoavelmente bem-sucedidos em seus dias, eram inovadores, até mesmo revolucionários, de maneiras que seus contemporâneos não chegaram a compreender completamente. Algumas das técnicas que ela introduziu - ou utilizou com mais eficiência que qualquer outro romancista até então - se incorporaram de tal forma ao modo como pensamos a ficção que parecem sempre ter existido.

Uma coisa que os primeiros leitores notaram foi o naturalismo. Os romances de Austen, ao contrário daqueles que ela tinha lido na infância e adolescência, passavam longe das improbabilidades. Nada de sinistros castelos italianos (ela zomba desse tipo de dispositivo gótico em A Abadia de Northanger), nada de personagens arrebatadas por libertinos, nada de fortunas deixadas de herança com estranhas cláusulas testamentárias. Walter Scott, um famoso autor de romances históricos quase esquecido nos dias de hoje, elogiou sua “arte de copiar a natureza como ela realmente existe nos caminhos comuns da vida e de apresentar ao leitor não as esplêndidas cenas de um mundo imaginário, mas sim uma representação precisa e impressionante daquilo que acontece diariamente ao seu redor”.

Vamos tentar ver esse naturalismo através dos dados.

Começamos com um conjunto de romances ingleses publicados entre 1710 e 1920. Usando uma técnica chamada análise de componentes principais, transpusemos as obras para um gráfico bidimensional pautado pelo vocabulário de cada livro. Os livros que aparecem mais próximos dentro do gráfico usam palavras mais parecidas.

No eixo horizontal, as palavras mais à esquerda tendem a ser mais abstratas, relacionadas a estados de espírito e relações sociais: conhecido, afeto, presença, conduta, dependência, desejo, esforço, favor, gratidão, indulgência, mérito, obrigado, ocasião, prevalecer, receber, ressentimento, resolução, resolvido, sofrer e virtude.

As palavras mais à direita se ligam ao mundo físico e aos sentidos: azul, perto, escuro, beira, vazio, dedos, grama, cabeça, quente, fora, escolhido, enrolado, redondo, ombro, escorregadio, devagar, de pé, acima, ver e branco.

Os termos mais abstratos são os mais antigos, e os romances de Austen publicados de 1811 a 1818 se encaixam perfeitamente nessa dimensão. O eixo vertical, porém, é ainda mais intrigante. A parte de baixo apresenta palavras mais ligadas ao mundo de Macbeth, como banquete, avistar, trucidado, espada e ti. O romance Ivanhoé (1820), rompante medieval de Scott, fica no extremo dessa parte.

Mas, e a parte de cima, onde Austen aparece quase sozinha, ao lado de Diary of a Nobody (1892) e New Grub Street (1891)? Essas obras têm uma propensão maior que a média para empregar palavras como bastante, realmente e muito - as quais escritores que buscam uma prosa poderosa são exortados a evitar. Esses livros também apresentam mais marcadores de tempo e estados de espírito: sempre, quinzena e semana, estranho, irredutível, desagradável, feliz, triste, achar.

Nada de “esplêndidas cenas de um mundo imaginário”, então. Mas, como Virginia Woolf disse a respeito de Austen, “de todos os grandes escritores, ela é a mais difícil de ser apanhada no ato de grandeza”. Para capturarmos aquela “representação precisa e impressionante” de que Scott falou, precisamos de mais dados.

Um outro estudo analisou as palavras dos romances de Austen, comparando-as com uma coleção de ficção britânica contemporânea e de ficção britânica de 1780 a 1820. Encontramos vários aspectos distintivos.

Em termos comparativos, Austen empregava mais palavras que se referem a mulheres - ela, dela, senhorita - e a relações familiares, como irmã, o que não é de surpreender, considerando seus temas. Também vemos mais palavras como contente, respeitado e esperado. Isso aparece no eixo horizontal do nosso gráfico.

Austen também usava termos intensificadores - tais como muito, tanto, tão - com uma frequência maior que outros escritores. O estudo associou esse uso de intensificadores a um traço crucial de sua escrita, o qual à primeira vista parece resistir à quantificação: a ironia.

As leituras tradicionais de Austen se concentram neste aspecto de sua obra: “as incongruências entre aparência e essência, entre os ideais grandiosos e o ego inadequado”, como disse o crítico Marvin Mudrick. Um olhar sobre passagens que usam intensificadores com grande frequência revela, muitas vezes, um sentido declarado em desacordo com o real, um exagero que invoca sutilmente a dúvida.

Em Emma, a personagem título e sua amiga Sra. Weston conversam sobre Frank Churchill, um jovem encantador que Emma pensa estar atraído por ela, embora tenha acabado de conhecê-lo:

A Sra. Weston foi muito rápida em dizer quão atenciosa e agradável era sua companhia - quanto ela apreciava todo o seu caráter. Ele parecia ter um temperamento muito aberto - certamente muito alegre e animado; não conseguia ver nada de errado em suas ideias. Tudo isso era muito promissor. E, apesar do corte de cabelo infeliz, não havia nada que o tornasse indigno da notável honra que sua imaginação lhe atribuíra: se não a honra de estar realmente apaixonado por ela, ao menos a honra de estar muito perto disso, salvo apenas pela indiferença dela (pois ainda se apegava à resolução de não se casar). A honra, enfim, de ter sido escolhido por ela entre todos os seus conhecidos. 

O leitor de primeira viagem não sabe que Frank esconde um grande segredo, nem que Emma não sabe o que quer. Mas a abundância de intensificadores cria uma sensação de muita insistência, de que nem tudo é o que parece.

Austen também pesava a mão no uso de palavras como poderia e deveria (ou podia e devia) para indicar possibilidade, capacidade, permissão e obrigação. Em seus romances, poderia muitas vezes se combina a não e tende a ser encontrado em frases e expressões ligadas ao pensamento, à percepção ou à fala. Isso reflete o desafio que as personagens de Austen, especialmente suas heroínas, enfrentam quando enxergam as coisas como realmente são ou quando precisam expressar o que sentem.

A ingênua Catherine, de A Abadia de Northanger, enxerga o mundo pelo prisma de seus adorados romances góticos, o que distorce a maneira como ela lê a realidade. Anne Elliot, de Persuasão, trazida de volta ao convívio com o ex-noivo a quem ainda ama, precisa entender se ele ainda sente alguma coisa por ela, mas não pode expressar os seus próprios sentimentos.

Deveria e devia tentem a aparecer perto de ser e ter ou haver, em construções muito utilizadas nas especulações dos personagens sobre os verdadeiros pensamentos e emoções das outras pessoas:

Ela sentiu que devia haver algum problema. A mudança era indubitável. A diferença entre seu comportamento de agora e aquele do Octagon Room era surpreendente.

Este é o cerne da obra de Austen: o que está acontecendo por trás do verniz exigido pela cortesia? Essas palavras, expressões e construções gramaticais características iluminam as maiores preocupações da autora: sentimentos e estados de espírito, os incessantes esforços de suas personagens para compreender a si mesmas e as pessoas ao redor.

A natureza humana (junto com o mecanismo do tempo) é o verdadeiro tema de todos os romances, até mesmo daqueles que estão repletos de fantasmas, piratas, órfãos e guilhotinas. Ao omitir os elementos fantásticos e dramáticos que alimentam as tramas de romances mais convencionais, tanto do seu tempo quanto do nosso, Austen mantém um foco de raio laser.

Esse foco aponta para traços cruciais de sua sobrevivência na luta darwiniana pela imortalidade literária: a aguçada inteligência emocional e uma rara capacidade de apresentá-la em histórias que divertem ao mesmo tempo em que instruem. Austen parece ver as pessoas com tanta clareza que nós, seus leitores, também aprimoramos nossa percepção.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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